quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Entre o desabafo e a exigência da perfeição

Vivemos tempos em que a pressão para sermos perfeitos invade todos os espaços da vida: a família, a escola, o trabalho, até os momentos íntimos de descanso. O desabafo que tantas vezes se ouve, portas a bater, pratos no chão, lágrimas e pedidos de desculpa, não é apenas um retrato doméstico. É o reflexo de uma sociedade que cobra sem descanso e que raramente oferece espaço para falhar, para ser humano.

A escola, por exemplo, deveria ser lugar de crescimento e descoberta, mas transforma-se em palco de medos: medo das queixas, medo de não estar à altura, medo de ser comparado. O lar, que deveria ser refúgio, torna-se campo de batalha entre expectativas e frustrações. E no meio de tudo isto, quem sofre não é apenas quem explode, mas também quem escuta, quem tenta segurar o peso de tantas exigências.

O problema não está apenas nos comportamentos que magoam , os gritos, os pontapés, os insultos, mas na raiz que os alimenta: a ideia de que só a perfeição é aceitável. Como se as “esposas das outras” fossem modelos inalcançáveis, como se os filhos tivessem de ser sempre exemplares, como se os erros fossem pecados imperdoáveis. Essa lógica corrói a confiança, desgasta os afetos e mina a saúde emocional.

É urgente reconhecer que o silêncio que se segue às explosões não é paz, mas fadário. É a resignação de quem já não encontra forças para lutar contra a exigência de ser perfeito. E é precisamente aí que precisamos de mudar: aceitar que a imperfeição é parte da vida, que o erro é oportunidade de aprendizagem, que o abraço sincero vale mais do que qualquer castigo. E vale. Vale tudo e tudo vale.

Amanhã será outro dia, sim. Talvez pior, talvez igual. Mas pode ser também o início de uma nova forma de olhar para nós mesmos e para os outros: com menos cobrança e mais humanidade. Porque só quando deixarmos de exigir perfeição poderemos, finalmente, ser (im)perfeitos e viver com isso



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sábado, 1 de março de 2025

É Carnaval ninguém leva a mal será?

É Carnaval ninguém leva a mal será?

Coloca a máscara, tira a máscara. Na rua, no trabalho, na vida, nas relações, nas ralações, nas conexões, ou nas impressões. 

O Carnaval não são por aí três dias, são, na verdade, muitos mais. Se pensarmos nas personagens mais ou menos reais, que nos surgem no caminho, que tiram e colocam a máscara... “o melhor é nem pensar”. Siga «pó» baile! 

Com tantos disfarces, artimanhas, perucas e maquilhagens mais ou menos bem conseguidas. Quando forem brincar ao Carnaval, se forem brincar ao Carnaval, tenham cuidado. Nunca se sabe o que se pode encontrar por detrás da máscara e se o mascarado não é, na verdade, alguém que anda disfarçado todos os dias do ano, menos no Carnaval.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Peripécias no local de trabalho

Sei que era suposto, já que «meio mundo» se encontra de férias, ser mais produtiva e fazer o trabalho que tenho a fazer… mas no meio de uma pausa e de tantas peripécias a minha veia humorística e artística não resistiu.

Às vezes pensa-se que na “Santa Terrinha” nada acontece. Julga-se que não há trânsito… isso não é bem assim, experimentem andar na estrada há hora em que os agricultores e os seus «maquinões» topo de gama (os tratores) vão e regressam do campo, (a minha pontaria é certeira neste relógio).

Tentem vir à cidade no dia do mercado… e no "querido mês de agosto". Esse mês, em que os filhos da terra e os filhos dos filhos da terra, regressam às origens, alguns, não todos, carregados de amnésia aguda, pois esquecem-se de toda e qualquer regra de condução e fazem tudo o que não é suposto fazer. Ainda hoje, na zona onde trabalho, um desses automobilistas estrangeiros, numa rua de sentido único, realizou uma extraordinária manobra de inversão de marcha e lá vai ele em contramão rua fora. Extraordinário!!

