sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amor incondicional


Amor incondicional
Há "peixe novo na travessa". Os vizinhos são novos, amorosos, afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Mas os seus donos não.
Acordam cedo mas deitam-se tarde e entre este espaço de tempo estão sempre em alerta e fazem exatamente aquilo que se espera deles. Mas os seus donos não.
Ficam quietos à espera de mimos e de limpeza, ocupam um pequeno espaço, em casa ou no quintal e um grande espaço no coração daqueles que os amam e os acolhem. Doces seres que não empurram os seus dejectos à mangueirada pela calçada fora a meio da noite. Mas os seus donos sim.
Que dão amor e amizade eterna, incondicionalmente, aconteça o que acontecer. Mas os seus donos não.
O tempo passa e os vizinhos cresceram, estão maiores, gigantes e subitamente, na cabeça de outros seres menos capazes de pensar, deixaram de ser afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Desapareceram, muito provavelmente despejados à borda de uma estrada, de um beco, de um mundo que não era o seu e longe daquele que conheceram desde que nasceram. Mas os seus donos não. Ali permanecem impávidos e serenos de consciência tranquila, de quem está habituado a ter a barriga cheia e a alma vazia.

sábado, 19 de março de 2016

Dia do pai para sempre

Quando… o dia do pai é todos os dias

Quando isso acontece, dá-se uma reacção química muito estranha. A insignificância de um significado preso numa palavra, com três letras, para explicar ao mundo algo que não tem explicação. Sem conotações comerciais, sem publicidade, ou apelo ao consumismo. Coisas simples que geram relações complicadas. Mas não interessa, porque na verdade o que importa saber, é que na maior parte das vezes, um abraço, é simplesmente um abraço...
Todos deveríamos ter um pai, mas essa utopia só seria realizável se não fossemos todos seres humanos, logo susceptíveis de amar e de magoar, de errar e de perdoar...

Um lugar estranho

A vida é um lugar estranho, é não é?
Um lugar de mil cheiros, sabores e cores, muitas vezes indefinidas, mas que conseguimos identificar perfeitamente, tal como as pessoas, se tivermos coragem de olhar para além daquilo que os nosso olhos nos mostram, onde há muito mais para ver e para sentir, numa linguagem não verbalizada onde verbalizamos cada letra.
Um lugar onde brotam e se perdem oportunidades # escolhas, tal como, amizades # amigos.
Onde a solidão não é um cliché e sim aquele lugar cheio de gente, onde nos perdemos e não sabemos com quem falar, falar com o coração e não falar só no sentido de abrir a boca e vomitar palavras para fazer conversas...da treta.
Tem manhãs, tardes e noites em que me apetecia fumar um longo e demorado charro... não no sentido literal da palavra, mas empiricamente, só pela vontade de ficar num estado Zen.... Para não identificar, olhar, ler, sentir, analisar... não ser aquilo que sou... para o bem e para o mal, demasiadas vezes.
Há dias em que deterioro as palavras, para não deixar que me leiam nas entrelinhas... e o que é mais estranho, é que isso não é para mim, um lugar estranho!


Sofia Copola, Lost in Translation, um dos meus filmes de eleição

terça-feira, 8 de março de 2016

Toda a verdade sobre as mulheres.

Para quem acha que os dias instituídos apenas servem para lembrar, por um momento, consciências mais adormecidas e apesar deste dia ter um significado especial na minha vida pessoal.


Gostaria de dizer a todos os homens que nos amam, que não adianta tirar cursos, conversar com os amigos sobre o assunto, vestirem-se de "nós" no Carnaval, ou tentar perceber o que se passa na nossa cabeça, é tempo inútil e desnecessário... somos aquilo que somos à nossa maneira e de uma forma clara, ou de outra  mais complicada, tudo o que queremos, não é mais do que o que qualquer ser humano quer. Que se esforcem e que se interessem por nós e por aquilo que fazemos com tanto carinho e dedicação... todos os dias do ano, mas se esse interesse vier acompanhado com um ramo de flores, também não faz mal.

sábado, 5 de março de 2016

O tal anuncio


No mundo em que vivemos, há cada vez mais uma maior exigência e critério na selecção de profissionais para determinados cargos...principalmente da esfera politica e financeira:

Profissional, galã e que não se importe de correr o risco de viajar entre alguns processos judiciais, podendo vir a passar alguns dias numa prisão, para meditar ou escrever um livro
Habilitações literárias: Licenciado ou que saiba falsificar o certificado de habilitações que lhe confine tal grau académico, podendo também servir plágios e afins.
Principais competências: Mestre em desviar fundos e corrupção activa. 
Experiência profissional: Não é relevante, vai aprender com os melhores.


