terça-feira, 25 de outubro de 2016

Colo

No faroeste da vida, (todos os dias) # (diariamente), há quem se sente numa cadeira, parando em lugares comuns de pessoas vazias,  lutando por um lugar onde se sentar, sem nunca tirar o rabiosque da cadeira.  
E...
...do outro lado da sala, onde os beirais se enchem de várias camadas e tonalidades de medo. Aí! Sim, nessa solidão... há quem não se sente em lado nenhum e fique à espera, num silêncio doloroso, quase a roçar o eterno, de um lugar, nesse lugar, onde os sentimentos se misturam e sabem a tanto e onde esse tanto sabe a colo.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A genética da avó

Embora de coração eu já o sentisse, está cientificamente provado que a nossa avó materna é a responsável por nos transmitir a maior carga genética, de todos os nossos avós e que essa genética salta de geração, fazendo com que muitos de nós se pareçam com a nossa avó materna. 
Muito mais importante que os traços físicos que dela herdei, como os olhos amendoados, o que mais importa é tudo o que ela me transmitiu enquanto foi viva, entre uma, duas, ou mais canecas de café das borras, que tão bem fazia numa cafeteira ao lume em cima de um tripé, ou das filhoses que amassava com os cotovelos, nessas noites em que me contava as histórias dos nossos antepassados, que registei num caderno e que ainda hoje guardo comigo. 
Tenho tantas saudades da minha avó Helena! Lembro-me dela todos os dias, da sua boa disposição, da pronúncia beirã e da sua habilidade para dizer uma centena de "asneiras", literalmente, numa frase com poucas falas, sem parecer mal. Recordo-me da sua alegria e popularidade, uma simpatia genuína que para onde quer que fosse, não passava despercebida. Depois, sinto falta dos afetos, dos seus abraços, da sua presença que enchia a velha cozinha mascarrada pelo fumo, para além da Boneca, a cadela que guardava o quintal, ou a cabrinha Chica que ia com ela para todo o lado. 
Dizem que lembrar alguém a faz viver de novo. A minha querida avó materna, a Helena, mas também a minha avó paterna, a Maria, já não estão entre nós, mas estão no meu coração todos os dias e não há genética, nem ciência que o justifique, apenas um amor eterno que as faz viver em mim todos os dias.
Foto: Avó Maria e avó Helena

sábado, 15 de outubro de 2016

Aprender

Sentado na esplanada das pedrinhas desse rio que normalmente corre de cima para baixo, mas que por vezes também escoa de baixo para cima, bebendo uma caneca de inteligência emotiva, absorvo e observo: um som pouco audível, uma visão nada coerente e um sentir intenso. Como se fosse vítima de um quadro pintado na minha vida, por um acumular de experiências anteriores.
O desafio é sentar-me com essas memórias, que vão muito para além das pedrinhas do rio, que hoje parece vir de baixo para cima e construir: fazer uma casa de amigos, abraçar um gato, beijar um cão..., ver a vida, uma vez na vida como um dueto. Abraçar essa existência, mais ou menos aquecida por cobertores em dias de inverno, em que os cobertores podem ser alguém e o inverno personifica a saudade.

Para lá desse imaginário que por vezes me consome, há uma consistência, como essa noite que acabou de dia, mesmo depois de incluir um périplo pela introspecção, demasiado longo e penoso. Procurar essa realidade por vezes pode ser demasiado forte! E das palavras que a descrevem podem nascer de sementes demasiado confusas, ilógicas, meio perdidas, onde a única certeza é a visão única que cada um tem da sua vida. Saber que é essa a diferença que faz toda a diferença na hora de viver não é fácil, mas mais difícil é não querer aprender. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A culpa é do comando