Mas não querendo fugir ao cerne do assunto “as peripécias”. Esta semana tem havido de tudo. Não acreditam? Um senhor que queria por força e porque queria que uma associação tivesse sempre de portas abertas e que leu uma notícia em que a empresa onde trabalho ia abrir uma escola. Um jovem que veio perguntar se aqui é que era “bla, bla”, isto é: disse inesperadamente, o slogan da minha entidade patronal e que no fim queria apenas uma fotocópia.

Dois jovens, que vieram à procura de uma edição especial, de algo que vendemos, para oferecer a alguém que fez anos em janeiro, para ficar com essa recordação. Dois jovens com quem estive todo o tempo a falar inglês, descobrindo no fim que um deles falava português. E a pior parte, alguém que foi à casa de banho e errou no sítio da sanita para fazer as suas necessidades (esta última era escusada). Tudo isto aconteceu em apenas três dias e eu não estou a incluir os habituais «amigos das fotocópias». Sim. Colecionadores fofinhos que adoram acumular papel nas suas casas, tirando cópias de tudo e que sabendo que eu estava sozinha, amargurada e desamparada no trabalho, têm-me vindo visitar. De acrescentar que o melhor da semana foi um "Olá linda!". Um piropo que recebi de um trabalhador de uma obra,  numa moradia no prédio em frente.


Acham que isto é um trabalho monótono…? Ainda vão a tempo de mudar de carreira. Voluntários, estagiários e escravos (esqueci-me que esta última palavra já não se pode dizer). Enfim são todos sempre, mas sempre muito bem-vindos.




 

sábado, 23 de março de 2019

Génios

Viver agarrado às capacidades, sem ser preciso arregaçar as mangas, não é para todos. Há poucos génios no mundo que tenham descoberto a diferença entre o que se é e o que se pode ser.  
Já é primavera, tempo de renascer, tempo de discorrer sobre a vida ou o que não se está a fazer com ela. Talvez pense demasiado, mais do que o habitual e poderia ficar com esse pensamento, mas antes do que não se diz, mesmo antes dessa conversa fragmentada, preenchida por prolongados sons... é melhor nada dizer. Não quero falar, pois aquelas palavras que se poupam no discurso para beber o líquido da euforia dum reencontro, faz-me magoar o silêncio.  
O tempo que temos é curto, descobri à pouco, mas nem essa descoberta me faz ver o mundo de maneira diferente. Já não me incomodo com a falta de afecto, ou com as futilidades, mesquinhes, coscuvilhice, isso não me interessa. Mas importa lembrar-me aqueles génios, sábios na leitura, na escrita, na investigação. Dotados em matemática, línguas, em ciências forenses. Muitos deles com capacidade para ser algo na vida, mas que nunca o chegaram a ser. Perderam-se no caminho, nos anos em que estiveram agarrados a uma heroína, pouco heróica, e o tempo passou, escapou-se, tal como essa promessa de vida com a qual nenhum deles se conseguiu comprometer.  

Foto: Catirolas

quinta-feira, 21 de março de 2019

Beco


Nesses momentos da vida em que estamos no meio de uma multidão, nessa altura, em que sabemos exactamente o que estamos ali a fazer e ainda assim... fica a dúvida e quando a dúvida fica, parece não haver espaço para mais nada.
O mundo não é um lugar estranho, onde vivem estranhos, ás vezes mais do que estranhos, o mundo não é um lugar estranho é um lugar entranho. Um pequeno quintal onde a poesia transforma, os sonhos em realidade e a realidade em sonhos, onde o teatro faz vibrar aquele que usa o palco da vida, para colocar a vida em teatro, subindo ou não, a um palco. Um beco, onde não há arte ou vida que valha, se não acreditarmos, se não sentirmos...um beco sem saída, mas num beco também há vida, uma saída. 

Foto: Catirolas


quinta-feira, 7 de março de 2019

Não me levem a mal.... levem-me simplesmente!


