quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A vida na santa terrinha é tão agitada.


Depois das férias de verão é difícil voltar. Voltar às rotinas de almoçar sardinhas frescas, vindas directamente da lota, acompanhadas com salada de tomate, apanhado do quintal, e da broa cozida a forno a lenha. Regressar ao transito infernal dos tractores que vão para os campos, uns mais topo de gama que outros, e regressar a esses horários e distancias que te colocam a poucos minutos de casa, praia, campo, actividades desportivas, culturais... A vida na santa terrinha é muito agitada e é difícil voltar depois das férias. Mas mais difícil é escutar o silêncio, que se perde no meio de uma multidão, que tanto fala e nada te diz. Saudades. Sim. Tenho muitas saudades, mas nada que uma prenda desta loja,  http://www.azevedorua.pt/ que adoro, não resolva 😍. Afinal, chapéus como estes não há muitos não.




segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Filosofias


Por mais que se tente abrandar, a verdade é que o ritmo da vida, nem sempre corresponde à música que estamos a ouvir, ou que queremos escutar. Nestes dias, nem o sol faz o que lhe apetece, nem o que nos apetece podemos fazer ao sol. Prestes a corar!
A verdade é que ainda há por aí quem nos surpreenda com o seu talento, com a sua maneira de ser, com a vontade de ser aquilo que é, assumindo-se na vida, despido de comportamentos incompreensíveis, de coisas... a viver com o pensamento nessa aldeia que quer ser cidade, mas que nunca deixou de ser aldeia.
Há tanta beleza por aí! Tantos lugares, tantas pessoas, uma imensidão de companhia! Porque perdemos a coragem de ver, de sentir, de deixar os outros sentir por nós, de nos sentirem, de nos sentirem sentir, porque nos rendemos a ficar sós.
Julgamos, desconfiamos, vivemos nas entrelinhas das palavras esquecendo que por vezes, as palavras são como as pessoas, nós, aquilo que somos, onde aquilo que dizemos, ou sentimos quer dizer exactamente aquilo que lá está, sem ser preciso muita psicologia ou algum dicionário para decifrar. Não podemos passar a vida a tentar ser desumanos, ou mais cedo que tarde, acabamos por esquecer  o sentido da humanidade, a única coisa que faz sentido...corar! (não é bem isso, mas hoje pode ser)

                                     
     Roupa a corar ao sol - Foto: Catirolas




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Atrocidades

Belas são as searas que ondulam com as suas espigas ao vento, na primavera, e as papoilas vermelhas que salpicam o chão com seus tons aveludados. Retratos de uma galeria de arte que alguém pintou. Que vontade de correr por entre esses prados, de me deitar no tapete das papoilas vermelhas e de pintar com tons de ingenuidade, tudo o que não se vê. Mas não posso. Já aqui não estou, minha vontade vai alta como o luar, na leitura dessas palavras, que viajam dentro de uma garrafa vidro, por aí, pelo oceano da vida, à espera de encontrar alguém que a liberte da encruzilhada em que se refugiou, porque se foi perdendo à medida que as nuvens se atropelaram umas às outras, por uma pechincha de chuva, e o vento cuspiu vagalhão sobre vagalhão para o alto das ondas, que desorientadas, fugiram do mar e se despedaçaram no primeiro encontro de amor que avistaram. "Às vezes o que não tem sentido, sentido tem".

Foto: Catirolas

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Tempo

Hoje acordei ainda de madrugada e faz dias que acordo de madrugada. Não tenho sono, mas apetece-me dormir...adormecer para acordar só quando não tiver que o fazer, é que faz tempo que não há tempo para apreciar o tempo que faz e isso consome-me o tempo, as horas e os minutos (esquecendo os segundos), em que devia estar a dormir... e o tempo que devia degustar, quando estou acordada.
Foto: Catirolas

