terça-feira, 9 de maio de 2017

A fé dos carteiristas


É um assunto incontornável, Portugal prepara-se para receber o Papa Francisco e subitamente passamos de uma população maioritariamente católica, para outra esmagadoramente católica. Poderá ser apenas uma questão de semântica, mas a verdade é que se a fé de cada um, é inquestionável, questionável é no entanto o negócio que se vive à volta dos que acreditam, e eu acredito que Fátima vai encher-se de uma multidão movida pelo carisma do Papa Chico, pela força da fé e de toda esse mistério em torno de um amor gigante, difícil de explicar, muito complicado de desmontar, mas estrondosamente forte de sentir.
Fátima vai vestir-se de fé mas também de carteiristas: os carteiristas dos hotéis, dos restaurantes, dos pagadores de promessas, dos comerciantes de objectos de fé... e de tantos outros, vendidos como necessidades, que necessitamos necessariamente de saciar, enquanto saciamos essa outra vontade de amor, que o Santuário de Fátima encerra, porque seja fácil ou difícil de acreditar, já não é a ocasião que faz o ladrão, mas sim o espertalhão!

Imagem: Internet

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Redutores de velocidade para pedestres


Numa semana em que peregrinação ou caminhada, será provavelmente uma das palavras mais ditas, ou escutadas, se ainda não meteu os pés na estrada, o melhor é fazê-lo de forma consciente e já agora não em passo muito acelerado, não vá alguém lembrar-se de trazer mais um negócio da China para Portugal, é que esta semana e segundo o jornal inglês The Telegraph, foram colocados, numa zona bela e histórica do país, a cidade antiga de Taierzhuang, mais de 50 redutores de velocidade, não para automóveis, mas para pedestres. Sim. Para quem anda a pé. Uma espécie de lombas amarelo e preto baptizadas por "estrada da tábua de lavar", com o propósito, dizem as autoridades chinesas, de levar os turistas a passear de forma mais ordeira respeitando e apreciando o local, "abrandando-os".
Independentemente do efeito das lombas, uma coisa é certa, com tal ruído visual, aquele que é conhecido como um local de beleza do país, passa a ser agora e por tal aberração, seguramente um local a evitar.



Créditos: People's Daily China


domingo, 7 de maio de 2017

Mãe da vida / Vida de mãe

Era ela, tinha a certeza a mulher mais bela que alguma vez tinha visto. Olhos claros, pele enrugada, barriga flácida e umas pernas esguias que não escondiam a passagem da idade, apesar do bom estado de conservação. Retratos de um caminho percorrido, nem sempre brando no passeio da idade, como um carrossel que anda às voltas, às voltas, e que ao contrário do que se pensa, nem sempre acaba no mesmo lugar. A sua vida era aquela, correndo e parando ora num lado ora noutro, tendo apenas como porto de abrigo, o quartinho no número vinte e sete, do sexto andar, da Pensão do Martim Moniz, sem elevador e aquela cama que nunca fora apenas sua. Tanto tempo à sua procura e agora ali estava ela, seria possível?!
Meio receoso e com o rosto suado de tanta emoção dirigiu-se a ela, e, com a coragem que o momento requer, lá disse a palavra de três letras, MÃE!
Ela, espantada, olhou para ele inicialmente num silêncio abrupto, mas logo prontamente lhe disse que estava enganado, que nunca tinha tido filhos e que não era a mulher que procurava.
Afinal como poderia ser? Tanto sofrimento ultrapassado, e agora ali estava ele, fruto do único homem que amou na vida e que cedo a desgraçou, como se atreveria a querer estragar-lhe a vida.
Desanimado, pouco convencido mas rendido à sua repulsa, virou-lhe costas e continuou o seu caminho.
Era ela a mulher mais bela que alguma vez tinha visto, mas na dúvida… não podia ser, afinal, a única semelhança entre eles era a tonalidade de olhos, a rugosidade da pele, a barriga flácida, as pernas esguias e até o bar onde trabalhava todas as noites, vendendo o corpo a copos de prazer, não era muito diferente da esquina onde ela parava, por isso tinha a certeza que não era ela, mas na dúvida... como poderia não ser?



