quarta-feira, 3 de maio de 2017

Fim da Linha


Ela há muito que sabe disso, perdida nessa experiência de apanhar um comboio que já não pára naquele lugar. Tem marido, filhos, amigos, vizinhos, cuscos... Num bairro onde há de tudo, até homens de gravata e pêlos no peito mal depilados, que acendem debruçados sobre a varanda, um cigarro, ou talvez um charro, a avaliar pelo "smell" que atravessa metade desses andares, naquele prédio sem elevador, que tão bem conhece, ou não fosse ter subido e descido esse lance de escadas, milhares de vezes, depois de contornar as esquinas e atravessar essa porta, em busca de um aconchego que nunca chegou. "Foi o acaso primeiro, o vicio veio depois".
A chegar aos sessenta, muito há para revelar, mas o silêncio, é ainda assim, as palavras que melhor sabe expressar e tanto se pode saber através daquilo que não se diz verbalmente! Em casa, a comida já não mora no frigorífico, tal como os filhos que partiram, o marido que fugiu com outra, ou os moveis que foram amputados numa vida feita de cacos. Tudo coisas, tudo descartáveis, mas ela não.
Sentada nesse apeadeiro num comboio que passará um dia para a levar até ao fim da linha, espera, espera e sorri. Primeiro num rasgo e tímido frisar de lábios, que finalmente se transforma em sonoras gargalhadas, antes mesmo de vomitar um palavrão. "Merda! No fim da linha já eu estou há muito tempo"

sábado, 29 de abril de 2017

Para os meus amigos em Menopausa Relacional parte 2

O tempo passa.... como o tempo passa. Mas parece que a partir de uma certa idade passa cada vez mais apressado, ou será que somos nós que o garantimos, presos nessa loucura em que queremos que os dias se transformem em noites, para irmos para a cama descansar mas quando estamos deitados não conseguimos dormir a pensar no que temos que fazer quando tivermos que acordar. O que se passa afinal? 
Porque ligo para esses números, que ainda guardo na agenda em formato papel, pensando que os números que lá estão escritos me encaminham para vocês, que primeiro eram um, que depois passaram a dois e quando estavam quase a ser três, voltaram a ser só um numa casa feita para três. Almas perdidas nesse sentimento que amuou, se desuniu e desentrelaçou perante essa ausência de cabeceira física, lembrando que a psíquica já há muito se mudou de malas e bagagens, para outras paragens, que não pararam por ali. 
Ficar ou partir nem sempre é uma decisão fácil, mas a felicidade começa nesse ponto em que assume que a vida é apenas de quem a vive, e isso não é um acto de egoísmo ou egocentrismo, mas sim um principio de sobrevivência...e eu, bem eu cá estou e estarei de braços abertos para abraçar quem escolha o calor dos meus abraços de braços pequenos, mas por favor, só para não complicar, apareçam um de cada vez.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Vítima


Ilusão de quem vive pensando que a Internet é uma USB para relações, apesar das conexões, mais ou menos vibrantes, falta-lhe o cheiro, o sentimento... falta-lhe a humanização. 

Mudar a vida de alguém contando a sua história, num combate ao esquecimento, nesse testemunho comum com tanto valor, não é fácil, pois não se trata apenas de contar mais uma história na forma escrita, mas de uma forma honesta, como a sentiu no momento em que a registou. Como o episódio daquela mulher, que desde que aqui cheguei, nunca cheguei a ver,  chamava-se Vitima. Dizem as más línguas, que a Vítima, um dia resolveu colocar dez ganchos de borboletas no cabelo e voar para outras paragens, foi encontrar-se com a estátua do veado, na descida para o Farol da Nazaré e..., nada aconteceu. Segundo relatos de quem ouviu dizer, de alguém que viu, mas que não tem a certeza, as sete saias fizeram um balão e ficou presa numa rocha. Reza a lenda, que a partir daí nunca mais ninguém viu a Vítima. Diz o pai, do primo, que é tio avô, de alguém que partiu há muito tempo para a pesca do bacalhau que a tal senhora, a Vítima dos ganchos de borboleta, terá sobrevivido à queda, presa na tal rocha pela originalidade e graciosidade das suas sete saias, mas que terá então morrido de vergonha.

Imagem: Internet


terça-feira, 11 de abril de 2017

O colo

Até parece que estamos no verão, não por causa desse tempo fora do tempo, mas porque toda a gente está de férias! Um privilégio que pelo que vou testemunhando, aqui e ali, muitos parecem estar a usufruir. Todos, menos a Catirolas. Bem se querem mesmo saber, as minhas férias são quase diárias (agora roam-se de inveja!): uma estrada sem transito, tirando os tractores e os papa reformas, claramente em excesso de velocidade; beber uma "birra" na praia, na serra, ou no centro histórico, já que o melhor dos 3 mundos fica a 6 de distância e principalmente ter a melhor companhia do mundo, todos os dias, aquela que me espera de olhos esbugalhados, como se quisesse dizer num só miado, essa linguagem que poucos conseguem entender e muito menos decifrar. Então quando é que desligas da corrente e me dás esse colo merecido?
"Kikinha é já depois deste "delírio"!