O dia revela sempre melhor o que a noite procura esconder, mas é na noite que o cutelo dá a ordem de esfaquear o gelo e aquecer o ambiente. O medo é o ambiente perfeito para não nos deixarmos adormecer em catadupa. Mas medo do quê? Se casei com ele, se lhe fiz juras de amor eterno, ao mesmo tempo que lhe prometi fazer o jantar todos os dias, engomar, dobrar a roupa e fazer amor quando a outra, a embriaguez não estiver por perto, mas não me interpretem mal, eu gosto de cozinhar e de passar a ferro.
Ás vezes agarro-me aos momentos bons, mas tem dias, talvez meses, ou anos... já não me recordo bem do dia em que a lua rompeu pelo céu e me iluminou o sorriso com os seus raios lunares, mas creio que foi no mesmo dia em que senti aquele abraço apertado, sentido, um pouco diferente do de hoje, menos esmagador, doentio e asfixiante, mas não me interpretem mal, eu gosto de abraços.
Em breve será de dia e virá o sol ansioso por romper por entre as nuvens… haja vontade! Muita fome. A música pode não ser forte, mas a melodia da música que as notas transmitem, é vibrante e não fosse a vibração dos corpos ecoar por entre a câmara negra do obscuro, se não fosse isso creio que poderia adormecer logo por ali. Mas adormecer para quê, se o acordar é uma montanha russa. Ontem recebi um presente, uma caixinha de maquilhagem, um pouco antes da outra prenda, daquelas que recebo todos os dias, só não sei bem quando e a que horas. Mas porquê? Para quê?
Se me quer bem, é porque bem me quer e se bem me quer e me quer tanto... não me interpretem mal, não gosto de maquilhagem, mas depois de tanto "bem querer," não há como não gostar.


Foto: Internet


quarta-feira, 6 de março de 2019

Dia de caça

Despontava mais uma manhã na planície. Vários elefantes espreitavam, excitados, por entre a pouca luminosidade, um grupo de homens com as faces reluzente e olhar ameaçador.Ignorando totalmente o aviso, em busca de uma madrugada de glória, os elefantes avançavam cuidadosamente, esmagando o asfalto por entre a folhagem até chegarem ao morro, onde melhor se podiam camuflar atrás de um tronco secular e assim contemplar aqueles magníficos caçadores, que emergiam por entre a névoa, cem metros mais à frente. Observados dali, os homens pareciam muito maiores e mais aterradores. De tal forma que os elefantes, apesar do porte, se sentem vacilantes.
Pouco depois, um dos caçadores, aparentemente o líder apercebeu-se da presença dos predadores. Então, bruto, ameaçador, investiu na direcção deles. Esticando a arma e disparando ruidosamente, quebrou o silêncio. Momentos depois, gerou-se o pânico entre estas majestosas criaturas de duas pernas - cobertos entretanto por uma imensa nuvem de pó - que se debatiam entre a vida ou a morte. O cenário era quase desolador, os caçadores vacilavam, uns caiam, outros fugiam, atordoados e meio enlouquecidos, para a densa floresta. No meio de tudo, apenas duas certezas: aquele rasto de sangue a tingir a terra árida e o olhar de dor estampado na face destes homens, outrora caçadores e agora caçados.
Foto: Catirolas

Força nas pernas e luz no horizonte

Numa lápide de pedra tosca, um tosco homem conversa. Fala com as mãos em palavras de gestos crus, adormecidos pelo padre que também ressona ao ouvir o seu pregão, no altar da vida. Enquanto os doidos se apegam, sobem ao mundo, pelas imagens de olhos virais, pessoas de corações vazios ardendo em gelo de emoções, onde se diz sentir tudo, mas onde nada se sente, verdadeiramente. 
No meio da violência, há sempre alguém que se ri. Garfadas de gargalhadas que traduzem os pensamentos, que são como os actos, já não falam por si e os laçarotes que enfeitam a mente roubam o espaço a um penteado de outros tempos. Mesmo a almas carecas.
O que fizemos ao mundo?
Tiquetaque, tiquetaque... a evolução avança nesse tempo, que não conseguimos controlar. Segue demasiado depressa por esse trilho, onde rostos perdidos se agarram com força a metralhadoras, como se fossem ursinhos de peluche para dormir e não hesitam em puxar o gatilho.
Por aí, ensina-se a matar, compra-se (in)felicidade e tudo é demasiado fácil, bastar ter uma dúzia de notas de bolso e uma centena de ideias pervertidas na mente. 
E se pararmos para pensar. Porquê parar para pensar, se temos alguém que pense por nós? Com ideias que se parecem com bares, cheios de copos vazios, prostituindo-se ao primeiro contacto bocal.
Se tenho medo? Tanto, tantas vezes, em tantas ocasiões, ás vezes até receio de abrir a janela e de descobrir como está hoje o dia, pavor de comer e de respirar, um terror desmedido de me perder por caminhos onde não sei quem vou encontrar.
O que fizemos com o mundo?  
Não acordei agora, despertei muito cedo e deixei o carro em casa para a apanhar a bicicleta, mas na ânsia de não me perder esqueci-me pedalar pela vida e a vida fez com que caí-se na estrada, várias vezes... a estrada vai continuar por lá e tu?
... há força nas pernas e luz no horizonte.

