segunda-feira, 13 de agosto de 2018

(in)dependência


No outro dia, alguém que me “lia” profissionalmente, disse que mesmo sem eu assinar, era capaz de reconhecer os meus textos pela escrita. “Ler um texto e dizer este texto é seu. É um elogio”, gritou-me dada a minha apatia. (Isto porque era suposto agradecer as palavras. Afinal não há melhor elogio para alguém que escreve do que identificarem o escritor).
Tantas vezes me pergunto porque escrevo? Porque sigo este caminho? Que dom parvo é este que me acompanha ao longo da vida, que não escolhi, mas ao qual não resisti, não resisto.
Nunca quis ser escritora, não me formei em letras e toda a minha vida profissional esteve mais relacionada com números ou estatísticas do que com letras. Mas ainda assim, por mais que eu não as quisesse, elas sempre me quiseram a mim. Como um amor impossível, que persiste e insiste e que no fim não resiste. Gosto de escrever é uma realidade, apesar de nunca estar completamente satisfeita. Nem sempre é fácil, profissionalmente falando, aliás é muito difícil (não posso ser sempre a Catirolas). Não espero ser perfeita, sei que não consigo ser, há sempre muito, ou pouco, a melhorar. Também não espero ganhar nenhum prémio, (embora às vezes até desse jeito). Mas se as palavras puderem despertar sentimentos e esses sentimentos terminarem num sorriso, então já valeu a pena… um sorriso sabe muito bem.

28 de setembro de 1996


Era verão. Os dias quentes, correndo pelos corredores aqueciam-me o sangue e aceleravam-me a pulsação. A adrenalina enchia-me os tentáculos nevrálgicos e toda a minha alma vibrava por entre as margens do mundo. Depois, viajava pela praia cheia de gente, de corpos morenos, desfrutando um sol que sorria. E as águas, fatídicas, beijavam sensualmente a areia pelos lábios das ondas. Eloquentemente, via a lua adorando com profunda devoção e amor a noite, que era sempre maior que o dia. Depois, vinha a música, que rastejava dentro de mim pelas ruas compridas e alinhadas, desenhando contornos de um corpo romântico, profundamente apaixonado pelos tecidos de cores claras, bordados pelos jardins encantadores dos montes verdes, que se perdiam no horizonte, sem os olhos conseguirem alcançar o seu fim.
Era verão e eu adormecia à sombra de pensamentos bons, dos loureiros viçosos, deleitado pela melodia dos rouxinóis, escondidos nos maciços de verdura. A seguir, embrenhava-me nos braços de cupido e deixava-me levar pela sua magia, que explodia em relâmpagos plenos de força. Até que, um dia senti a minha vista perpassada por uma aflição cheia de amarguras, montes afastando-se, repudiando-me, perpetuando-me com uma nostalgia lancinante, sem cirurgia possível. Foi então que me apercebi que o outono se aproximava rapidamente, que a luz e a vida tinham dado lugar à sombra que me iluminou a alma. Senti que a tristeza me queimava as mãos, que o deserto me inundava e secava as veias e, finalmente, que a música, que me dava vida e alegria (rastejando dentro de mim pelas ruas compridas e alinhadas, desenhando contornos de um corpo romântico e  apaixonado), tinha deixado de tocar e que, por isso, já não era verão.


Foto: Catirolas

domingo, 12 de agosto de 2018

Caminhos de cabras


E se a estrada por onde segues não for aquela por onde planeaste ir?
Ti Maria Cremilde leva a enxada às costas, vai para a horta.
Acorda lá pelas cinco da manhã. Com duas fatias de broa e um caneca de café, antes do calor queimar mais uma ponta do chapéu de palha, remendado com linhas de linho, segue para a horta.
Envergando seu fato preto, lembrando a partida de entes queridos, desloca-se a pé para o campo, onde plantou uma mão cheia de tomate, que está quase maduro e que entretanto fará compotas para vender, todos os sábados, no mercado da vila. As pouco conhecidas mas muito desejadas compotas da Cremilde.
Ti Maria vive numa completa solidão, mas não é uma mulher só, tal não é a dimensão da vida, não apenas dos afazeres que a ocupam ao longo do dia, mas na vontade com que se dá e abre o seu coração.
Vive isolada no cimo de um monte, onde a vista que se avista é demasiado longe para quem está tão perto do ruído da civilização, mas que assim quer ficar. Dali sente o ar fresco e húmido da manhã, antes do sol subir bem alto e vê o mar, onde nunca se banhou.
Conheci esta linda mulher de olhos verdes e cabelo grisalho num acaso, seguindo uma estrada pela qual não planei ir. Recebeu-me com um sorriso, partilhou comigo broa de milho barrada com compota de tomate, contou-me histórias do arco da velha, deixou-me abraçar os seus dois gatinhos farruscos, pegar ao colo nas galinhas, tirar o leite das cabrinhas, deixou-me ficar.
E eu fiquei, perdida nesse lugar, (por onde não planei ir), mas achada em tudo o resto…


