quarta-feira, 11 de julho de 2018

Coisas de lá, que poderiam vir até cá.

Nos Estados Unidos da América, terra número dois dos fenómenos, a seguir ao Entroncamento (conhecido, pela ocorrência de acontecimentos inexplicáveis em meados do século passado, tornados famosos nas crónicas de Eduardo O.P. Brito, um jornalista que esteve no ativo, mais de 75 anos). Na terra número dois dos fenómeno, parece que há agora um desafio a inundar as redes sociais com visualizações, dignas elas de fenómenos. Há esquadras de polícias a filmarem videoclips, onde cantam e dançam na própria esquadra e até utilizam certos equipamentos para complementar a coreografia. O videoclip depois de publicado, pelos próprios, nas páginas oficiais servem para nomear outras esquadras para o fazerem também. O último, com da policia Norfolk, na Virgínia, teve 27 milhões de visualizações. ​Sem saber muito bem analisar a utilidade desta iniciativa, (deixo isso para especialistas). Gostaria que os nossos polícias de cá fizessem o mesmo, principalmente quando estão a fazer operações stop. É que depois de mais de 20 anos sem ter sido mandada parar nenhuma vez, no mês de junho fui “revistada”, (numa perspetiva poética da coisa)​, duas vezes e hoje quase que seria uma terceira. Pelo menos não fui multada… resta saber o que me poderá acontecer depois de lerem este post... bem talvez os possa bloquear.




O Borda de Água

Ontem à noite cruzei-me com uma personagem que me pediu para comprar o "Borda de Água". Muitos poderão não saber mas o Borda d'Água, não é apenas o nome de um restaurante/bar/numa praia sem vento, onde se pode comer um gelado, sem levar com algo doce na cara. Bem, isso até poderia ser um cenário engraçado, se tivermos alguém para nos lamber, logo naquele momento, o doce a derreter na face!! (Sei que entusiasma, mas o melhor é deixar estas visões eróticas logo pela manhã).
O Borda d'Água é um almanaque português, anual, publicado desde 1929. Com um extraordinário sucesso de vendas. Um livrinho que apresenta prognósticos assertivos (e não são de futebol, porque se fossem não eram assertivos), conselhos práticos tendo em conta a sabedoria popular, com mezinhas, provérbios, fases da lua, informação sobre mar e marés, astrologia, calendário, efemérides etc... e muito importante previsões para agricultura: a época ideal para semear, as podas, as colheitas, entre outras. Esta última parte destinada a 90% da classe económica portuguesa, sim, leram bem 90% DA CLASSE ECONÓMICA PORTUGUESA, os agricultores: (os plantadores de mexericos políticos, os semeadores de coscuvilhice social, os podadores de vidas alheias). Estes e os restantes, os que se dedicam efectivamente a semear para colher. (Agora que deixei o erotismo inicial e o ironismo a meio do texto).
No local onde vivo, a maioria das pessoas tem um quintal e uma pequena horta, mas se atreverem a ir à cidade e olharem com atenção, depressa irão reparar nos campos ao lado nas vias rápidas, dentro dos jardins das cidades. Cada vez mais, estes espaços vazios começam a estar cheios de pequenas hortas, pessoas que não têm dinheiro e que ocupam a "terra de ninguém" para produzir um pouco de comida. 
É difícil classificar a que classe social pertencem, mas poderei chamá-los de visionários, ecologistas e empreendedores de campos e campos de oportunidades, que não deitam para a borda, o Borda d'Água.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Até um dia catirolas


Desde 2010 que tenho este blogue, criado poucos meses depois de me ter mudado para o Oeste. Ter mudado de cidade, de vida, de trabalho, de clima… muitas mudanças de uma vez só.
Escrever durante oito anos num blogue não é fácil… mesmo que não seja uma obrigação, que seja apenas mais um lugar onde podes fazê-lo sem regras.
Tenho a certeza, que poucos passam por aqui a ler os disparates que escrevo. Mas isso é o que menos importa. Pois o Catirolas embora seja publico, e de uma forma egoísta, é para mim que existe. Escrevo para mim, às vezes em desabafos, algumas coisas reais, outras inventadas. É de certa forma aquele amigo que deixei na metrópole e que aqui, por mais que tente, não consigo recuperar, falta a genuidade, a sinceridade, a verdade. Falta muita coisa, que talvez até por culpa própria não consigo recuperar…é um ponto final no Catirolas publico… até um dia.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Janelas