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sentir

Como um órgão de reprodução de um texto, que nasce da tecelagem feita pelas aranhas, as palavras! As certas ou as erradas, nem sempre é fácil acertar com elas, dar-lhes um ritmo, vesti-las de sentimentos, senti-las. 
Umas carregadas de tristeza, outras de alegria, tantas de ternura, na verdade tudo depende, tal como a vida, do que fazemos com elas e esse texto em reprodução, vai depender muito da forma como a caneta se enrola no papel através dos dedos, colados à mão. Depende muito da forma e cor da escrita, da leitura e uma vez mais, do sentimento que se coloca quando se escreve. 
Mais ou menos diretas, podem estar repletas de significados e/ou de nadas, podendo dizer pouco com tanto e tanto com nada e para complicar ainda há as letras, que se envolvem e desenvolvem para fazer sentido, nesse amor que nasce do coração nem sempre compreendido, muito menos decifrável, mas que é o que é, porque é real e é ele que dá verdade a essas palavras originando esse texto que muitos ou poucos hão de ler… mas os que o fizerem seguramente terão o privilégio de experimentar um valioso tesouro dos nossos dias, sentir!  


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Futebo(to)lices

Hoje vou recuperar uma crónica que escrevei para um jornal nacional em 1999,  (assim depressa só se passaram 18 anos), o que é mais surpreendente é que depois de o reler, parece que foi escrito sobre os acontecimentos de hoje.

Futebo(to)lices

Os jogos de futebol de domingo à tarde lembram caracóis a pastar num prado viçoso sem grama.
Mundo difícil esse que se enfrenta, frágil como o discurso caótico de um homem vestido de negro, tentando justificar o injustificável perante uma multidão que já o condenou. Será que estamos todos corrompidos? Políticos, carpinteiros, crianças, cidadãos comuns, árbitros (por amor de Deus carpinteiros e crianças???), (...), ninguém parece realmente escapar. Tudo se compra, todos se vendem, e depois esquece-se o que se estava ali a fazer. E para quê?!
No fundo, a vida é como esse jogo de futebol, onde se quer tanto ganhar, seja a que preço for, que se esquece o verdadeiro sentido da disputa, metido nos balneários, ao lado da roupa suja, à espera que venha alguém tirá-lo de lá.
Decididamente a tradição já não é o que era. O futebol de hoje lembra muito mais que uma porção considerável de atletas a correr atrás de uma bola, com as pernas musculadas, algumas depiladas, bem visíveis a olho nu. Agora, o verdadeiro jogo é feito fora das quatro linhas, entre os dirigentes, (ir)responsáveis por esta modalidade e adeptos. De facto, luta-se não pela cor do clube, ou pelo amor à camisola, mas pela cor do dinheiro e pelo amor ao poder, muito mais frutuoso e emocionante.
No meio de toda esta salada mística, sem sabor definido, estão os árbitros, que são normalmente os culpados da polémica que assombra os estádios de futebol; amaldiçoados pela falta mal assinalada, pelo golo anulado, pela grande penalidade inexistente, pela agressão ignorada, enfim... por uma batelada de lances duvidosos. Erros que até poderão ter sido cometidos de forma inocente, mas que nem vale a pena fundamentar, porque os adeptos já estão em fúria, os dirigentes indignados, os jogadores apoquentados e os jornalistas contentíssimos, por terem noticias para mais umas quantas semanas.
Enquanto isso, os pobres homens de negro poderão ter as suas razões, poderão até excogitar provas fortes, mas ninguém quer saber. Para quê, não é noticia!? São o conflito e a polémica que dão vida e revigoram a alma. É disso que muitos gostam neste desporto-rei, sem rei nem roque, nesse reinado cada vez mais duvidoso, "porque afinal ser filho de um homem ilustre não é bem a mesma coisa que se ser ilustre"... Ou será que é?