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A vida


Pára! Escuta e desolha! Sim de-so-lha, “fracturando a palavra”, primeiro de dentro para fora, depois de fora para dentro, com ou sem óculos. “Aquilo que se vê depende e muito do que se sente, não apenas do que seremos capaz de sentir, mas do que aceitamos realmente sentir. Será?”
Coincidência nos afectos, os amores também já por ali não moram não, nem os autocarros, ou as camionetas, muito menos as carroças e os carroceis, “talvez estes últimos ainda balancem em dias de festa e provoquem ali qualquer ignição”. Na generalidade e chamando os bois pelos nomes, já nenhum boi por ali se digna a parar. Por esta altura e esquecendo esse retrato, que deixa a nu todas as fragilidades ventriculares, resta a lembrança: um penico de dias vividos intensamente pela herança de alguém minguado de dotes físicos, mas muito atraente na intelectualidade do seu ser, onde sobressai essa estranha mas perfeita forma de amar “se é que existe perfeição”, um amor que tudo nega mas que tudo aceita.
Só há um caminho para a vida… a vida.

Foto: Catirolas

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A serra

Um pouco à sua maneira, dia após dia. Subir a encosta, ao principio do dia e voltar a descê-la. Na sacola a marmita, um casqueiro e uma lata de atum para enganar o estômago, quando o sol se resolver aparecer, posicionando-se mesmo por cima dos seus cabelos, entre negro e branco de tanto amor por corresponder. 
A cidade a dois passos do alcance da sua vista, olhos castanhos da cor das bolotas. No alto do ponto mais alto, "que vista! Um deslumbre de partir o coração", como o seu. As mulheres não se acertavam no seu caminho. Não era por ele, mas pelo local. Não queriam ficar por ali, naquele isolamento, (perto da vista mas longe de tudo o resto). Mas Joaquim não perdera a esperança de voltar a amar de novo, até já tinha uma candidata. Moça jeitosa, de sorriso rasgado, cabelos em cachos, da cor daquele sol que lhe ilumina o caminho. O mais atordoante são os olhos, castanhos de uma cor por decifrar e um olhar penetrante que o esmaga, sempre que procura ver mais ao longe. Apesar de quase sempre o nevoeiro ofuscar a paisagem, de não ser possível deitar-se na erva fresca e densa a ver as estrelas, o seu coração fica explicitamente feliz. Um sentir e desejar que o faz esperançar esse amor.












Foto e legenda: RC
Sábado a Serra que gosto muito ficou assim por um tempo. Linda e fria. Quem não gosta desta Serra assim. Muitas vezes antes de lá chegarmos já nos apetece estar, abraçar e cheirar aqueles cabelos.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Os peixes que dormem no mar


Chegaram os dias...um pouco antes dos outros, daqueles em que alma fica inundada de saudades e não é de castanhas acompanhadas com jeropiga. Falta a similitude que nos toca secretamente no coração, mas que guardamos para os dias frios, não vá ela querer sair desalmada a correr por ai, antes da hora. E não é hora para vestir mantas ou agasalhos.
Os dias chegaram, vestes uma saia, esqueces-te propositadamente da roupa interior e sais deliciosamente feliz em direcção à praia, corres para esse encontro escaldante meio permitido e pouco proibido. Abraças apaixonadamente, com esse carinho que brota naturalmente dentro de ti, o pouco que resta do sol e o tanto que sobra do mar. É quando o sol cria a ilusão de se banhar no mar, que a magia parece acontecer. Os pés descalços, meio molhados na areia não esperam vestir-se com outros, já são dois e estão muito bem um para o outro, desde que nasceram, no mesmo dia, mesma hora, oriundos do mesmo corpo.
Já é tarde. Tarde demais para ser cedo e demasiado cedo para ser tarde, para além do sol que se foi e o mar que se ficou não há mais nada: não há televisão, telemóveis ou ligações com a civilização. Mas há silêncio e tudo o que quiseres dizer sem palavras audíveis, muito baixinho quase em silêncio, secretamente, não vá a tua voz atravessar oceanos e acordar longe quem está tão perto, afinal os peixes também dormem no mar.




segunda-feira, 23 de julho de 2018

Regras gramaticais

Os cabelos compactados em cima da secretária numa atenção ao pormenor não me deixam ver: cupidez. Um desejo perdido num copo de água, sujo por uma tonalidade de beijos, saborosos, que nunca serão saboreados.
Numa casa sem janelas é o papel e a caneta que ditam o caminho, e mesmo que se discorde, até num mundo sem regras há regras.
Tanto por dizer e tão pouco por escrever, mas a dificuldade em escrever não se acorrenta ao peso de uma caneta, ou à leveza da gramática, mas ao crioulo da ilusão, nessa teimosia, que teima em dar voz ao coração. E não é ele o mais enganador e revelador de todos os sentimentos!
Afinal devemos escrever o que sentimos? Ou sentir o que escrevemos? Seguramente escrever o que sentimos com sentimento e mesmo que o inverno demore, a primavera nunca tenha acontecido, o outono chegue daqui nada e o verão ainda não se tenha decidido, até o mais sorridente e afectuoso dos seres sabe que, para escrever basta um, mas para amar são pelo menos precisos dois.