Quem olha para ela daquele lado da janela, pouco vê, muito menos imagina tratar-se de um rosto centenário. 
O relógio por cima da cabeceira da cama de pinho lembra como o passado continua a marcar a passada do tempo. Daquela janela com vista para o mundo e para lado nenhum, vê-se tudo: O arquitecto que desmanchou e refez a fachada de um prédio duplamente centenário. A Manuela, ou será que é o Manuel, que todos os dias sai com uma maquilhagem diferente, perto das dez da noite e que volta de madrugada, umas vezes só, outras acompanhada/o. A mercearia da menina Odete, de 80 anos, que ainda cheira a anos 70, perfume e sabores com gosto a fruta, enchidos tradicionais,  pão fresco logo pela manhã e todas aquelas emoções e sorrisos que escapam a qualquer loja gourmet, de um centro comercial de alto gabarito. A mercearia perdida no tempo, mas achada na genuinidade está ali, mais ou menos ao mesmo tempo, em que a loja do bacalhau impregnava a rua com o cheiro a qualquer coisa podre, mas muito boa.
O tempo avançou e o burburinho pelas ruas também. “Estamos na moda”, diz o carteiro que agora só traz contas para pagar. Longe vão os tempos das cartas de amor, dos namoricos ao final da tarde no jardim. 
Nuno e Teresa servem almoços ao início da manhã e trocam beijos ao final da tarde, mas no jardim restam poucos bancos. Nesse vai vem de amores proibidos e achados há uma multidão que os observa, mas que não os vê… apenas quem está do lado de lá da janela consegue perceber. Por mais que se tente, não há amor se compre, nem amor que se venda, apenas esse vai e vem de ver partir quem quer se (acon)chegar. 

Foto: Catirolas, sem filtros

domingo, 8 de julho de 2018

Madrugada

Há dias em que te levantas para ir trabalhar e outros para ir passear, mas que te levantas, cedo, com medo que o dia passe, a vida galope e a paixão corra demasiado depressa por ti. Pois nas noites em que dormes profundamente, lembras-te, de que não te lembras de nada e isso parece ser demasiado assustador, muito amedrontador, tal como esses dias em que as pernas te pesam tanto de desejo e os pensamentos são tão leves que te levam as ideias... por fim o balanço do mar, "bem me quer! mal me quer!"

Bem-querer

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Passos

E se caíres tens alguém que te agarre, que te ampare, que te abrace?
Alguém que te eleve pela preciosidade do ser, adormecido dentro de ti. Alguém que te veja para lá dessa beleza de olhos fechados, um olhar que acorda e te esmaga com essa sinceridade e verdade que faz o sol parecer um dia de chuva... mas dos bons. Sinceridade nas palavras, aquelas que te tocam, te molham a pele e te arrepiam o coração, com pequenos passos de amor, que não chegam depressa, mas que um dia que chegarão ao seu destino. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Numa atenção à temperatura

Numa atenção à temperatura ... o cabelo pode não ter o comprimento, ou a cor desejada, o rosto, as delineações pretendidas, a cintura, a proporção certa, os olhos, essa alegria de achar e perder um segundo de tempo na vida, envolvido em tudo o que é possível para esquecer e o sorriso, apesar de ser muito bonito, pode não ser perfeito, mas afinal o que o é?
Sei bem onde deixei o bloco de anotações, cheio de palavras começadas pela primeira letra do alfabeto, apenas não tenho a certeza de ser as palavras certas, mas as palavras, tal como os retratos que tiramos com o coração e guardamos para nós, são apenas uma forma de expressão, nessa vontade de verbalizar sem nada dizer, onde a beleza é tudo menos aquilo que se consegue ver à primeira vez.... muito escaldante.
Foto: Catirolas

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Estórias e rostos de gente por aí

