sábado, 23 de abril de 2016

O problema dos "se"

Se me emociono com facilidade.... será que isso faz de mim chorona?
Se me apaixono pelas pessoas.... será que isso faz de mim tolinha?
Se não sei ler e me engano a escrever... será que isso faz de mim analfabeta?
Se olho com sinceridade, mesmo que para aqueles que não o merecem.... será que isso faz de mim cega?
Se roubo um coração e se vejo e sinto em mim, que o amor pode ter vários rostos e significados... será que isso faz de mim gatuna ou trapaceira?
Se.... tanta coisa... É tão fácil julgar, apontar os dedos, as mãos, os pés, os braços,..., todas as partes do corpo, mais ou menos sensuais, muito mais simples do que jogar a roleta russa da vida, que por mais que se planeie, nunca se sabe realmente o que vai acontecer. Chorões, tolinhos, analfabetos,... pouco importa. Cada momento é vivido, a cada momento e tudo o resto são apenas baladas que um dia alguém escreveu para embalar o coração, porque todos, um dia, mesmo que por um breve segundo, têm um.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A adivinha

"Com um beijo só, cobres o rosto do mundo, onde espreitam os tímidos e se escondem os corajosos, porque o amor é como um rasgo de sol num cenário cadavérico, nunca se sabe quando vai (re)aparecer."

A noite é gelada. A lua é arrepiante. A imagem impressiona. Eu fujo, eu escondo-me, eu sento-me atrás de ti sem sequer me veres. Não há pinheiros, não há rochas, há pinhões e pedras. Camisas desfraldadas em calças sem bolsos, e bolsos sem mãos e mãos sem dedos...
"Que perfeição!" Que enlevo de monte. Adora e pasma o mundo, que não o vê, porque na realidade não está lá (o mundo, não o monte), não há nada. Nem luz, nem cores, nem lembranças...Mas eu, essa mão que abre os olhos, esse alguém que abre os braços aos dias do meu leito, quando os dias não aparecem, estou cá. Alma frouxa de prantos mortuários, vítima de um sonho inanimado pronto a ganhar vida, para esculpir as faces com cuspo, num gesto compulsivo, e agarrar as águas que me escapam por entre os dedos à medida que vão nascendo nos meus olhos. O que tenho? O que penso? O que desejo?
São quimeras de sentimentos, nascendo numa terra dura sem sequer lá terem sido semeadas e não é preciso ser-se um génio para divinhar.

 07/03/1998, CR (CM)

sábado, 16 de abril de 2016

Esquecimento

Vejo por esse mundo tantas pessoas esquecidas. Esquecidas na vida, no trabalho, no amor, na vida que levam...esquecidas dos outros e delas próprias...
Seja por vontade própria ou por distracção cerebral (e excluindo as doenças associadas à perda de memória); esquecemo-nos de tanta coisa boa na nossa vida, de tantas pessoas que nos querem e nos fazem bem, que por vezes se confunde, este estado com ingratidão ou egoísmo.  

A vida é feita de momentos e esquecer por esquecer não é problemático, desde que o esquecimento não se torne no nosso modo de vida e o lembrar apenas esse breve momento... Eu prefiro guardar os meus, vivendo-os e sentindo-os, através dos poros da minha pele morena, (agora não tanto dado a falta de sol) mordida pelas dentadas do carinho e da dedicação, de todos os que se cruzam no meu caminho e que me oferecem muito mais do que essa melodia, nascida de uma composição, que vem e vai direitinha ao coração. Inesquecível!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Divagações de dias de chuva

Um dia, naqueles dias em que as palavras não são precisas e onde não são precisas as palavras...nos nano segundos em que as notas musicais, trabalhadas por quem sabe dessa arte, desperta um sorriso no olhar, é quanto basta para o bastante... para a vida ser vivida e interpretada de outra forma. Um poeta da música, das letras, do desenho,..., de todas as artes e que as usa, não com a mania de vedeta, mas com a vontade e o sentimento de quem faz amor por amor e com o coração...Nesse dia... há todo um sentimento por despertar e para (a)brigar, naquele recanto do coração, onde se guarda as meias para dormir e as meias para acordar, porque algum dia temos que o fazer e porque a vida não está para dorminhocos!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amor incondicional


