domingo, 8 de julho de 2018

Madrugada

Há dias em que te levantas para ir trabalhar e outros para ir passear, mas que te levantas, cedo, com medo que o dia passe, a vida galope e a paixão corra demasiado depressa por ti. Pois nas noites em que dormes profundamente, lembras-te, de que não te lembras de nada e isso parece ser demasiado assustador, muito amedrontador, tal como esses dias em que as pernas te pesam tanto de desejo e os pensamentos são tão leves que te levam as ideias... por fim o balanço do mar, "bem me quer! mal me quer!"

Bem-querer

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Passos

E se caíres tens alguém que te agarre, que te ampare, que te abrace?
Alguém que te eleve pela preciosidade do ser, adormecido dentro de ti. Alguém que te veja para lá dessa beleza de olhos fechados, um olhar que acorda e te esmaga com essa sinceridade e verdade que faz o sol parecer um dia de chuva... mas dos bons. Sinceridade nas palavras, aquelas que te tocam, te molham a pele e te arrepiam o coração, com pequenos passos de amor, que não chegam depressa, mas que um dia que chegarão ao seu destino. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Numa atenção à temperatura

Numa atenção à temperatura ... o cabelo pode não ter o comprimento, ou a cor desejada, o rosto, as delineações pretendidas, a cintura, a proporção certa, os olhos, essa alegria de achar e perder um segundo de tempo na vida, envolvido em tudo o que é possível para esquecer e o sorriso, apesar de ser muito bonito, pode não ser perfeito, mas afinal o que o é?
Sei bem onde deixei o bloco de anotações, cheio de palavras começadas pela primeira letra do alfabeto, apenas não tenho a certeza de ser as palavras certas, mas as palavras, tal como os retratos que tiramos com o coração e guardamos para nós, são apenas uma forma de expressão, nessa vontade de verbalizar sem nada dizer, onde a beleza é tudo menos aquilo que se consegue ver à primeira vez.... muito escaldante.
Foto: Catirolas

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Estórias e rostos de gente por aí

E se um dia, desses em que na terra, brota um calor avassalador e onde a água é quente, mas muito fresca quando deitada goela abaixo, encontrássemos a vida? 
A vida nos pequenos lugares, que não é muito diferente da vida dos lugares pequenos, enche-me de emoção.  
Já passava da hora do almoço, apaixonada pela história, história das gentes e dos lugares, entrei na igreja levada por uma melodia imponente, por vezes suave, outras bruscas, provocada pelos movimentos das mãos de Maria a ensaiar no órgão da igreja. "Isso bem afinado", diz-lhe uma voz logo ali ao lado, a voz do professor atento, que não deixa escapar nenhum detalhe. Um pouco mais à frente a Madalena limpa os bancos de madeira revestidos por uma napa vermelha, um pequeno fio escondido, deixa perceber que no rigor do inverno serão aquecidos.
"A visita é bonita, acha que vale a pena"? Pergunto-lhe. "Vale sim menina, só a vista da parte de cima vale tudo, e os objectos também". Convencida pela Madalena, comprei o bilhete, enquanto a guia me sorria eu retribui a simpatia com uma fotografia. Fiz a visita. Madalena estava certa, era muito bonita.
Deixei a igreja para me entregar à sinuosidade das ruas, empedradas, limpas, viradas para as gentes, aquelas que por ali passam e aquelas que ali ficam, passando o tempo a ver outros passar, como o Francisco, o vendedor de "sons", a imitar um canário, objecto que tenta vender a quem passa na rua. "Há quanto tempo"? Muito tempo! Demasiado para quem nada vende, e muito pouco para quem nada compra.
Deixei a rua da cidade, segui direita ao campo, no pensamento a estrada... e se a estrada por onde segues, não for aquela por onde planeaste ir? E se ela te levar para um caminho onde a erva tenta romper o queimado da terra e o rio te obriga a atravessar uma água transparente?Não faz mal, aliás faz muito bem. Segui em direcção ao campo, na caminhada de descoberta na natureza, pisei uma cobra, fotografei uma formiga, deitei-me no chão e tentei fundir-me com a terra. Perdidamente embrenhada nos pensamentos, encontrei-me no horizonte, com o Manuel e o Joaquim em cima de uma casa de pedra com o telhando redondo, um pouco mais de perto percebo que são funcionários da terra reparando a Cárcoda, sedenta por dois dedos de conversa, mas sem nada lhes perguntar respondem-me, "ali  abaixo há uma fonte com água fresquinha". Informação recolhida e confirmada. Se a água não tem sabor, porque aquela sabia tão bem? Talvez pela sede de beber, de saciar com beijos de vida, a vida... afinal o que se pode fazer a tanto amor? Deixar amar.