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Desligar

Brincar na rua, jogar à bola, andar de bicicleta, saltar à corda, esfolar os joelhos, cair na rede... da baliza.
As brincadeiras de ontem parecem muito mais perigosas que as de hoje? Mas não são.
Nestes tempos onde se passa a mensagem de que andar na rua é perigoso e violento. Onde se controla tudo e todos, como quem entra e sai de algum lugar, com uma hipervigilância que não se consegue isolar. Onde se deixou de sair de casa para "sair dentro de casa". Onde gerámos outro tipo de rua, paralela, mas mais perigosa e mais violenta. Um lugar onde e apesar de não se estar fisicamente, tudo se controla virtualmente: as coisas, as pessoas, as coisas pessoas e as pessoas coisas. Uma dimensão desmesurável e assustadora, que nos faz esquecer que o maior perigo se encontra dentro dessas quatro paredes que "blindámos".
O progresso tal como os avanços e acessos virtuais fazem parte da vida e não é fácil sair desse universo paralelo, deslumbrante e acessível a todos, mas há dias e há momentos em que se quiséssemos poderíamos simplesmente desligar, mas será que queremos?

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Fim da Linha


Ela há muito que sabe disso, perdida nessa experiência de apanhar um comboio que já não pára naquele lugar. Tem marido, filhos, amigos, vizinhos, cuscos... Num bairro onde há de tudo, até homens de gravata e pêlos no peito mal depilados, que acendem debruçados sobre a varanda, um cigarro, ou talvez um charro, a avaliar pelo "smell" que atravessa metade desses andares, naquele prédio sem elevador, que tão bem conhece, ou não fosse ter subido e descido esse lance de escadas, milhares de vezes, depois de contornar as esquinas e atravessar essa porta, em busca de um aconchego que nunca chegou. "Foi o acaso primeiro, o vicio veio depois".
A chegar aos sessenta, muito há para revelar, mas o silêncio, é ainda assim, as palavras que melhor sabe expressar e tanto se pode saber através daquilo que não se diz verbalmente! Em casa, a comida já não mora no frigorífico, tal como os filhos que partiram, o marido que fugiu com outra, ou os moveis que foram amputados numa vida feita de cacos. Tudo coisas, tudo descartáveis, mas ela não.
Sentada nesse apeadeiro num comboio que passará um dia para a levar até ao fim da linha, espera, espera e sorri. Primeiro num rasgo e tímido frisar de lábios, que finalmente se transforma em sonoras gargalhadas, antes mesmo de vomitar um palavrão. "Merda! No fim da linha já eu estou há muito tempo"

sábado, 29 de abril de 2017

Para os meus amigos em Menopausa Relacional parte 2

O tempo passa.... como o tempo passa. Mas parece que a partir de uma certa idade passa cada vez mais apressado, ou será que somos nós que o garantimos, presos nessa loucura em que queremos que os dias se transformem em noites, para irmos para a cama descansar mas quando estamos deitados não conseguimos dormir a pensar no que temos que fazer quando tivermos que acordar. O que se passa afinal? 
Porque ligo para esses números, que ainda guardo na agenda em formato papel, pensando que os números que lá estão escritos me encaminham para vocês, que primeiro eram um, que depois passaram a dois e quando estavam quase a ser três, voltaram a ser só um numa casa feita para três. Almas perdidas nesse sentimento que amuou, se desuniu e desentrelaçou perante essa ausência de cabeceira física, lembrando que a psíquica já há muito se mudou de malas e bagagens, para outras paragens, que não pararam por ali. 
Ficar ou partir nem sempre é uma decisão fácil, mas a felicidade começa nesse ponto em que assume que a vida é apenas de quem a vive, e isso não é um acto de egoísmo ou egocentrismo, mas sim um principio de sobrevivência...e eu, bem eu cá estou e estarei de braços abertos para abraçar quem escolha o calor dos meus abraços de braços pequenos, mas por favor, só para não complicar, apareçam um de cada vez.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Vítima


Ilusão de quem vive pensando que a Internet é uma USB para relações, apesar das conexões, mais ou menos vibrantes, falta-lhe o cheiro, o sentimento... falta-lhe a humanização. 