Amor incondicional
Há "peixe novo na travessa". Os vizinhos são novos, amorosos, afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Mas os seus donos não.
Acordam cedo mas deitam-se tarde e entre este espaço de tempo estão sempre em alerta e fazem exatamente aquilo que se espera deles. Mas os seus donos não.
Ficam quietos à espera de mimos e de limpeza, ocupam um pequeno espaço, em casa ou no quintal e um grande espaço no coração daqueles que os amam e os acolhem. Doces seres que não empurram os seus dejectos à mangueirada pela calçada fora a meio da noite. Mas os seus donos sim.
Que dão amor e amizade eterna, incondicionalmente, aconteça o que acontecer. Mas os seus donos não.
O tempo passa e os vizinhos cresceram, estão maiores, gigantes e subitamente, na cabeça de outros seres menos capazes de pensar, deixaram de ser afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Desapareceram, muito provavelmente despejados à borda de uma estrada, de um beco, de um mundo que não era o seu e longe daquele que conheceram desde que nasceram. Mas os seus donos não. Ali permanecem impávidos e serenos de consciência tranquila, de quem está habituado a ter a barriga cheia e a alma vazia.

sábado, 19 de março de 2016

Dia do pai para sempre

Quando… o dia do pai é todos os dias

Quando isso acontece, dá-se uma reacção química muito estranha. A insignificância de um significado preso numa palavra, com três letras, para explicar ao mundo algo que não tem explicação. Sem conotações comerciais, sem publicidade, ou apelo ao consumismo. Coisas simples que geram relações complicadas. Mas não interessa, porque na verdade o que importa saber, é que na maior parte das vezes, um abraço, é simplesmente um abraço...
Todos deveríamos ter um pai, mas essa utopia só seria realizável se não fossemos todos seres humanos, logo susceptíveis de amar e de magoar, de errar e de perdoar...

Um lugar estranho

A vida é um lugar estranho, é não é?
Um lugar de mil cheiros, sabores e cores, muitas vezes indefinidas, mas que conseguimos identificar perfeitamente, tal como as pessoas, se tivermos coragem de olhar para além daquilo que os nosso olhos nos mostram, onde há muito mais para ver e para sentir, numa linguagem não verbalizada onde verbalizamos cada letra.
Um lugar onde brotam e se perdem oportunidades # escolhas, tal como, amizades # amigos.
Onde a solidão não é um cliché e sim aquele lugar cheio de gente, onde nos perdemos e não sabemos com quem falar, falar com o coração e não falar só no sentido de abrir a boca e vomitar palavras para fazer conversas...da treta.
Tem manhãs, tardes e noites em que me apetecia fumar um longo e demorado charro... não no sentido literal da palavra, mas empiricamente, só pela vontade de ficar num estado Zen.... Para não identificar, olhar, ler, sentir, analisar... não ser aquilo que sou... para o bem e para o mal, demasiadas vezes.
Há dias em que deterioro as palavras, para não deixar que me leiam nas entrelinhas... e o que é mais estranho, é que isso não é para mim, um lugar estranho!


Sofia Copola, Lost in Translation, um dos meus filmes de eleição

terça-feira, 8 de março de 2016

Toda a verdade sobre as mulheres.

Para quem acha que os dias instituídos apenas servem para lembrar, por um momento, consciências mais adormecidas e apesar deste dia ter um significado especial na minha vida pessoal.


Gostaria de dizer a todos os homens que nos amam, que não adianta tirar cursos, conversar com os amigos sobre o assunto, vestirem-se de "nós" no Carnaval, ou tentar perceber o que se passa na nossa cabeça, é tempo inútil e desnecessário... somos aquilo que somos à nossa maneira e de uma forma clara, ou de outra  mais complicada, tudo o que queremos, não é mais do que o que qualquer ser humano quer. Que se esforcem e que se interessem por nós e por aquilo que fazemos com tanto carinho e dedicação... todos os dias do ano, mas se esse interesse vier acompanhado com um ramo de flores, também não faz mal.

