segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade?

Será que nasci livre?! Sim, nascida nessa geração no após 25 de Abril.Livre da opressão de um regime onde era proibido falar, contestar e até respirar..., uma ideologia diferente da que existia no poder. Filha de gente que viveu na pele, no centro das operações, o dia da revolução e que por isso sabe um pouco mais, porque um pouco mais me foi transmitido, mais do que o que vem nos livros de história. Não faço ideia do que é viver dessa maneira, mas sei que não poderia estar a escrever o que escrevo, praticamente todos os dias, sem ir parar à prisão do Tarrafal.
Será que somos realmente livres? É a questão que se coloca. Não sei. Apesar do que temos hoje, creio que usamos mal a palavra. Se reflectirmos na sua essência, ninguém é completamente livre. Afinal quem o é? A liberdade de hoje, aquela que vivemos todos os dias, não é mais do que uma "ideia" de uma falsa liberdade, onde cada escolha é condicionada por uma série de regras e de princípios, que são, muito disfarçadamente, de uma forma mais ou menos consciente, "nos oferecidos", pela sociedade, pelo poder politico, pelo poder económico,... onde na realidade, cada vez mais, somos menos livres.

sábado, 23 de abril de 2016

O problema dos "se"

Se me emociono com facilidade.... será que isso faz de mim chorona?
Se me apaixono pelas pessoas.... será que isso faz de mim tolinha?
Se não sei ler e me engano a escrever... será que isso faz de mim analfabeta?
Se olho com sinceridade, mesmo que para aqueles que não o merecem.... será que isso faz de mim cega?
Se roubo um coração e se vejo e sinto em mim, que o amor pode ter vários rostos e significados... será que isso faz de mim gatuna ou trapaceira?
Se.... tanta coisa... É tão fácil julgar, apontar os dedos, as mãos, os pés, os braços,..., todas as partes do corpo, mais ou menos sensuais, muito mais simples do que jogar a roleta russa da vida, que por mais que se planeie, nunca se sabe realmente o que vai acontecer. Chorões, tolinhos, analfabetos,... pouco importa. Cada momento é vivido, a cada momento e tudo o resto são apenas baladas que um dia alguém escreveu para embalar o coração, porque todos, um dia, mesmo que por um breve segundo, têm um.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A adivinha

"Com um beijo só, cobres o rosto do mundo, onde espreitam os tímidos e se escondem os corajosos, porque o amor é como um rasgo de sol num cenário cadavérico, nunca se sabe quando vai (re)aparecer."

A noite é gelada. A lua é arrepiante. A imagem impressiona. Eu fujo, eu escondo-me, eu sento-me atrás de ti sem sequer me veres. Não há pinheiros, não há rochas, há pinhões e pedras. Camisas desfraldadas em calças sem bolsos, e bolsos sem mãos e mãos sem dedos...
"Que perfeição!" Que enlevo de monte. Adora e pasma o mundo, que não o vê, porque na realidade não está lá (o mundo, não o monte), não há nada. Nem luz, nem cores, nem lembranças...Mas eu, essa mão que abre os olhos, esse alguém que abre os braços aos dias do meu leito, quando os dias não aparecem, estou cá. Alma frouxa de prantos mortuários, vítima de um sonho inanimado pronto a ganhar vida, para esculpir as faces com cuspo, num gesto compulsivo, e agarrar as águas que me escapam por entre os dedos à medida que vão nascendo nos meus olhos. O que tenho? O que penso? O que desejo?
São quimeras de sentimentos, nascendo numa terra dura sem sequer lá terem sido semeadas e não é preciso ser-se um génio para divinhar.

 07/03/1998, CR (CM)

sábado, 16 de abril de 2016

Esquecimento

Vejo por esse mundo tantas pessoas esquecidas. Esquecidas na vida, no trabalho, no amor, na vida que levam...esquecidas dos outros e delas próprias...
Seja por vontade própria ou por distracção cerebral (e excluindo as doenças associadas à perda de memória); esquecemo-nos de tanta coisa boa na nossa vida, de tantas pessoas que nos querem e nos fazem bem, que por vezes se confunde, este estado com ingratidão ou egoísmo.  

A vida é feita de momentos e esquecer por esquecer não é problemático, desde que o esquecimento não se torne no nosso modo de vida e o lembrar apenas esse breve momento... Eu prefiro guardar os meus, vivendo-os e sentindo-os, através dos poros da minha pele morena, (agora não tanto dado a falta de sol) mordida pelas dentadas do carinho e da dedicação, de todos os que se cruzam no meu caminho e que me oferecem muito mais do que essa melodia, nascida de uma composição, que vem e vai direitinha ao coração. Inesquecível!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Divagações de dias de chuva

Um dia, naqueles dias em que as palavras não são precisas e onde não são precisas as palavras...nos nano segundos em que as notas musicais, trabalhadas por quem sabe dessa arte, desperta um sorriso no olhar, é quanto basta para o bastante... para a vida ser vivida e interpretada de outra forma. Um poeta da música, das letras, do desenho,..., de todas as artes e que as usa, não com a mania de vedeta, mas com a vontade e o sentimento de quem faz amor por amor e com o coração...Nesse dia... há todo um sentimento por despertar e para (a)brigar, naquele recanto do coração, onde se guarda as meias para dormir e as meias para acordar, porque algum dia temos que o fazer e porque a vida não está para dorminhocos!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amor incondicional


Amor incondicional
Há "peixe novo na travessa". Os vizinhos são novos, amorosos, afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Mas os seus donos não.
Acordam cedo mas deitam-se tarde e entre este espaço de tempo estão sempre em alerta e fazem exatamente aquilo que se espera deles. Mas os seus donos não.
Ficam quietos à espera de mimos e de limpeza, ocupam um pequeno espaço, em casa ou no quintal e um grande espaço no coração daqueles que os amam e os acolhem. Doces seres que não empurram os seus dejectos à mangueirada pela calçada fora a meio da noite. Mas os seus donos sim.
Que dão amor e amizade eterna, incondicionalmente, aconteça o que acontecer. Mas os seus donos não.
O tempo passa e os vizinhos cresceram, estão maiores, gigantes e subitamente, na cabeça de outros seres menos capazes de pensar, deixaram de ser afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Desapareceram, muito provavelmente despejados à borda de uma estrada, de um beco, de um mundo que não era o seu e longe daquele que conheceram desde que nasceram. Mas os seus donos não. Ali permanecem impávidos e serenos de consciência tranquila, de quem está habituado a ter a barriga cheia e a alma vazia.