Boa Fortuna


Boa Fortuna tem três filhos que correm descalços pelo asfalto para verem o pai chegar, depois de mais um dia de trabalho.  Sua esposa, a Cremilde dos Dias Melhores morreu de uma doença estranha, algures entre a Malária e a Sida. Seus filhos com nomes normais, Pedro de 14 anos, o João de 8 e o Manuel de 5, vivem entre a caridade da associação do bairro e os trabalhos precários e pouco incertos que o pai lá vai arranjando. 
Boa fortuna nunca foi à escola, nunca viu o mar, nunca saiu do bairro.
No ano passado recebeu a visita de uns senhores engravatados com umas bandeirinhas coloridas, vieram discursar sobre um milagre, o “Rendimento mínimo qualquer coisa”. Boa Fortuna não percebeu nada, não é instruído, cresceu demasiado depressa para isso. O presidente do Bairro disse-lhe que ia receber dinheiro e incentivou-o a assinar uns papéis, mas passaram-se meses e nada. Entretanto o presidente mudou de casa, de carro e foi-se embora, mas Boa Fortuna viu-o no outro dia na televisão de um café onde foi recolher o lixo..., o presidente foi levado pela policia. Que pena, era tão boa pessoa!
Boa Fortuna passa fome. Todos os dias por volta das 23h00, aguarda à porta das traseiras de um restaurante da cidade, ao lado do seu bairro. Fica à espera que lhe dêem os restos de comida e eles dão. Para ele, é a primeira e única refeição do dia. Com os sacos cheios de comida boa, regressa a casa. Os filhos estão à sua espera a dormir, algures entre as ratazanas, as baratas e outros bichos de estimação pouco visíveis a olho nu. Boa Fortuna está cansado, por vezes apetece-lhe desistir destes dias longos e duros, acabar com a má sorte que a vida lhe deu... mas quando regressa finalmente a casa e os seus meninos o abraçam cheios de ternura e felicidade, tudo desaparece: a tristeza, o cansaço, a vontade de desistir…
Com três crianças tão belas, Boa Fortuna, só poderia ser um homem afortunado.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pessoas diferentes, diferentes pessoas

Quem pensa que na "santa terrinha" não há agitação engana-se...aqui, o cartaz cultural é muito diversificado, tanto, que o complicado é estar ao mesmo tempo em todo o lado, mesmo quando o já ali, é já ali e essa cultura pode muito bem ter a ver com brócolos, espinafres, cebolas, batatas..., porque fazer germinar qualquer coisa da terra, também é uma arte. A arte de colocar um pedaço de comida na mesa para afastar a fome.
Aqui, as pessoas conhecem-se desde o tempo dos avós e quando não se conhecem, especulam sobre as famílias, tentando adivinhar a casta que deu sabor a essa uva, correndo o risco de encontrar apenas o mosto.
De onde vens não interessa, apenas quem és, essencialmente como ser humano, sem corantes para impressionar a nata, que nada vale quando se prova o creme e se dá conta que, tirando a aparência, não sabe a nada e a nada sabe. Um caminho com estradas sinuosas, que pode levar anos, décadas ou séculos a ser percorrido...de tal forma que até os tractores fazem corridas em autoestradas de terra batida, como se fossem máquinas de fórmula 1 e mesmo assim demoram a chegar lá... porque na verdade não importa muito de onde vens, o que interessa é para onde vais todos os dias quando interiormente te levantas, ... se escolheres levantar-te! Será que hoje é um desses dias?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Cuba dos dias meus

Cuba dos dias meus...
E depois da chegada de Obama à ilha de Fidel o que será de Cuba?
O que será de Havana? Cidade perdida no tempo em que os automóveis parecem marcar o passo de uma terra caliente e mística!
Onde o melhor restaurante não é o conhecido La Bodeguita del Mideo, com suas paredes repletas de escritos e de assinaturas de seus visitantes: Salvador Allende, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Catirolas... mas sim na casa de um cubano (de uma habitação de paredes singelas e de poucas comodidades), que conhecemos ali mesmo na hora e na rua, mas que nos enche a alma e o espaço com a comida boa e a hospitalidade momentânea, que tanto caracteriza este povo.
Sim, claro que nem tudo é bom. Nas ruas ou nos hotéis de cinco estrelas, a prostituição preenche o vazio das necessidades, e isso é notório e visível! Não há centros comerciais, há farmácias e lojas de outros tempo, como um retrato antigo de uma história que não avançou.
Há gente de cor de chocolate com um sorriso aberto e hospitaleiro misturado pelo tráfico de charutos, dos trabalhadores das fábricas mesmo ali ao lado, mas que pela aventura, como num filme de gagnsters vale a pena arriscar.
Detentora de uma paisagem ímpar e de um clima e águas quentes e transparentes, o que mais encanta nesta ilha, é o retrato urbano a desbravar, e a música que faz mexer em qualquer lado, de manhã à noite: Company Segundo, Buena Vista Social Club, La Lupe... são apenas alguns dos nomes imortais, mas tantos outros há... Uma música que por mais se escute, soa diferente quando lá se está.
Não sei o que será de Cuba depois de Obama, creio que não quero saber...prefiro guardá-la assim para mim do modo como a conheci e me marcou, inocente!