Mudar a vida de alguém contando a sua história, num combate ao esquecimento, nesse testemunho comum com tanto valor, não é fácil, pois não se trata apenas de contar mais uma história na forma escrita, mas de uma forma honesta, como a sentiu no momento em que a registou. Como o episódio daquela mulher, que desde que aqui cheguei, nunca cheguei a ver,  chamava-se Vitima. Dizem as más línguas, que a Vítima, um dia resolveu colocar dez ganchos de borboletas no cabelo e voar para outras paragens, foi encontrar-se com a estátua do veado, na descida para o Farol da Nazaré e..., nada aconteceu. Segundo relatos de quem ouviu dizer, de alguém que viu, mas que não tem a certeza, as sete saias fizeram um balão e ficou presa numa rocha. Reza a lenda, que a partir daí nunca mais ninguém viu a Vítima. Diz o pai, do primo, que é tio avô, de alguém que partiu há muito tempo para a pesca do bacalhau que a tal senhora, a Vítima dos ganchos de borboleta, terá sobrevivido à queda, presa na tal rocha pela originalidade e graciosidade das suas sete saias, mas que terá então morrido de vergonha.

Imagem: Internet


terça-feira, 11 de abril de 2017

O colo

Até parece que estamos no verão, não por causa desse tempo fora do tempo, mas porque toda a gente está de férias! Um privilégio que pelo que vou testemunhando, aqui e ali, muitos parecem estar a usufruir. Todos, menos a Catirolas. Bem se querem mesmo saber, as minhas férias são quase diárias (agora roam-se de inveja!): uma estrada sem transito, tirando os tractores e os papa reformas, claramente em excesso de velocidade; beber uma "birra" na praia, na serra, ou no centro histórico, já que o melhor dos 3 mundos fica a 6 de distância e principalmente ter a melhor companhia do mundo, todos os dias, aquela que me espera de olhos esbugalhados, como se quisesse dizer num só miado, essa linguagem que poucos conseguem entender e muito menos decifrar. Então quando é que desligas da corrente e me dás esse colo merecido?
"Kikinha é já depois deste "delírio"!



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sentir

Como um órgão de reprodução de um texto, que nasce da tecelagem feita pelas aranhas, as palavras! As certas ou as erradas, nem sempre é fácil acertar com elas, dar-lhes um ritmo, vesti-las de sentimentos, senti-las. 
Umas carregadas de tristeza, outras de alegria, tantas de ternura, na verdade tudo depende, tal como a vida, do que fazemos com elas e esse texto em reprodução, vai depender muito da forma como a caneta se enrola no papel através dos dedos, colados à mão. Depende muito da forma e cor da escrita, da leitura e uma vez mais, do sentimento que se coloca quando se escreve. 
Mais ou menos diretas, podem estar repletas de significados e/ou de nadas, podendo dizer pouco com tanto e tanto com nada e para complicar ainda há as letras, que se envolvem e desenvolvem para fazer sentido, nesse amor que nasce do coração nem sempre compreendido, muito menos decifrável, mas que é o que é, porque é real e é ele que dá verdade a essas palavras originando esse texto que muitos ou poucos hão de ler… mas os que o fizerem seguramente terão o privilégio de experimentar um valioso tesouro dos nossos dias, sentir!  