Fotos: Catirolas. Nota os nomes das pessoas no texto são fictícios.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A despedida

Tic tac, tic tac... o gosto pelas artes sempre fez parte do seu ambiente familiar, mas também a natureza e a ginástica. Correr, pular, saltar, uma constante efusão de brincadeiras, era o dia a dia daqueles cinco meigos, lindos e leais companheiros. Vê-los nascer foi das coisas mais maravilhosas a que assisti. Uma noite fria ao lado da mãe, como um apoio materno que não tem vergonha de partilhar o amor de um ser por um outro ser, que não o olha sequer assim... limitando-se a amar, sem pensamentos ou preconceitos. Temos tanto que aprender... 
Arranjar um lar sempre foi opção, para cada um deles, um lugar físico, que será um espaço diferente daquele lugar em que sempre irão habitar e a que damos o nome do coração. Sim, o meu coração será sempre a sua casa. Apesar desta dualidade de querer e não querer, eles partiram. E hoje foi o ultimo, o dia da despedida e já tenho tantas saudades dos meus tesouros da natureza.
Se chorei? Sim. 
Porquê? Talvez porque sou demasiado sensível, ou lamechas se preferirem, apesar de não deixar transparecer. Mas essencialmente porque me comove a lembrança desse amor incondicional, genuíno e sincero de quem te ama sem pedir nada em troca... 
Foto: tesouros da natureza da Catirolas

Os condutores da vida


Às vezes a vida é como esses condutores que vão na estrada à nossa frente. Umas vezes andam devagar, outras depressa demais e ainda outras vezes, tantas, não andam nem desandam. 
Marcar passo, também é viver. 
Será?

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Helena

E se um dia as minhas mãos decidirem ir para um lugar diferente, daquele que os meus pés querem ir?
Tenho guardado há alguns anos numa folha de papel A3, a árvore genealógica da família. Um esboço que fiz, com a ajuda da memória da minha querida avó Helena. Os nomes dos meus antepassados e algumas curiosidades que ali constam são o registo, um arquivo, de alguma importância para mim. Mas não tão importante como a recordação da Helena, que abracei tantas vezes, (mas nunca o suficiente). 
Helena era uma mulher beirã, de pele morena, olhos claros a lembrar as amendoeiras em flor, mas o que mais sobressaía nela era a sua alegria contagiante. "Helena conte lá uma das suas!" Diziam-lhe tantas vezes. Uma das suas, significava uma lengalenga, uma chalaça, ou algo pior,  que fazia sempre alguém rir.
Ninguém lhe era indiferente e eu não era diferente.
Sentada num banco de madeira, enquanto a cafeteira de alumínio mascarrada, já sem asa, dançando ao lume, fazia o café, Helena contava-me histórias sem papel, livros ou fotografias para se documentar, falava-me ao coração, com coração...e o maior legado que me deixou, o registo mais importante para a minha árvore genealógica, foi mesmo esse amor.
Helena partiu quando menos se esperava. Uma noite sentada ao lume de lareira aberta, caiu e queimou-se. Não era por ser avó, ou por ser minha, (a minha avó), mas Helena era uma mulher muito especial! Não deixava ninguém indiferente e eu não era diferente. Gostava mesmo muito dela!