¿Qué te importa que te ame,
si tú no me quieres ya?
El amor que ya ha pasado
no se debe recordar

Fui la ilusión de tu vida
un día lejano ya,
Hoy represento el pasado,
no me puedo conformar.

Si las cosas que uno quiere
se pudieran alcanzar,
tú me quisieras lo mismo
que veinte años atrás.

Con qué tristeza miramos
un amor que se nos va
Es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad

Buena vista social club

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Pagar para viver

Para lá de um debate de um orçamento que todos já sabem como vai acabar, há um mundo.
Um mundo que faz a tia Alice de 90 anos, levantar-se cedo para ir ao mercado vender os ovos que as suas galinhas poedeiras, que tem que registar até final do mês de fevereiro, lhe dão. Mulher nortenha habituada ao frio e indiferente aos "mimos" que os partidos trocam na Assembleia da República, enquanto definem em cada palavra traduzida em normas e em regras a sua vida, com um bisturi e uma agulha onde se corta aqui e se remenda acolá. Regras que de uma forma mais consistente nos afectam a todos, na cidade ou na aldeia... e não me venham dizer que não sabem, que não querem saber e que isso não muda nada!
Pode até ser a realidade para muitos, mas a verdade é que vivemos num mundo, indiferentes a ele ou não, onde cada vez mais é preciso pagar para viver... Literalmente.

Imagem: internet



sábado, 20 de fevereiro de 2016

LIKESinhos

Tanto que fazer e ao mesmo tempo nada realmente feito, mas dizer que se faz também é fazer alguma coisa, nem que seja apenas falar. E pensar que toda a vez que se abre uma janela há um ar que se levanta.
Somos portugueses, humanos, inteligentes, confiantes, cheios de potencialidade, somos aqueles que ponderamos todas as decisões para depois executar impulsivamente, muitas vezes ao contrário. Porque parar para perguntar o caminho quando estamos perdidos, não é orgulho lusitano, é pura perca de tempo. 
Não somos escravos desse desejo infinito de ultrapassar uma etapa para poder estabelecer logo outra, somos apenas adeptos ferrenhos das dificuldades, porque é a ausência do vazio que nos faz viver...Um punhado de gente simpática e hospitaleira que come sardinhas e bebe vinho carrascão, a sonhar com as férias.... para  colocar as fotos num lugar estranho, que outros estranhos depressa enchem de LIKES.


Se é Catarina, é certamente de boa colheita e para beber de preferência várias vezes, de um travo só.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Love Letter


Hoje resolvi recuperar aqui uma coisa que escrevi em 2010.
Não é estranho que passados dez anos tudo continue igual?

Por que é que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos? Ernest Gaines

Querido Pedro!
Não o sei bem o que pensar de um gajo que houve Heavy Metal e lê Fernando Pessoa, mas tenho saudades dos momentos que não vou encontrar, por já não estares no meu caminho, melancolia pelas palavras processadas nas tardes de domingo, no jardim de um raio de sol, entre a minha imaginação e a realidade do teu olhar. Alguma vez te disse? Tantas vezes, mas tantas vezes em sonhos e tão poucas na tua presença… Eu procurei, mas não achei…o livro de cheques debaixo da minha mesa-de-cabeceira, onde te queria escrever palavras bonitas, com vários zeros, como tu gostas; mas agora as palavras foram-se, molharam-se com a chuva do norte, num grito de incontinência e agora tenho que secá-las com o vento do sul, antes que penses que sou um tipo normal, gordo, careca, sarnoso, que gosta de fazer pouco e de dizer que faz muito, que gosta de ver filmes românticos e de andar de mão dada pela Avenida da Liberdade, apesar dos insultos e dos olhares, numa demonstração clara de afeto. Antes que descubras que choro todos os dias, desde que deixámos de fazer filmes pornográficos no soalho de madeira da sala, da casa da tua mãe, depois de assumirmos a nossa sexualidade ao mundo, sem medos e preconceitos. Antes que aprendas a amar, deixes o outro tipo enfatuado da Quinta do Lago, que te deu tudo o que eu não tinha para te dar, um amor monetário e voltes para mim.
Aquele abraço apertado, João.
Nota: Tenho tantas saudades do teu rabo.
Existe uma ilusão de que os homossexuais fazem sexo e os heterossexuais se apaixonam. É uma completa inverdade. Todo mundo quer ser amado.
Robert Louis Stevenson

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...