Adoro os programas televisivos que ano após ano vão repetindo na televisão, especialmente aqueles em que os concorrentes masculinos, parecem que descendem de uma geração de apicultores, onde foram todos picados pelas abelhas, ou alimentados a sopas de "cavalo cansado" e as concorrentes femininas, sexualmente esfomeadas e histéricas, parecem que foram escolhidas a dedo.  A única coisa que parecem ter todos em comum, é o tamanho da massa cefálica e a estadia num lugar que parece mais um programa pornográfico de um canal aberto, ou o bar de alterne virtual. Qualidade? Da melhor, até porque o que se pretende está largamente conseguido: entretenimento pobre, mas com muita audiência; fórmula ideal para adormecidos e ignorantes, para os que adoram mexericos e histórias da desgraça alheia. 
Só lamento que as pessoas se deixem levar e entreter por programas de lixo, que a tantos convém e que não exista, uma autoridade reguladora decente, que faça realmente um trabalho de triagem sobre o que é transmitido na televisão, porque e apesar das pessoas poderem sempre mudar de canal, a verdade é que nem todos têm essa capacidade... e no fim todos sabemos que a culpa é do comando da televisão.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, perante o silencio penetrante que rastejava no ar, apenas momentaneamente interrompido pelo coaxar das rãs, que falavam como se fossem os cânticos do mundo. Essa vozes que ouvimos diariamente, na rua, no café, na livraria da esquina,... que na sua maioria falam do tempo: do tempo que faz, no tempo que vai fazer e no tempo que gostariam que fizesse, sem quase nunca estarem de acordo ... e como se tudo isso já não fosse estranhamente poético, nesse lugar onde os caminhos de cabra acabam e as auto estradas começam, num tempo que segue o seu tempo, naturalmente, há ordens, comandos e desordens de gente, de sentimentos e de lugares, que nem mesmo uma maquilhadora de palavras tem a capacidade de decifrar.
Talvez o melhor seja mesmo avançar o posto das cobranças difíceis às horas de sol e passar directamente para o jantar à luz dos candeeiros, porque, se é que ainda não repararam, há já um mês que o crepúsculo recuou e por mais que se goste dos dias longos e quentes, esperar o outono com gratidão, não tem nada de mal.

Foto: Catirolas

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Divagações escolares

No tempo das nossas avós, ir à escola era um privilégio que poucos podiam usufruir.
Nos tempos dos nossos pais, a ida à escola, era feita entre os intervalos das tarefas do campo e da casa, os professores eram considerados "uns seres superiores a respeitar" e a roupa e o calçado, que passava de irmão para irmão, era o único e maior bem a preservar.
No nosso tempo a escola também era diferente, não tínhamos que levar uma mochila com o dobro do nosso peso, não havia cacifos, nem telemóveis, nem consolas para jogos. Tínhamos as bolas, as fisgas e a imaginação para brincar e os intervalos eram passados com actividades físicas ao ar livre. Levávamos a roupa escolhida pelos nossos pais (com mais ou menos gosto), e as marcas era apenas uma coisa de "betinhos". Já nesse tempo existiam "tablets", mas feitas ou de chocolate, para comer, ou de ardósia, para escrever e o único perigo real, era perdemos as moedas que levávamos nos bolsos para comprar a senha para o almoço.
Nos dias de hoje não existe nada disso.... os professores são os que menos importam na "cadeia hierárquica escolar". Não existe aluno que não leve telemóvel, que não passe os intervalos e às vezes as aulas na caça aos pokemons, que não tenha portátil, "tablet", "ipad" e outras tecnologias, que não tenha conta bancária e cartão multibanco, onde é depositada a mesada e o gosto pelo estudo, pela leitura e investigação dos livros, perde-se muitas vezes na busca fácil que a Internet proporciona.
Mas no meio de tantas disparidades, a escola de hoje continua a ser como a escola de ontem, a nossa, a dos nossos pais e dos nosso avós (aqueles que tiveram a oportunidade de ir). Um lugar de primeiros/últimos encontros/desencontros que marcará para sempre uma vida.

Foto: internet

domingo, 18 de setembro de 2016

Os sons que nos ligam à terra

Os sons que nos ligam à terra podem ser tanta coisa…
um toque de uma campainha que encerra a porta da solidão…
um olhar a percorrer a distância entre essa amizade, que do pé para a mão, liga uma mão a um pé… 

… a sombra de um sorriso de uma tarde de muito sol. 
Para marcar esse caminho, onde a terra é a vida, não é preciso tanto, na verdade não é preciso nada, bastar ser igual a si próprio no passar de cada passagem e simplesmente passar. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A canoa