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Vi(r)ver

Numa janela com vista nenhuma, há tanto que observar. Um mundo onde a incompetência é valorizada, os corruptos são vistos como "Chicos Espertos", os mulherengos desejados e as homerengas (inventei esta palavra agora), tidas como putas, uns dias mais desejadas que outros, e ainda onde quem trabalha, muitas vezes fora de horas, sem ser pago por isso, não sobe na vida, não recebe aumento, apenas de mais trabalho e é por isso um simples parvo, com ambições e convicções só possíveis na terra da parvónia. 
Nessa janela onde vê-se tudo e de tudo se vê, deslumbra-se um quarto com lençóis impregnados com o cheiro de quem ali dormiu: uma, duas, muitas vezes e a cama não fez, apesar de ter feito a cama onde se deitou e por essa razão dormir agora na mais completa solidão. "Insónias ao lado, que o Xanax daqui nada já faz efeito", a esperança também vive dentro e fora dessa janela e é na esperança, que se espera que a vista melhore um dia. Mesmo que não se faça nada por isso, ou tudo se faça, a vista tende a mudar, basta olhar realmente. Sem preconceitos, estereótipos, invejas, orgulho, ou ciumes. Ver simplesmente é tão simples e tão difícil!
A vida é uma incógnita e vi(r)vê-la é a única coisa que podemos, bem ou mal, longe ou perto de quem gostamos, e há tantas formas de aumentar e de encurtar distâncias. Afinal a escolha é sempre nossa e o que avistamos com o coração também. 

Foto: Catirolas

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A história da reportagem "Os comboios param cada vez menos por aqui"

A estação estava vazia, mas os caixotes de lixo cheios. Há quanto tempo estaria assim? (A estação, não os caixotes de lixo). Sentada num dos bancos de madeira já meio a cair, penso: "quantas pessoas terão se sentado ali?" Quantas mercadorias despachadas? Reencontros de familiares, encontros permitidos e despertar de paixões?" Tento imaginar tantas histórias, tantas quantos aquelas que os azulejos na parede procuram retratar, uma perfeita ilustração dos locais mais belos a visitar na região. Num outro lugar, algo que capta também a minha atenção, prémios que lembram que ali, onde agora só há mato e abandono, houve em tempos jardins, os mais belos jardins da estação.
Enquanto aguardo pelo comboio, o relógio de Paul Garnier, esse famoso relojeiro e engenheiro francês, fornecedor de relógios das estações, lembra a sua função: transmitir as horas aos passageiros em espera na gare e ao pessoal que ali servia. Este ainda resiste e marca o tempo de forma precisa. O relógio dizia-me: "está quase na hora". Um pouco antes do previsto, um senhor a quem vou chamar "senhor dos comboios" senta-se à minha beira. Talvez um pouco surpreendido por ali me ver, mete conversa. "É de cá? Para onde vai?" Eu respondo-lhe com sinceridade ao que ali estou, para onde vou e depois de algum tempo de conversa, algo estranha, que prefiro não pormenorizar, a seu pedido e com algumas reservas, dou-lhe o meu contacto profissional. 
Finalmente chega o comboio, uma carruagem apenas. Vai cheio, eu apanho-o e pago bilhete, o "senhor dos comboios" faz o mesmo, mas não paga. Desafia o cobrador a passar-lhe uma multa, como se fosse habitual fazer e era habitual como depressa percebi. O cobrador sem saber muito bem como lidar com a situação passa-lhe a multa, que o "senhor dos comboios" garante não pagar.
Antes de me sentar procuro um lugar vazio, para poder apreciar a paisagem e reter os momentos, mas o "senhor dos comboios" resolveu sentar-se a meu lado. Não me lembro muito bem quantas vezes insistiu para que saísse no mesmo local que ele, não sei quantas vezes recusei... Felizmente a minha paragem era perto e oito minutos depois de ter entrado saí e ele continuou no comboio. 
No local do meu apeadeiro, muita gente sai também. Chapéus, bolas, sacos com lanches, uma "festarola" de gente: amigos, famílias, namorados, etc. Com a praia logo ali ao lado e com a época alta, aquela é sem dúvida uma alternativa de transporte com muita procura, infelizmente cada vez mais desprezada e abandonada pela CP, levando à progressiva degradação da linha e do desaparecimento de comboios... não sei como deixamos chegar o património a este ponto. "Apesar do silêncio ser agradável, há momentos que o ruído, o burburinho, o movimento, a vida faz falta, ali é um deles. Tenho pena que os comboios parem cada vez menos por estes lugares".
Dias mais tarde recebo uma chamada telefónica. O senhor dos comboios liga-me. O que aconteceu depois?? Lamento mas não posso contar.