terça-feira, 29 de maio de 2018

A discrição era a ordem do dia

A madeira embebida em óleo queimado dava um ar escurecido ao lugar, combinado com o odor a vinho entornado em cima do balcão, suspenso no ar, como um denso nevoeiro, húmido, frio e pesado. Havia tudo para fugir aquele lugar e no entanto, os seus pés de lá não se moviam, era assim há tantos anos, primeiro o bisavô, depois o avô, o pai e agora ele... agarrado aquele oficio, como uma atração pelo mistério de uma paixão física que foge a qualquer compreensão, e que não tem forma de ser resolvido. Para lá de todas as emoções que aquele lugar lhe despertava, era um obsequioso taberneiro, que de uma forma carismática fazia, o que tão bem sabia fazer: servir e escutar, sem nada dizer. A discrição era a ordem do dia. Servia os clientes habituais, também eles de gerações e aqueles que vinham de passagem, como naquele dia, alguém sentado na ponta do balcão, cuja caricia da sua voz, era tão real como se tivesse realmente lhe tocado, e os olhos e o olhar, a parte que mais interesse lhe despertava, eram verdadeiramente singulares, perdidos entre um verde e um castanho, a lembrar searas de outono e prados na primavera, alguém que lhe despertou a atenção. Não era um cliente habitual, mas bebia como se fosse.Quis meter conversa com ela, dizer-lhe duas palavras, mas não foi capaz. Ele era um obsequioso taberneiro, que de uma forma carismática fazia, o que tão bem sabia fazer, servir e escutar, sem nada dizer... a discrição era a ordem do dia.

Na ressaca do festival

E um ano depois, eis que voltámos ao que éramos. Um país com pouca tendência para ficar nos primeiros lugares do Festival da Eurovisão, (isto numa visão optimista da coisa).O meu Jardim não foi capaz de fazer florir o amor, desse coração que amava pelos dois. Mas também se amava pelos dois, significa que era uma história de amor não correspondida, mas que ainda assim durou um ano (isto numa visão optimista da coisa). 






quarta-feira, 9 de maio de 2018

Ínvio

Perdida de amores, era com extrema atenção que tentava apagar com o que tinha à mão, a tinta que lhe manchava as pernas magras, pouco definidas, mas graciosas. Nesses detalhes que as calças de ganga desbotadas, mal escondia. Mas, sem se importar realmente com a aparência, oferecia seus lábios,  para um beijo vendido, mas não comprado, seduzido pelas sensações que combinavam o doce de um limão, com a amargura de um morango, num antagonismo de sabores que o tornavam demorado. 
Às vezes, durante o despertar das tardes e o adormecer das manhãs, lá lhe aparecia o sussurro do coração, e por momentos, ouvindo os seus mexericos, deixava-se levar por esse caminho ínvio, sem arrepiar caminho. Tudo o que sabia é que se olhasse nos seus olhos sem desviar o olhar talvez o feitiço se quebrasse. Mas seria feitiço? Quem sabe se seria. Quem sabe o que seria.
Demasiado ruído para se entender, ou emotivo para explicar, mas quando o silêncio aparecia, lá vinha o beijo e foram tantos, vagarosos, irresistíveis... os miseráveis! Tão perturbadores que, por mais que tentasse, não conseguia sequer lembrar-se deles, apenas sentir-lhes o gosto... se a um quase também for permitido sentir.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Generalizações


Às vezes parece que vivemos em mundos diferentes, em cidades diferentes, em corpos diferentes… em vidas diferentes. Visto de fora para dentro, parece tudo fantástico! O emprego que outro tem, a namorada do vizinho e até o animal de companhia, uma excelente companhia, sempre melhor visto de fora… Não é uma questão de cobiça, apenas de matemática em que ao equacionar da realidade, aquilo que construímos parece sempre melhor quando a vida não é vivida por nós, cheia de feedback positivos, ou likes se preferir. Uma percepção da realidade construída colectivamente, apenas separada quando deixamos de usar filtros, hierarquias ou artefactos.
Embora às vezes pareça, não vivemos em mundos diferentes, em cidades diferentes, corpos diferentes ou vidas diferentes, vivemos... Será que errar é assim tão desumano?      

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