O tempo até parece filho de uma aparente calmaria, algures entre um outono, a espreitar pelo canto do sobrolho e um verão, que não nos quer deixar cedo demais. Mas este tempo tem gente e histórias que merecem ser levadas de cá para lá, e de lá para cá. Como a do senhor José, vamos chamá-lo assim, que aos oitenta e tantos anos ainda se preocupa em conseguir fazer feliz a sua companheira, em todos os sentidos. Nos detalhes dessa relação que o passar dos anos não apagou.
Tantas vezes vemos alguém preso a um amor, que não é amor. Uma pequena língua de água, cortada por uma incerteza, constantemente fustigada por marés de violência, que destrói, magoa e mata lentamente. Uma vida que tem numa penosa viagem de canoa, escavada com colheradas de coragem, a felicidade. O único acesso à outra margem, onde a terra é vermelha e onde a liberdade de uma solidão, mas uma liberdade, é a única coisa à espera do outro lado. "Tanto, mas ainda assim tão pouco, para quem tem a vontade mas lhe falta a coragem".
“O rio está cheio”, a “corrente é forte”, é preciso entrar na canoa, pegar nos remos e fazer força para lutar contra horas, dias, meses, anos de violência, de desprezo, de ausência de carinho e de falta de amor! É uma operação muito arriscada é preciso coragem, correndo o risco de ser arrastado pela corrente. Mudar não é fácil. Por vezes é preciso mesmo repetir a operação até se conseguir chegar lá… afinal a margem está logo ali a poucos metros de distância.

Foto: Internet

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A página das anedotas

Acordei no meio de um meio caminho, uma Diáspora em que no centro de uma encruzilhada de palavras, matematicamente produzidas, para darem lugar a uma cadeia de noticias, por pessoas que actuam convictas da sobriedade e nobreza dos seus actos, estava uma estranha vontade de começar de novo. Mas começar o quê? Se o caminho está demasiado longe e no seu espaço e tempo, tudo o que surge, é uma linguagem que mais parece uma introspecção de palavras compreendidas sem qualquer compreensão. Falsas promessas de quem merece uma nova oportunidade, desde que a complexidade do momento não ultrapasse a fasquia da vida.
Acordei no meio de um meio caminho. Sabem o que fiz depois de acordar? Procurei a página das anedotas.


sábado, 23 de julho de 2016

Frivolidades de Verão

Frivolidades de Verão


Verão é tempo de férias, um tempo que levamos o ano inteiro a apelidar de "tempo de qualidade". 
Tempo para ler aqueles livros esquecidos nas prateleiras, de visitar os amigos e os familiares (também esquecidos na prateleira, dessa vida em que o agora, é um sempre tarde demais, quando esse conceito na realidade apenas existe na nossa consciência que se auto designa de ocupadíssima. Que vergonha!!!) 
É tempo de, como se diz em português extremamente correcto e nada obtuso, de passar alguns dias de "papo para o ar", de preferência no fim do mundo, não literalmente, mas nesse mundo em que o principio e o fim cheira a maresia e as tardes a escaldantes # escaldões encontros. Mas se na maioria é isso que queremos, é também isso que  não fazemos. Vamos de férias mas continuamos conectados, ligados a fios invisíveis de cusquices banais, agarrados a esse mundo que passamos a vida a resmungar que queremos esquecer, mesmo ali, agora, no tal mundo que não tem fim que chegue para tanta gente, entre uma onda ou duas de mar, nesse local onde a probabilidade de encontrarmos alguém conhecido de tanga ... numa visão bastante aterradora. Alguém que acabou de tirar uma foto e de colocar no facebook, ao mesmo tempo que corre para o mar para tentar apanhar um pokémon e ele foge como um peixinho assustado. Mas porque será tão difícil quebrar a rede?



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Probabilidades

Qual a probabilidade de alguém que se mete à estrada, em cima de uma bicicleta, à procura de transpirar um pouco, ainda só com os pensamentos por companhia, levando com terra, areia e algum pó, não necessariamente do asfalto, e encontrar dois coelhinhos aos pulos, à mesma hora e no mesmo local? A mesma probabilidade de encontrar um casal também aos pulos, à mesma hora e sensivelmente no mesmo local a testar os bancos do carro??? Acho que era isso que estavam a fazer, não fiquei para ver, ia a pedar depressa demais!

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Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...