Foto: Catirolas




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Delírios futebolísticos


Quantas vezes, quando se assiste a um jogo de futebol pela televisão, se vê a câmara subitamente desviar o “olhar” da bola em campo, para outros atributos na bancada. E lá aparece uma rapariga bonita /voluptuosa no ecrã. E isso aconteceu recentemente com o Mundial na Rússia que terminou no domingo. Daí a FIFA ter pedido, para haver mais cuidado na captação de imagens de mulheres bonitas. No meu entender podia ter ido mais longe, poderia ter criado uma lei onde houvesse 50% de mulheres e homens, na profissão de operadores de câmara, seguramente teríamos outro tipo de imagens. Planos mais aproximados de rabos tonificados, pernas musculadas e até de alguns abominais bem torneados. O problema seria encontrá-los no meio de tanta barriguinha elegantemente trabalhada pela ingestão de cerveja.   


Foto: Internet

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O dilema do Leitão


Aquele momento em que te percebes que estás na “santa terrinha”. Compras uma rifa para ajudar alguém e reparas que o primeiro prémio é um leitão vivo.

Ontem alguém me pediu para comprar uma rifa, “para ajudar nas festas do santo da terra, em plena época alta da Santa Terrinha”. E eu, como habitualmente, lá comprei. Dois euros pelo número 10 e 11. Normalmente não costumo ligar muito ao prémio, até porque nunca me sai nada. Mas desta vez… Não é que o primeiro prémio é um leitão vivo!
E se me sair? Que raio vou eu fazer a um leitão vivo?
Transformá-lo em febras? Bem, isso parece estar muito além das capacidades assassinas da Catirolas. Juntá-lo aos meus gatos do quintal? Correria o risco de se tornar numa autêntica “gatilopocilga” e lá se iam as flores do jardim, os meus canteiros de ervas aromáticas e de chá, os meus morangos, os kiwis e até o duche solar não sei se sobreviveria a tanta animação. 
Dá-lo a alguém? Fica sempre a responsabilidade, sabe-se lá para que fim. Ainda se não tivesse visto a pobre criatura com aqueles olhinhos de porquinho mal amado… Bem talvez seja melhor não pensar muito e confiar nas estatísticas e nas probabilidades. “Por favor que não me saia o Leitão”!

Imagem: Internet


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Nessa mesa posta para dois

A mesa estava posta, ainda sem comida. Uma toalha de linho com apontamentos de tecido e algumas manchas no meio, com nódoas difíceis de sair e fios de renda na ponta caracterizavam-na. Em cima, dois pratos de louça de porcelana retocados a ouro e os talheres: garfo do lado esquerdo, faca do lado direito, parte do serviço de 46 peças de prata antiga completavam o quadro. 
Alguém se senta num dos dois lugares vazios, mas mais vazio fica ainda o lugar. Nessa mesa, agora farta de comida, serve-se muita  solidão. Um lugar desocupado de afectos, desabitado de conversas, nu de sentimentos. Afinal, nessa mesa posta para dois, em cima de uma toalha de linho com apontamentos de tecido e algumas manchas no meio...há apenas lugar para um.




Emoções do quotidiano


Não estava a chover, mas o sol também teimava em não aparecer. Maria, (nome fictício) 36 anos, estava sentada, mal sentada com a postura incorrecta, segundo as normas de ergonomia do trabalho. No meio de respostas e perguntas. “Será que correu tudo bem?” Entre os emails, os escritos e as promessas, a vontade é sempre a mesma: Não é não errar, porque errar faz parte da construção, da vida. É não querer falhar. Falhar com as pessoas, a quem se dedica a maior parte do tempo. São esses sentimentos que a deixam com o nervosismo à flor da pele, o coração a acelerar e uma angústia como nome e prognóstico. Quem sofre por antecipação sofre a dobrar e este sofrimento em casos extremos pode levar ao colapso. Essa ansiedade largamente diagnosticada e acompanhada é curável, na cura... venham os ansiolíticos de paciência, de compreensão, amizade e com a germinação de uma relação honesta, com os outros e principalmente consigo mesma. 
Às vezes revejo-me na Maria, muitas vezes, talvez demasiadas até. Nesse encontro e vontade de fazer bem, o bem em todos os campos, mares e serras da minha vida. Nem sempre sou capaz… não sou de longe nem melhor nem pior, mas pelo menos sei que tentei. 
Se consegui? Se consigo? 
Não sei. Só sei que volto sempre. "Volte Sempre", há quem diga! Mesmo que muitas vezes não me apeteça.…eu volto, claro que sim. Como não poderia?! Afinal é nesse amar que me sinto viva.

Foto: Catirolas com a Pipinha

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...