Foto: Catirolas

sábado, 2 de março de 2019

Descoragem


Antes que o Carnaval encerre e todos voltem a vestir as máscaras, depois de as terem deixado por aí...

Encerro os olhos e consigo vê-lo na perfeição, ás vezes senta-se ao meu lado, a olhar para mim, outras vezes sinto-o apenas a sentir o meu respirar, o perfume da minha trança. Nesta curta distância vejo-o a agarrar na minha mão e a sorrir para mim, como se não houvesse mais ninguém e ali estivesse uma multidão… vejo-o e não quero voltar a ver.
Largos momentos permanece em silêncio e não me diz nada, mas nada fica por dizer. Apesar de me atormentar, tem dias que me quero livrar dele, mas tem outros, que o quero bem perto de mim, pela adrenalina que me oferece e por me fazer sentir vida. Quando ganho coragem, pouco a pouco, consigo torná-lo mais pequenino e deixo-o passar por mim sem sequer lhe tocar, mas sei que é temporário, pois ele volta, volta sempre. 
Às vezes é difícil acordar, mas temo mais pelo adormecer.
Foto: Catirolas

sábado, 23 de fevereiro de 2019

To be, or not to be?


Nunca mais por aqui passei, não por não ter o que escrever (tenho tanto que escrever), mas por ter medo de o fazer. Medo destas minhas palavras, me fazerem dedilhar tudo o que na alma me vai e o coração não controla. Queria falar de amizade,  amizade. Afinal o que é a amizade quando se dela dúvida, quando nem sequer se a questiona, quando não se quer sequer saber? Não conheço amizades assim, mas conheço pessoas e o mundo é uma miscelânea, muitas vezes demasiado real para ser irreal.
O mundo é uma miscelânea de pessoas e nem sempre as pessoas são aquilo que tu gostarias que elas fossem, mas ainda assim acreditas. Acreditam? Nesse mundo, há toda uma série de obstáculos, alguns que levas uma vida inteira, sem tropeçares neles, mas que um dia aparecem para te fazerem cair. "To be, or not to be, that is the question"
Not to be. 
Por vezes é difícil seres tu, quando és aquilo que sempre fostes, mas ainda assim o pintor, o artista a quem encomendaste o teu retrato, lhe dá outros traços, lhe pinta outra cor. Um retrato que faz perder toda a essência daquilo que és. Mas a intensidade e o dramatismo é de tal forma, que apesar de não ser nada parecido contigo, o retrato vende mais, tem mais valor, do que se fosse um fiel retrato de ti.  "To be, or not to be, that is the question"
To Be.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Será que me é permitido sentir?

Será que me é permitido sentir?
Ás vezes gostava de ter uma pedra no lugar do coração, não me importar com as pessoas, não chorar por aí, escondida com medo de deixar passar as emoções. Gostava de não ser eu.
Sim. Não é nenhuma utopia, mas gostava de tornar o mundo, (de algumas pessoas num lugar conhecido, aconchegante, num lugar chamado lugar). 
Mas como ajudamos alguém que não quer ser ajudado? Que não quer saber?
"O mundo é feito de pessoas", digo tantas vezes, com uma força interior que às vezes não serve nem para mim própria, pessoas onde há sempre algo de bom, mesmo que esteja escondido ou camuflado. Mas será mesmo? Ou não será apenas uma ficção, criada pelo número de amigos que se consegue angariar nas redes sociais, aqueles que hoje servem para tudo, mas que amanhã, não valem sequer lá estar. E que pessoa sou eu no meio dessas pessoas? Não sei. 
A vida que levamos ou a vida que tentamos levar, até pode ser diferente da que gostaríamos de ter realmente, mas pelo menos tentámos e não é hoje que vou desistir de sentir, ainda que por vezes me seja proibido.

