quarta-feira, 17 de maio de 2017

...e seja o que a noite quiser


À porta da taberna, nessa aldeia onde o betão parece adormecido e a tarde já vai alta, não se vai à missa, não se canta o fado, nem se veste a camisa do capitalismo, mas bebe-se um copo de vinho, ou dois, ou quantos se conseguir, enquanto se mordisca umas iscas com elas, mas sem elas e se comenta o jogo da bola.
Por detrás do balcão está um homem, com idade para não ser pai, nem filho da mãe, mas que o é, literalmente, por tanto mal ter feito a tanta gente. 
A realidade parece ser demasiado violenta, mas é o que é. Aqui não há cenários burlescos, nem vidas cosmopolitas e as cadeiras não estão forradas de cetim vermelho perfumado, mas a esse forte odor a masculinidades, que a ténue luz não deixa escapar. 
O tempo vai passando, enquanto a maior parte da acção se desenrola num dançar de copos: ora cheios, ora vazios e entra nesses corpos: ora soltos, ora apertados de almas: ora vestidas, ora despidas de preconceitos e de dinheiro, a respirar o chão e a amparar candeeiros que não existem, tal não é o tamanho da bebedeira. 
Quando a embriaguez se transforma nessa personagem libertina que não consegue chegar a tempo à casa de banho, é hora de sair porta fora e enfrentar a noite... e seja o que a noite quiser. 

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