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Futebo(to)lices

Hoje vou recuperar uma crónica que escrevei para um jornal nacional em 1999,  (assim depressa só se passaram 18 anos), o que é mais surpreendente é que depois de o reler, parece que foi escrito sobre os acontecimentos de hoje.

Futebo(to)lices

Os jogos de futebol de domingo à tarde lembram caracóis a pastar num prado viçoso sem grama.
Mundo difícil esse que se enfrenta, frágil como o discurso caótico de um homem vestido de negro, tentando justificar o injustificável perante uma multidão que já o condenou. Será que estamos todos corrompidos? Políticos, carpinteiros, crianças, cidadãos comuns, árbitros (por amor de Deus carpinteiros e crianças???), (...), ninguém parece realmente escapar. Tudo se compra, todos se vendem, e depois esquece-se o que se estava ali a fazer. E para quê?!
No fundo, a vida é como esse jogo de futebol, onde se quer tanto ganhar, seja a que preço for, que se esquece o verdadeiro sentido da disputa, metido nos balneários, ao lado da roupa suja, à espera que venha alguém tirá-lo de lá.
Decididamente a tradição já não é o que era. O futebol de hoje lembra muito mais que uma porção considerável de atletas a correr atrás de uma bola, com as pernas musculadas, algumas depiladas, bem visíveis a olho nu. Agora, o verdadeiro jogo é feito fora das quatro linhas, entre os dirigentes, (ir)responsáveis por esta modalidade e adeptos. De facto, luta-se não pela cor do clube, ou pelo amor à camisola, mas pela cor do dinheiro e pelo amor ao poder, muito mais frutuoso e emocionante.
No meio de toda esta salada mística, sem sabor definido, estão os árbitros, que são normalmente os culpados da polémica que assombra os estádios de futebol; amaldiçoados pela falta mal assinalada, pelo golo anulado, pela grande penalidade inexistente, pela agressão ignorada, enfim... por uma batelada de lances duvidosos. Erros que até poderão ter sido cometidos de forma inocente, mas que nem vale a pena fundamentar, porque os adeptos já estão em fúria, os dirigentes indignados, os jogadores apoquentados e os jornalistas contentíssimos, por terem noticias para mais umas quantas semanas.
Enquanto isso, os pobres homens de negro poderão ter as suas razões, poderão até excogitar provas fortes, mas ninguém quer saber. Para quê, não é noticia!? São o conflito e a polémica que dão vida e revigoram a alma. É disso que muitos gostam neste desporto-rei, sem rei nem roque, nesse reinado cada vez mais duvidoso, "porque afinal ser filho de um homem ilustre não é bem a mesma coisa que se ser ilustre"... Ou será que é?

quinta-feira, 30 de março de 2017

A verdade nas palavras

A ver uma reportagem na SIC, por sinal bastante interessante,sobre Imprensa Falsa e os "sitio" de imprensa falsa, 
A mentira, a forma como circula, os fins a que se destina e a velocidade com que se propaga é absolutamente arrepiante, tão assustador como a quantidade de "nós" que utiliza o verbo aquinhoar em todas as suas conjugações possíveis. Tão agressivo como a realidade de que há sempre alguém a criticar, quando alguém erra e esse erro gera de forma involuntária, uma não verdade, e a partilhar efusivamente, no segundo seguinte, uma mentira sem sequer parar para pensar ou questionar.
Todos os dias sou confrontada com tanta (des)informação: boa, má verdadeira ou falsa, e todos os dias, com essa sentido de critica que domina o meu ser, as dúvidas me assombram: se escutei com clareza, se expressei de forma correta os sentimentos de alguém, são apenas algumas. 
Tantas  e tantas vezes adormeço e acordo sobre "o assunto", para que os erros não assumam a forma de verdade e essa verdade se transforme em mentira, nessa sinceridade que vem do coração e que me ensina a ser verdadeira, não com o outro, mas comigo própria. 


Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...