Foto: Internet

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O rio

Na sala de espera, tudo se espera e o tempo perde-se no tempo, o tempo... esse criminoso de olhos amendoados e de bigode esticadinho. Homem pançudo que percorre a aldeia serrana, de lés a lés, com uma carrinha de venda ambulante. "Quem quer comprar a melhor banha da cobra?", apregoa em todos os recantos, todos os buracos e todos os caminhos, mesmo aqueles que indo ter a algum lugar, não vão ter a lugar algum. Na bagagem o de sempre: sonhos, emoções e pedaços de companhia traduzidos em dois, três ou mesmo quatro dedos de conversa, nessa vontade de beber o elixir, de não envelhecer prematuramente.. 
Um pouco abaixo nasce um rio, que entre murmúrios e gargarejos, vai toldando a paisagem, estendendo-se pelas pedras vestidas de algas e musgo. De tempos a tempos, um Achigã (peixe do rio) rende-se às suas caricias, deixando-se levar pelo embalo da corrente. Um pouco mais a sul é a vez de uma tonalidade castanha, se misturar com a limpidez dos seus olhos, turvando-lhe o pensamento com pensamentos de saudade. Voltar para o lugar onde nasceu, é a primeira ideia que lhe vem à ideia, mas no regresso apercebe-se que já não é o mesmo. A sinuosidade do seu corpo deu lugar a um leito mais largo, de margens que transbordam para várias margens e não há margem para isso. 
Não é da idade, não é do tempo, mas é o tempo que o levou à passagem do tempo, onde a idade não importa, pelo menos enquanto a água continuar a nascer e a corrente a passar.
Foto: Catirolas

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Considerações a considerar

Estou perto, a falta de distância não me afecta. Não procuro ajuda externa, tento encontrar muita força interna. Não tenho mau feitio, apenas um feitio que não foi feito para todos. Raramente leio o horóscopo quando procuro algum conselho, a não ser que queira exactamente um, que sei que não irei cumprir. Não preciso de fazer dieta, basta ignorar algumas pessoas que me fazem perder peso só de olhar. Não importa se sou ou não profissional, o que interessa é o quanto profissional me possam pagar e esse pagamento cair de forma profissional, a tempo e horas na minha conta bancária. Não quero saber do que estou habilitada a fazer, sou afilhada e madrinha ao mesmo tempo, do tio, que é primo de alguém que não conheço, mas que como chegou mais cedo, ocupou um lugar, que não interessa, mas que todos querem reclamar. Inúmeras vezes canto, sem saber cantar: "Oh! Rosa, vá lá, arredonda a saia", apesar de 90% do meu vestuário se resumir a calças de ganga, sem partes do corpo à mostra, mas com muita vontade de o mostrar, em suma, sem suar, muitas considerações a não considerar, ou não fosse a vida esse lugar estranho, onde gostamos tanto de estar e de não estar.

Foto: Catirolas

domingo, 20 de janeiro de 2019

Dizer o que não se diz

Levantei-me com as galinhas, levanto-me sempre com as galinhas só não as oiço cacarejar. Lá fora o frio, de rachar, confunde-se com a neblina e o fumo das lareiras, que não sobe e se mantém quase instantaneamente por cima do teu cabelo, encharcado, abafando toda a fragrância de framboesa, com que o lavaste e isso faz-me recordar a melhor altura do ano, a primavera. 
No percurso que faço até ao local onde pretendo ir, os pensamentos tomam conta de mim, depois dos sentimentos já o terem feito, vezes e vezes sem conta, mas apesar de escrever na primeira pessoa, este eu na verdade não o sou. Um eu, que só posso revelar a mim próprio não vá a escrita trair-me o coração e as palavras fazerem greve de excesso de zelo, começando a escrever tudo o que desejo, mas não quero. 
A passagem para a outra margem , não se dá de barco, nem a nado, muito menos a pé ou de carro, simplesmente não acontece, pois, quer se admita ou não, entre a razão e o coração há um caminho intransitável por onde só as galinhas podem passar, mas as galinhas não sabem que o podem fazer. E eu, nesse meu mundo onde só o sol, tem possibilidade de me acender todos os dias, é a falta de luz que tem aparecido, essa escuridão que me tem lambido as pernas, de tal forma que já não há surpresas que me atirem ao chão. Sei que é uma imagem terrível, um sentimento destrutivo, por vezes dilacerante, esperar sempre e acertar com essa esperança, mas acreditem ou não, apesar de ser uma imagem triste, não deixa de ser uma solidão com muita utilidade.