sábado, 5 de março de 2016

O tal anuncio


No mundo em que vivemos, há cada vez mais uma maior exigência e critério na selecção de profissionais para determinados cargos...principalmente da esfera politica e financeira:

Profissional, galã e que não se importe de correr o risco de viajar entre alguns processos judiciais, podendo vir a passar alguns dias numa prisão, para meditar ou escrever um livro
Habilitações literárias: Licenciado ou que saiba falsificar o certificado de habilitações que lhe confine tal grau académico, podendo também servir plágios e afins.
Principais competências: Mestre em desviar fundos e corrupção activa. 
Experiência profissional: Não é relevante, vai aprender com os melhores.


Boa Fortuna


Boa Fortuna tem três filhos que correm descalços pelo asfalto para verem o pai chegar, depois de mais um dia de trabalho.  Sua esposa, a Cremilde dos Dias Melhores morreu de uma doença estranha, algures entre a Malária e a Sida. Seus filhos com nomes normais, Pedro de 14 anos, o João de 8 e o Manuel de 5, vivem entre a caridade da associação do bairro e os trabalhos precários e pouco incertos que o pai lá vai arranjando. 
Boa fortuna nunca foi à escola, nunca viu o mar, nunca saiu do bairro.
No ano passado recebeu a visita de uns senhores engravatados com umas bandeirinhas coloridas, vieram discursar sobre um milagre, o “Rendimento mínimo qualquer coisa”. Boa Fortuna não percebeu nada, não é instruído, cresceu demasiado depressa para isso. O presidente do Bairro disse-lhe que ia receber dinheiro e incentivou-o a assinar uns papéis, mas passaram-se meses e nada. Entretanto o presidente mudou de casa, de carro e foi-se embora, mas Boa Fortuna viu-o no outro dia na televisão de um café onde foi recolher o lixo..., o presidente foi levado pela policia. Que pena, era tão boa pessoa!
Boa Fortuna passa fome. Todos os dias por volta das 23h00, aguarda à porta das traseiras de um restaurante da cidade, ao lado do seu bairro. Fica à espera que lhe dêem os restos de comida e eles dão. Para ele, é a primeira e única refeição do dia. Com os sacos cheios de comida boa, regressa a casa. Os filhos estão à sua espera a dormir, algures entre as ratazanas, as baratas e outros bichos de estimação pouco visíveis a olho nu. Boa Fortuna está cansado, por vezes apetece-lhe desistir destes dias longos e duros, acabar com a má sorte que a vida lhe deu... mas quando regressa finalmente a casa e os seus meninos o abraçam cheios de ternura e felicidade, tudo desaparece: a tristeza, o cansaço, a vontade de desistir…
Com três crianças tão belas, Boa Fortuna, só poderia ser um homem afortunado.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pessoas diferentes, diferentes pessoas

Quem pensa que na "santa terrinha" não há agitação engana-se...aqui, o cartaz cultural é muito diversificado, tanto, que o complicado é estar ao mesmo tempo em todo o lado, mesmo quando o já ali, é já ali e essa cultura pode muito bem ter a ver com brócolos, espinafres, cebolas, batatas..., porque fazer germinar qualquer coisa da terra, também é uma arte. A arte de colocar um pedaço de comida na mesa para afastar a fome.
Aqui, as pessoas conhecem-se desde o tempo dos avós e quando não se conhecem, especulam sobre as famílias, tentando adivinhar a casta que deu sabor a essa uva, correndo o risco de encontrar apenas o mosto.
De onde vens não interessa, apenas quem és, essencialmente como ser humano, sem corantes para impressionar a nata, que nada vale quando se prova o creme e se dá conta que, tirando a aparência, não sabe a nada e a nada sabe. Um caminho com estradas sinuosas, que pode levar anos, décadas ou séculos a ser percorrido...de tal forma que até os tractores fazem corridas em autoestradas de terra batida, como se fossem máquinas de fórmula 1 e mesmo assim demoram a chegar lá... porque na verdade não importa muito de onde vens, o que interessa é para onde vais todos os dias quando interiormente te levantas, ... se escolheres levantar-te! Será que hoje é um desses dias?

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...