quinta-feira, 30 de março de 2017

A verdade nas palavras

A ver uma reportagem na SIC, por sinal bastante interessante,sobre Imprensa Falsa e os "sitio" de imprensa falsa, 
A mentira, a forma como circula, os fins a que se destina e a velocidade com que se propaga é absolutamente arrepiante, tão assustador como a quantidade de "nós" que utiliza o verbo aquinhoar em todas as suas conjugações possíveis. Tão agressivo como a realidade de que há sempre alguém a criticar, quando alguém erra e esse erro gera de forma involuntária, uma não verdade, e a partilhar efusivamente, no segundo seguinte, uma mentira sem sequer parar para pensar ou questionar.
Todos os dias sou confrontada com tanta (des)informação: boa, má verdadeira ou falsa, e todos os dias, com essa sentido de critica que domina o meu ser, as dúvidas me assombram: se escutei com clareza, se expressei de forma correta os sentimentos de alguém, são apenas algumas. 
Tantas  e tantas vezes adormeço e acordo sobre "o assunto", para que os erros não assumam a forma de verdade e essa verdade se transforme em mentira, nessa sinceridade que vem do coração e que me ensina a ser verdadeira, não com o outro, mas comigo própria. 


quarta-feira, 29 de março de 2017

Tributo

A poesia em que acredito é aquela que transforma os sonhos em realidade e a realidade em sonhos.
O teatro que me faz vibrar é aquele que usa o palco da vida, para colocar a vida em palco.
A música que quero ouvir, é aquela que me faz sentir estar em casa... e como é bom ter uma casa,...uma casa de sonhos no teatro da realidade|

terça-feira, 28 de março de 2017

O lixo e o mexilhão


Há dias em que me apetecia interiorizar, não confundir com exteriorizar ou teorizar sobre um local que guarda todo o tipo de transacções, vulgarmente conhecido por caixote do lixo, não confundir com banco. 
Está cientificamente provado que o lixo que produzimos diz muito sobre cada um de nós, mas muito de nós diz também sobre o que fazemos com o lixo. Há quem o guarde só para si, por todos cantos e divisões da casa, quem o partilhe com os outros, nos actos e verbalização dos gestos e das palavras, mas há também quem o atire pela janela virtual, pessoal, individual, em grupo,..., numa infinidade de possibilidades, apenas barradas por outra pérola metafórica, o mexilhão. Foquemos então o assunto nesse complexo emaranhado de relações entre um bivalve agarrado às rochas e os seus predadores, que podem ser o pescador, a estrela do mar, ou simplesmente as ondas do mar,..., uma infinidade de possibilidades, a súmula dessa vulgar asserção de quem se lixa é o mexilhão...e não é que é quase quase verdade!

Nota: às vezes o que não faz sentido à primeira faz menos sentido à segunda.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Permissão

Porque as segundas também podem parecer terceiras mal metidas, mesmo naquele ponto onde o ponto de embraiagem roça para o obsceno, nesse segundo que pode durar uma eternidade de reflexão inflectida num universo invertido, paralelo a essa mala onde cabe um minuto de ensaio sobre a vida, mas nada sobre a morte, teorizando sobre o tempo que faz, apesar do tempo que não faz mas que devia fazer, como se o homem mandasse no tempo, e manda! 
Voltando então ao problema mecânico, e ás segundas que parecem sextas, pela velocidade da vida, que não esperou passar mais devagar, nesse lugar onde as horas parecem durar segundos, os anos meses, os meses dias e a vida uma falsa eternidade, nesse quintal que me faz correr sem saber o que vou encontrar, tirando o céu que não existe, ou o chão que os meus passos insiste carregar, onde os aromas marítimos se confundem com "quentes e boas" e o coração é esse insigne espaço onde a mais pesada das criaturas pode levitar. Será que posso esperar pela próxima segunda para acordar?

domingo, 26 de março de 2017

O apagão da Catirolas




Há dias em que as palavras não parecem fazer qualquer sentido, nesse jogo do gato e do rato (em que o rato é que apanha o gato), numa noite de prime time, onde o que fazes é sempre mau, mas o que não fazes é igualmente aterrador. Já houve tempos em que acreditava nas formigas nocturnas, nos seus gestos, na sua boa vontade. Tempos em que a casualidade era tão real, como escrever este post em Trikini, com uma touca na cabeça e chinelos no dedo, num dia semelhante ao de hoje, sem grandes gestos e num silêncio de palavras desconfortantes, em que faz falta tanta coisa, mas ainda mais essa taça de chá de folhas verdes, e muito mais esse amigo, que coloca a água ao lume e nos aconchega, sem questionar.
Por vezes sinto falta de olhar para trás e de ficar por lá algum tempo. Saudades de ouvir musicas de antigamente, ainda que numa versão espanhola, depois da portuguesa ter sido censurada, escrutinada e amplamente criticada...Aglutinada por esse conjunto de actos, que confundimos muitas vezes por "valores", mas que parecem ser, cada vez mais, uma modernice da nossa era, vou então ouvir essa música e suspender a actividade eléctrica, ou se preferirem, desligar!

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...