Foto: Catirolas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Entrelinhas

Sei que demorei muito até voltar aqui. Na minha cabeça vários temas, muitas emoções. Nem sempre posso escrever directamente o que penso, ou o que sinto, por vezes tenho mesmo que usar meias palavras, significados contrários. Tenho que ser uma actora no meu próprio texto, mesmo tendo a certeza, de que quem me conhece verdadeiramente, me consegue ler nas entrelinhas.
Mas desta vez vou ser directa.
O que mais me apaixona naquilo que faço é, para além de ouvir as pessoas, ter oportunidade de contar as suas histórias, mesmo que grande parte das vezes isso me afecte, pois, apesar de o disfarçar, de esconder uma lágrima por detrás de um sorriso, não consigo desligar. Para o bem e para o mal, como é óbvio. Não tendo a certeza se isso me faz uma pessoa melhor, ou pior, mas faz-me seguramente ser uma pessoa diferente, que não consegue ser indiferente. 
Foto: Catirolas

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Ano novo, vida da velha

Às vezes penso, "sim porque às vezes também penso". Penso que a vida nem sempre parece justa e nem sempre o é realmente, até porque o Karma tem tudo para dar certo, quando é para dar certo e tudo para correr mal, quando tem que correr e há anos assim.
"Ano Novo, Vida Nova"! Filosofias, retrospectivas, balanços,... chamem-lhe o que quiserem, se lhe quiserem chamar alguma coisa, mas a verdade é que a chegada de um novo ano, não significa uma vida nova. Sendo que em 99% dos casos, a vida será a mesma que de anos anteriores, apenas com mais ou menos impostos, mais ou menos dinheiro na carteira, se isso for importante, claro que tem a sua importância e com mais ou menos rugas. Isto é, será um ano novo, com a mesma vidinha de sempre. É por tudo isso e mais uns quantos pensamentos, que às vezes pergunto-me: porque festejamos a chegada de um ano novo, se de novo, tem apenas os números que mudamos no calendário? 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Comidos pelo Natal

Estamos quase no Natal, é impossível não catirolar muito sobre isso. Juntar a família, todos no mesmo espaço, nem que seja apenas uma vez por ano é... um pouco como fazer um bolo, onde podemos seguir a receita à risca, passo a passo, medida a medida, tempo a tempo e ainda assim e apesar de ter tudo para dar certo, algo corre mal. Ou aquela receita, que resolvemos «interpretar» e utilizando os ingredientes, disponíveis na despensa lá de casa, resulta no melhor bolo, que algum dia fizemos, mas que ainda assim ninguém quer sequer provar.
Para este e para todos os dias da nossa vida, não há receitas ou fórmulas mágicas, há apenas pessoas, com todas as suas perfeitas imperfeições, imperfeitamente perfeitas. Se cada um de nós conseguisse entender isso, talvez um dia, não fossemos «comidos» pelo Natal, na sua plenitude da palavra.
Foto: Catirolas

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Entedimento


O conhecimento, o que é o conhecimento? Percebo mais de entendimento do que conhecimento. Não é por ser inverno e por termos por hábito, escondermo-nos em muitas camadas de roupa, mais do que as que tivéssemos vestidas, num dia quente de verão. Por vezes... "como posso dizer isto de uma forma simples". As pessoas, as que conhecemos, as que pensamos conhecer, as que gostaríamos de conhecer, as que nos são completamente desconhecidas. As pessoas, mostram melhor o que são naquilo que trazem vestido, do que naquilo que dizem, e não falo de roupa e muito menos de palavras. É esse entendimento que troco por conhecimento. 