Foto: Catirolas







segunda-feira, 13 de agosto de 2018

(in)dependência


No outro dia, alguém que me “lia” profissionalmente, disse que mesmo sem eu assinar, era capaz de reconhecer os meus textos pela escrita. “Ler um texto e dizer este texto é seu. É um elogio”, gritou-me dada a minha apatia. (Isto porque era suposto agradecer as palavras. Afinal não há melhor elogio para alguém que escreve do que identificarem o escritor).
Tantas vezes me pergunto porque escrevo? Porque sigo este caminho? Que dom parvo é este que me acompanha ao longo da vida, que não escolhi, mas ao qual não resisti, não resisto.
Nunca quis ser escritora, não me formei em letras e toda a minha vida profissional esteve mais relacionada com números ou estatísticas do que com letras. Mas ainda assim, por mais que eu não as quisesse, elas sempre me quiseram a mim. Como um amor impossível, que persiste e insiste e que no fim não resiste. Gosto de escrever é uma realidade, apesar de nunca estar completamente satisfeita. Nem sempre é fácil, profissionalmente falando, aliás é muito difícil (não posso ser sempre a Catirolas). Não espero ser perfeita, sei que não consigo ser, há sempre muito, ou pouco, a melhorar. Também não espero ganhar nenhum prémio, (embora às vezes até desse jeito). Mas se as palavras puderem despertar sentimentos e esses sentimentos terminarem num sorriso, então já valeu a pena… um sorriso sabe muito bem.

28 de setembro de 1996


Era verão. Os dias quentes, correndo pelos corredores aqueciam-me o sangue e aceleravam-me a pulsação. A adrenalina enchia-me os tentáculos nevrálgicos e toda a minha alma vibrava por entre as margens do mundo. Depois, viajava pela praia cheia de gente, de corpos morenos, desfrutando um sol que sorria. E as águas, fatídicas, beijavam sensualmente a areia pelos lábios das ondas. Eloquentemente, via a lua adorando com profunda devoção e amor a noite, que era sempre maior que o dia. Depois, vinha a música, que rastejava dentro de mim pelas ruas compridas e alinhadas, desenhando contornos de um corpo romântico, profundamente apaixonado pelos tecidos de cores claras, bordados pelos jardins encantadores dos montes verdes, que se perdiam no horizonte, sem os olhos conseguirem alcançar o seu fim.
Era verão e eu adormecia à sombra de pensamentos bons, dos loureiros viçosos, deleitado pela melodia dos rouxinóis, escondidos nos maciços de verdura. A seguir, embrenhava-me nos braços de cupido e deixava-me levar pela sua magia, que explodia em relâmpagos plenos de força. Até que, um dia senti a minha vista perpassada por uma aflição cheia de amarguras, montes afastando-se, repudiando-me, perpetuando-me com uma nostalgia lancinante, sem cirurgia possível. Foi então que me apercebi que o outono se aproximava rapidamente, que a luz e a vida tinham dado lugar à sombra que me iluminou a alma. Senti que a tristeza me queimava as mãos, que o deserto me inundava e secava as veias e, finalmente, que a música, que me dava vida e alegria (rastejando dentro de mim pelas ruas compridas e alinhadas, desenhando contornos de um corpo romântico e  apaixonado), tinha deixado de tocar e que, por isso, já não era verão.


