quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Contra Razão


As cidades que habitam no coração, não são diferentes das aldeias..., apenas podem ser diferentes, ao primeiro olhar. O espaço que lhes dedicam é que nem sempre é o maior, ou o mais importante. Mas pode ser apenas uma música que não chega, audível, ao seu mais atento ouvinte. "Fecha os olhos"!
Tem dias e até noites, que o sol já não queima, a luz se envolve com a contra luz e juntas parecem iluminar outro lugar, outras ideias. Que se querem partilhadas e não encerradas num único ser. Mas nem sempre se consegue ler nas entrelinhas, e os apeadeiros da compreensão estão cheios de lixo. 
A vontade pode não mover montanhas, mas também não alaga cidades e o amontoado de razão, que tolda o pensamento de muitos, é facilmente substituído por outro, muito mais poderoso... a contra razão, ou para os mais sintonizados no romantismo, sentimentos, que servem o que servem e valem o que valem...o valor que lhes damos.

Foto:Catirolas



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Acidente

Conheci o João numa dessas reportagens que, por acaso, por vezes faço por aí. Rapaz alto, moreno bem apessoado, sempre bem disposto e disposto a rasgar um sorriso, "um bom dia por aqui, uma boa noite por acolá". O jovem de 30 anos, passava muito tempo a fazer trabalho de campo, na cidade, regressando depois à sua quinta onde cultiva papéis. 
Para além do trabalho que lhe preenchia os dias e as noites também, João tinha muitos amigos, tantos quantos eram permitidos virtualmente e outros tantos em lista de espera. Amigos que estavam sempre ligados na vida, mas quase sempre desligados da sua vida.
Um dia de manhã, na sua rotina, nos afazeres do dia a dia, depois de mais uma noite mal dormida, (João dormia mal de noite a pensar no que tinha de fazer durante o dia), algo lhe aconteceu. Recebeu um aviso das finanças, por causa de um assunto que tinha em mãos e pés também, o qual lhe deu momentaneamente boas noticias, seguidas de outras, com as quais não conseguia conviver de consciência e que o fez responder de uma forma honesta e sincera, com toda a verdade no coração. O aviso das finanças, era afinal uma espécie de puxão de orelhas, uma reprimenda, uma condenação, pela decisão que havia tomado. "Respeitamos a sua decisão, mas tendo em conta a resposta da mesma, teremos que repensar e avaliar a sua situação", dizia o aviso.
João tinha muitos amigos, mas naquele dia, nenhum lhe apareceu, nem no dia seguinte, muito menos nos dias que se seguiram. Precisava de desabafar, às vezes com aquela pessoa que não é família, que está fora de casa, mas que está lá para nos ouvir realmente, mas não havia ninguém disponível, também porque João, não era muito de falar sobre si, ou da sua vida, era mais do género ouvinte ou confidente. Por isso, engoliu em seco e guardou tudo no coração. 
Os dias foram passando e apesar da dor não desaparecer, o tempo vai atenuando, e há que mostrar ao mundo que se está bem... Foi então que algo inesperado aconteceu, João teve um acidente de carro, nada de grave, só chapa, algumas nódoas negras e um braço torcido, mas que o transtornou verdadeiramente, muito por conta do outro condutor, que lhe torrou a paciência, com impaciência. A policia apareceu, tomou conta da ocorrência e tudo ficou bem. Ao entregar os papéis à seguradora João olhou pela primeira vez, para o nome e os dados do outro condutor e antes de desatar num mar de lágrimas, num misto de emoções contidas, por tudo o que entretanto tinha vivido, nos últimos dias gritou:"fosca-se! Não é que o fulano nasceu no mesmo dia, em que eu nasci. Qual a probabilidade disso acontecer?"