Sinto-me tão pequena, quando, vencendo o sol na madrugada, se levanta sem medo, com saudades de saudar quem encontra pelo caminho, quando acha o caminho.
Não é fácil fazer das palavras, as palavras dos outros, transmitir os seus sentimentos, quando sentem, ou, quando se recusam a sentir, mas é muito mais difícil, quando sentimos e não devemos mostrar esse sentir.


Foto: Catirolas

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Mais fácil na prática que na teoria


Mais fácil na prática que na teoria. 
Dezembro tem sido um mês frio. Espera lá, dezembro é só amanhã! A confusão está instaurada. Confesso que cada vez menos, sei em que mês se começa a celebrar o Natal. Há quase dois meses que já se fala nesta época, em frases e campanhas que acabam todas com a mesma intenção, "Compra-me! Consome-me! Vá lá, gasta o teu magro ordenado, em coisas fúteis e supérfluas e pensa depois nisso". 
Ainda nem é início de dezembro e já as luzes se acenderam, e não me refiro à iluminação pública, que por vezes escasseia em determinados lugares. As luzes de Natal estão por aí, umas mais cintilantes que outras. 
Gosto de ver as ruas iluminadas. Esse ar que se respira, misturado com o frio e o cheiro das "quentes e boas". Recordo com nostalgia os quilómetros percorridos, propositadamente, depois do trabalho, quando tinha uma vida boémia. Terminando quase sempre num jantar, no topo de um hotel com vista para o castelo, com "companhia ambiente", ou numa cave, onde se servem os melhores vinhos e petiscos de Lisboa, ou simplesmente a beber um cocktail exuberante, aos tremelicos da passagem do metro que ajudavam a empurrar um beijo ou dois, na versão romântica da coisa.
Mas voltando ao que realmente interessa, o Natal. Gosto desta época, mas gosto de viver a época durante o mês a que ela pertence, dezembro, nem antes, nem depois. Gosto de fazer a árvore, para os meus gatos destruírem de seguida e o presépio no jardim, com as figuras tradicionais, onde não falta o musgo. Gosto de fazer e enviar postais festivos personalizados, pelo correio, (coisa rara nos dias de hoje), contrariando as tendências virtuais e gosto sobretudo de fazer os encontros, de um ano de desencontros, (se bem que este foi um excelente ano de encontros, mas há sempre algo a melhorar). 
Pode parecer cliché, pode soar até muito bem dizer ou escrever estas coisas, mas se não for sentido, vale o que vale. Será assim tão difícil fazer do Natal, Natal?
Foto: Catirolas


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A velha

Há sempre um lugar para ir, ou ficar, mesmo que se desconheça que lugar é esse e tantas vezes a solidão, se confunda com o estar só.
Pelo passeio da vida, uma velha de cabelos a roçar o grisalho, passa apressadamente em direção a lugar nenhum, vai ao quintal resmungar com as galinhas. O caminhar convicto, provocado pelos chinelos de uma marca escandalosamente cara, não fazem adivinhar a sua condição. Rica? ou Pobre? Ricos meninos foram aqueles que lhe limparam a casa, mas deixaram as contas para pagar. Os ricos, foram os parentes desconhecidos, ou os conhecidos aparentados. "Família", murmura entre os dentes postiços, presos entre os dentes verdadeiros. Aqueles que levaram tudo o que de valor tinha, menos a velha. A ela deixaram-na ali, com as galinhas, que já nem sabem cacarejar. Mas isso já foi há tanto tempo, que já nem se lembra, desse tempo. Anos, meses, dias, horas ou instantes. Também já deixou de fazer falta, afinal o que é a Páscoa, que significado tem o Natal? Nada, quando o tempo e aquilo que o preenche deixou de importar. A vida passou a desenrolar-se, ao ritmo de um chá quente com sabor a cannabis, como aquela planta verdinha que vai nascendo na estufa, dentro do galinheiro. E é nessa pressa, de quem vive acalentada a uma dor eterna, de um silêncio, que se rende ao barulho da solidão, que tudo se torna mais real... Faz "vento", que o vento já não voa por ali.
Foto:Catirolas




Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...