Foto: Catirolas

domingo, 12 de agosto de 2018

Caminhos de cabras


E se a estrada por onde segues não for aquela por onde planeaste ir?
Ti Maria Cremilde leva a enxada às costas, vai para a horta.
Acorda lá pelas cinco da manhã. Com duas fatias de broa e um caneca de café, antes do calor queimar mais uma ponta do chapéu de palha, remendado com linhas de linho, segue para a horta.
Envergando seu fato preto, lembrando a partida de entes queridos, desloca-se a pé para o campo, onde plantou uma mão cheia de tomate, que está quase maduro e que entretanto fará compotas para vender, todos os sábados, no mercado da vila. As pouco conhecidas mas muito desejadas compotas da Cremilde.
Ti Maria vive numa completa solidão, mas não é uma mulher só, tal não é a dimensão da vida, não apenas dos afazeres que a ocupam ao longo do dia, mas na vontade com que se dá e abre o seu coração.
Vive isolada no cimo de um monte, onde a vista que se avista é demasiado longe para quem está tão perto do ruído da civilização, mas que assim quer ficar. Dali sente o ar fresco e húmido da manhã, antes do sol subir bem alto e vê o mar, onde nunca se banhou.
Conheci esta linda mulher de olhos verdes e cabelo grisalho num acaso, seguindo uma estrada pela qual não planei ir. Recebeu-me com um sorriso, partilhou comigo broa de milho barrada com compota de tomate, contou-me histórias do arco da velha, deixou-me abraçar os seus dois gatinhos farruscos, pegar ao colo nas galinhas, tirar o leite das cabrinhas, deixou-me ficar.
E eu fiquei, perdida nesse lugar, (por onde não planei ir), mas achada em tudo o resto…


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A vida


Pára! Escuta e desolha! Sim de-so-lha, “fracturando a palavra”, primeiro de dentro para fora, depois de fora para dentro, com ou sem óculos. “Aquilo que se vê depende e muito do que se sente, não apenas do que seremos capaz de sentir, mas do que aceitamos realmente sentir. Será?”
Coincidência nos afectos, os amores também já por ali não moram não, nem os autocarros, ou as camionetas, muito menos as carroças e os carroceis, “talvez estes últimos ainda balancem em dias de festa e provoquem ali qualquer ignição”. Na generalidade e chamando os bois pelos nomes, já nenhum boi por ali se digna a parar. Por esta altura e esquecendo esse retrato, que deixa a nu todas as fragilidades ventriculares, resta a lembrança: um penico de dias vividos intensamente pela herança de alguém minguado de dotes físicos, mas muito atraente na intelectualidade do seu ser, onde sobressai essa estranha mas perfeita forma de amar “se é que existe perfeição”, um amor que tudo nega mas que tudo aceita.
Só há um caminho para a vida… a vida.

Foto: Catirolas

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A serra

Um pouco à sua maneira, dia após dia. Subir a encosta, ao principio do dia e voltar a descê-la. Na sacola a marmita, um casqueiro e uma lata de atum para enganar o estômago, quando o sol se resolver aparecer, posicionando-se mesmo por cima dos seus cabelos, entre negro e branco de tanto amor por corresponder. 
A cidade a dois passos do alcance da sua vista, olhos castanhos da cor das bolotas. No alto do ponto mais alto, "que vista! Um deslumbre de partir o coração", como o seu. As mulheres não se acertavam no seu caminho. Não era por ele, mas pelo local. Não queriam ficar por ali, naquele isolamento, (perto da vista mas longe de tudo o resto). Mas Joaquim não perdera a esperança de voltar a amar de novo, até já tinha uma candidata. Moça jeitosa, de sorriso rasgado, cabelos em cachos, da cor daquele sol que lhe ilumina o caminho. O mais atordoante são os olhos, castanhos de uma cor por decifrar e um olhar penetrante que o esmaga, sempre que procura ver mais ao longe. Apesar de quase sempre o nevoeiro ofuscar a paisagem, de não ser possível deitar-se na erva fresca e densa a ver as estrelas, o seu coração fica explicitamente feliz. Um sentir e desejar que o faz esperançar esse amor.












Foto e legenda: RC
Sábado a Serra que gosto muito ficou assim por um tempo. Linda e fria. Quem não gosta desta Serra assim. Muitas vezes antes de lá chegarmos já nos apetece estar, abraçar e cheirar aqueles cabelos.

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...