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Vistas

Se o mundo fosse um lugar justo, grande parte do hemisfério norte ficava no hemisfério sul e o hemisfério da vida era percorrido pelos dois.
Ao contrário do que pensamos, ver um lugar comum, num lugar comum, é para todos, mas ver realmente, para além do que os olhos nos mostram, não é um lugar comum, muito menos para todos.
Foto:Catirolas 



terça-feira, 25 de setembro de 2018

Regras


Na manhã da meia tarde, os "pais" foram chamados ao gabinete. Lá dentro, a responsável acompanhada pela psicóloga registava tudo: a postura na cadeira, a expressão facial, as palavras, e até os olhares e a posição das mãos não escapavam a um crivo de avaliação. O pai, alto engravatado. A mãe, vestindo uma marca sobejamente cara e conhecida, ambos com a maquilhagem no ponto. A responsável falava, explicava os procedimentos, debitava os factos. "A Maria Carolina resolveu andar descalça em cima da relva acabada de cortar e esteve a apanhar sol no recreio. Com tantos anos de ensino nunca tal se viu", manifestou indignada a educadora, cujas normas estavam bem delineadas. Farda impecavelmente vestida, cabelo apanhado e horas e horas de actividades no interior da instituição presencial, mas pouco presente. Maria Carolina teve um ataque de vida, quebrou as regras e lembrou-se de viver. 
"Ás vezes é preciso quebrar as regras para sentir que estamos vivos"

Foto: Catirolas

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Copos de tempo


Já tenho a "mula" preparada e o kit pernas em acção mas falta a máscara, aquela que perdi quando o comboio chegou, e já foi há algum tempo se pensarmos que o comboio já ali não chega. 
Há dias em que não sei mesmo como dizer palavras meigas, agradecer um sorriso, cruzar as pernas, expandir os braços, falar escandalosamente baixinho. Desconheço como enfrentar a multidão!
Esticar ou encolher as pernas é sempre uma opção que fica por escolher, e a escolha mais fácil, situa-se entre os litros de qualquer coisa, que no meio de um mundo de faz de conta, me faça sentir mais ou menos pessoa. Muito difícil, quando toda a gente à tua volta parece um filme demasiado futurista, para a tua gula de anos 80. 
Posso gritar? Quero gritar: devolvam à malta os pac-man, o super Mário, o lobo mau, a bela adormecida, e porque não Uma Casa na Pradaria... devolvam a emoção de adivinhar se a pessoa chegou ou não, há hora marcada e ao lugar escolhido, uma semana antes, sem recursos as tecnologias, apenas pelo compromisso de se estar. E junto com o pacote de devoluções acrescentam a genuinidade. 
Tenho tanta vergonha! 
A vergonha de se ser diferente passa por corares intensamente, quanto te dirigem um piropo e meia hora depois percebes que não era para ti, era para a altura da tua saia...
Vamos beber uns copos de tempo?

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Raramente


O medo de enfrentar a claridade, não é muito diferente de encarar o escuro, principalmente quando a luz do sol, a esta hora do dia, já não aquece nem arrefece. 
Não é errado dizer que não, nem muito certo dizer que sim.
O infinito silêncio, não é muito diferente, do silêncio do infinito. Às vezes, não sei nada e não sei se quero saber.
Há palavras que nasceram para ser enfrentadas e há outras, que podemos apenas usar no interior do pensamento, quando confrontamos a nudez do nosso corpo. 
Decidir faz raramente parte da vida. 


Imagem: Catirolas

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A vida na santa terrinha é tão agitada.


Depois das férias de verão é difícil voltar. Voltar às rotinas de almoçar sardinhas frescas, vindas directamente da lota, acompanhadas com salada de tomate, apanhado do quintal, e da broa cozida a forno a lenha. Regressar ao transito infernal dos tractores que vão para os campos, uns mais topo de gama que outros, e regressar a esses horários e distancias que te colocam a poucos minutos de casa, praia, campo, actividades desportivas, culturais... A vida na santa terrinha é muito agitada e é difícil voltar depois das férias. Mas mais difícil é escutar o silêncio, que se perde no meio de uma multidão, que tanto fala e nada te diz. Saudades. Sim. Tenho muitas saudades, mas nada que uma prenda desta loja,  http://www.azevedorua.pt/ que adoro, não resolva 😍. Afinal, chapéus como estes não há muitos não.




segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Filosofias


Por mais que se tente abrandar, a verdade é que o ritmo da vida, nem sempre corresponde à música que estamos a ouvir, ou que queremos escutar. Nestes dias, nem o sol faz o que lhe apetece, nem o que nos apetece podemos fazer ao sol. Prestes a corar!
A verdade é que ainda há por aí quem nos surpreenda com o seu talento, com a sua maneira de ser, com a vontade de ser aquilo que é, assumindo-se na vida, despido de comportamentos incompreensíveis, de coisas... a viver com o pensamento nessa aldeia que quer ser cidade, mas que nunca deixou de ser aldeia.
Há tanta beleza por aí! Tantos lugares, tantas pessoas, uma imensidão de companhia! Porque perdemos a coragem de ver, de sentir, de deixar os outros sentir por nós, de nos sentirem, de nos sentirem sentir, porque nos rendemos a ficar sós.
Julgamos, desconfiamos, vivemos nas entrelinhas das palavras esquecendo que por vezes, as palavras são como as pessoas, nós, aquilo que somos, onde aquilo que dizemos, ou sentimos quer dizer exactamente aquilo que lá está, sem ser preciso muita psicologia ou algum dicionário para decifrar. Não podemos passar a vida a tentar ser desumanos, ou mais cedo que tarde, acabamos por esquecer  o sentido da humanidade, a única coisa que faz sentido...corar! (não é bem isso, mas hoje pode ser)

                                     
     Roupa a corar ao sol - Foto: Catirolas




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Atrocidades

Belas são as searas que ondulam com as suas espigas ao vento, na primavera, e as papoilas vermelhas que salpicam o chão com seus tons aveludados. Retratos de uma galeria de arte que alguém pintou. Que vontade de correr por entre esses prados, de me deitar no tapete das papoilas vermelhas e de pintar com tons de ingenuidade, tudo o que não se vê. Mas não posso. Já aqui não estou, minha vontade vai alta como o luar, na leitura dessas palavras, que viajam dentro de uma garrafa vidro, por aí, pelo oceano da vida, à espera de encontrar alguém que a liberte da encruzilhada em que se refugiou, porque se foi perdendo à medida que as nuvens se atropelaram umas às outras, por uma pechincha de chuva, e o vento cuspiu vagalhão sobre vagalhão para o alto das ondas, que desorientadas, fugiram do mar e se despedaçaram no primeiro encontro de amor que avistaram. "Às vezes o que não tem sentido, sentido tem".

Foto: Catirolas

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Tempo

Hoje acordei ainda de madrugada e faz dias que acordo de madrugada. Não tenho sono, mas apetece-me dormir...adormecer para acordar só quando não tiver que o fazer, é que faz tempo que não há tempo para apreciar o tempo que faz e isso consome-me o tempo, as horas e os minutos (esquecendo os segundos), em que devia estar a dormir... e o tempo que devia degustar, quando estou acordada.
Foto: Catirolas

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Vi(r)ver

Numa janela com vista nenhuma, há tanto que observar. Um mundo onde a incompetência é valorizada, os corruptos são vistos como "Chicos Espertos", os mulherengos desejados e as homerengas (inventei esta palavra agora), tidas como putas, uns dias mais desejadas que outros, e ainda onde quem trabalha, muitas vezes fora de horas, sem ser pago por isso, não sobe na vida, não recebe aumento, apenas de mais trabalho e é por isso um simples parvo, com ambições e convicções só possíveis na terra da parvónia. 
Nessa janela onde vê-se tudo e de tudo se vê, deslumbra-se um quarto com lençóis impregnados com o cheiro de quem ali dormiu: uma, duas, muitas vezes e a cama não fez, apesar de ter feito a cama onde se deitou e por essa razão dormir agora na mais completa solidão. "Insónias ao lado, que o Xanax daqui nada já faz efeito", a esperança também vive dentro e fora dessa janela e é na esperança, que se espera que a vista melhore um dia. Mesmo que não se faça nada por isso, ou tudo se faça, a vista tende a mudar, basta olhar realmente. Sem preconceitos, estereótipos, invejas, orgulho, ou ciumes. Ver simplesmente é tão simples e tão difícil!
A vida é uma incógnita e vi(r)vê-la é a única coisa que podemos, bem ou mal, longe ou perto de quem gostamos, e há tantas formas de aumentar e de encurtar distâncias. Afinal a escolha é sempre nossa e o que avistamos com o coração também. 

Foto: Catirolas

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Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...