E se um dia, desses em que na terra, brota um calor avassalador e onde a água é quente, mas muito fresca quando deitada goela abaixo, encontrássemos a vida? 
A vida nos pequenos lugares, que não é muito diferente da vida dos lugares pequenos, enche-me de emoção.  
Já passava da hora do almoço, apaixonada pela história, história das gentes e dos lugares, entrei na igreja levada por uma melodia imponente, por vezes suave, outras bruscas, provocada pelos movimentos das mãos de Maria a ensaiar no órgão da igreja. "Isso bem afinado", diz-lhe uma voz logo ali ao lado, a voz do professor atento, que não deixa escapar nenhum detalhe. Um pouco mais à frente a Madalena limpa os bancos de madeira revestidos por uma napa vermelha, um pequeno fio escondido, deixa perceber que no rigor do inverno serão aquecidos.
"A visita é bonita, acha que vale a pena"? Pergunto-lhe. "Vale sim menina, só a vista da parte de cima vale tudo, e os objectos também". Convencida pela Madalena, comprei o bilhete, enquanto a guia me sorria eu retribui a simpatia com uma fotografia. Fiz a visita. Madalena estava certa, era muito bonita.
Deixei a igreja para me entregar à sinuosidade das ruas, empedradas, limpas, viradas para as gentes, aquelas que por ali passam e aquelas que ali ficam, passando o tempo a ver outros passar, como o Francisco, o vendedor de "sons", a imitar um canário, objecto que tenta vender a quem passa na rua. "Há quanto tempo"? Muito tempo! Demasiado para quem nada vende, e muito pouco para quem nada compra.
Deixei a rua da cidade, segui direita ao campo, no pensamento a estrada... e se a estrada por onde segues, não for aquela por onde planeaste ir? E se ela te levar para um caminho onde a erva tenta romper o queimado da terra e o rio te obriga a atravessar uma água transparente?Não faz mal, aliás faz muito bem. Segui em direcção ao campo, na caminhada de descoberta na natureza, pisei uma cobra, fotografei uma formiga, deitei-me no chão e tentei fundir-me com a terra. Perdidamente embrenhada nos pensamentos, encontrei-me no horizonte, com o Manuel e o Joaquim em cima de uma casa de pedra com o telhando redondo, um pouco mais de perto percebo que são funcionários da terra reparando a Cárcoda, sedenta por dois dedos de conversa, mas sem nada lhes perguntar respondem-me, "ali  abaixo há uma fonte com água fresquinha". Informação recolhida e confirmada. Se a água não tem sabor, porque aquela sabia tão bem? Talvez pela sede de beber, de saciar com beijos de vida, a vida... afinal o que se pode fazer a tanto amor? Deixar amar.






Fotos: Catirolas. Nota os nomes das pessoas no texto são fictícios.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A despedida

Tic tac, tic tac... o gosto pelas artes sempre fez parte do seu ambiente familiar, mas também a natureza e a ginástica. Correr, pular, saltar, uma constante efusão de brincadeiras, era o dia a dia daqueles cinco meigos, lindos e leais companheiros. Vê-los nascer foi das coisas mais maravilhosas a que assisti. Uma noite fria ao lado da mãe, como um apoio materno que não tem vergonha de partilhar o amor de um ser por um outro ser, que não o olha sequer assim... limitando-se a amar, sem pensamentos ou preconceitos. Temos tanto que aprender... 
Arranjar um lar sempre foi opção, para cada um deles, um lugar físico, que será um espaço diferente daquele lugar em que sempre irão habitar e a que damos o nome do coração. Sim, o meu coração será sempre a sua casa. Apesar desta dualidade de querer e não querer, eles partiram. E hoje foi o ultimo, o dia da despedida e já tenho tantas saudades dos meus tesouros da natureza.
Se chorei? Sim. 
Porquê? Talvez porque sou demasiado sensível, ou lamechas se preferirem, apesar de não deixar transparecer. Mas essencialmente porque me comove a lembrança desse amor incondicional, genuíno e sincero de quem te ama sem pedir nada em troca... 
Foto: tesouros da natureza da Catirolas

Os condutores da vida


Às vezes a vida é como esses condutores que vão na estrada à nossa frente. Umas vezes andam devagar, outras depressa demais e ainda outras vezes, tantas, não andam nem desandam. 
Marcar passo, também é viver. 
Será?

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Helena

E se um dia as minhas mãos decidirem ir para um lugar diferente, daquele que os meus pés querem ir?
Tenho guardado há alguns anos numa folha de papel A3, a árvore genealógica da família. Um esboço que fiz, com a ajuda da memória da minha querida avó Helena. Os nomes dos meus antepassados e algumas curiosidades que ali constam são o registo, um arquivo, de alguma importância para mim. Mas não tão importante como a recordação da Helena, que abracei tantas vezes, (mas nunca o suficiente). 
Helena era uma mulher beirã, de pele morena, olhos claros a lembrar as amendoeiras em flor, mas o que mais sobressaía nela era a sua alegria contagiante. "Helena conte lá uma das suas!" Diziam-lhe tantas vezes. Uma das suas, significava uma lengalenga, uma chalaça, ou algo pior,  que fazia sempre alguém rir.
Ninguém lhe era indiferente e eu não era diferente.
Sentada num banco de madeira, enquanto a cafeteira de alumínio mascarrada, já sem asa, dançando ao lume, fazia o café, Helena contava-me histórias sem papel, livros ou fotografias para se documentar, falava-me ao coração, com coração...e o maior legado que me deixou, o registo mais importante para a minha árvore genealógica, foi mesmo esse amor.
Helena partiu quando menos se esperava. Uma noite sentada ao lume de lareira aberta, caiu e queimou-se. Não era por ser avó, ou por ser minha, (a minha avó), mas Helena era uma mulher muito especial! Não deixava ninguém indiferente e eu não era diferente. Gostava mesmo muito dela!



Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...