quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Hipérbole

Vais para onde vais, nem sempre é para onde queres ir realmente.
Nas pequenas coisas que vou fazendo por aí, comunicar é o verbo que mais utilizo, mas comunicar, na linguagem da Catirolas, nem sempre significa aquilo que realmente quer dizer no dicionário da língua portuguesa.
Escutar, sentir... correr, respirar, aguardando que os sentimentos reencontrem os seus passos, olhar e ler as pessoas em toda a sua essência, sem que isso seja defendido numa simples contemplação, é apenas uma parte, que a caneta não traduz e o caderninho, cheio de rabiscos, não memoriza, ver para além de..., nem sempre é fácil e as pressões aparecem de todos os cantos.
A empatia, a amizade, a compreensão, o estar lá, mesmo a fazer o que é suposto, mas ainda assim ser diferente indo mais além, realmente.
Nem sempre é preciso muito, para se ter muito, tantos me ensinam isso, porque dos nadas também se fazem bolinhos de iogurte e os bolinhos de iogurte sabem a carinho.





quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Turismo dos lugares queimados

Esta semana e por motivos profissionais tive que visitar alguns lugares da zona Oeste atingidos pelos incêndios. Encostas viradas para o mar, vales, estradas de floresta. Lugares onde tantas vezes passei de bicicleta, ou de carro, onde enchi os pulmões de ar fresco, onde fiz caminhadas, onde me deitei no chão a contemplar, onde fiz praia, onde "bebi"saberes de património histórico e natural tantas vezes despercebido. Uma paisagem que está agora quase na sua totalidade a preto e branco. Não, não é bonito, é muito doloroso de ver.
 Nesse dia em que fui a esses locais, apercebi-me de um curropio. Gente, provavelmente, sem nada que fazer. Uma multidão atípica, andavam devagar, paravam, fotografavam, alguns mesmo tiravam selfies, aqui e ali. Um transito que adivinha um fim de semana de muita afluência.
Mas afinal o que fazem ali aquelas pessoas? Porque vão a um lugar de onde só me apetece fugir... por tanto me fazer doer o coração e a alma?
Não sei se vêm de longe ou de perto, parece-me que vêm ver as ondas gigantes... não as que brotam do canhão da Nazaré e da praia do norte, mas as ondas de cinza... São turistas, ou visitantes dos lugares queimados. Talvez se junte a essa multidão a barraquinha que vende farturas, ou pipocas e com alguma música à mistura se faça uma feira. 
Irónica?! Injusta?! Cruel?!
Posso até estar a ser tudo isso, mas é o estado do meu coração e ele repele-me para não ver.

domingo, 8 de outubro de 2017

Dia de subir e descer às árvores


Assim como quem corre depressa, já estamos quase, quase.... quase no dia internacional de descer e subir às árvores, nesse tempo em que o verão chegou ao outono, onde os tremoços são substituídos pelas castanhas, que oferecem agora a sua companhia às cervejas, para agradar ao tempo que faz. Um tempo onde nem sempre somos o que parecemos e muito menos parecemos o que somos, porque parece, que ser o que os outros querem, é mais importante que ser realmente.
Confuso?!
Talvez, mas quem sabe se vivermos um pouco na incógnita, na ignorância do nosso ser, à margem dessa beleza cobiçada, que em nada tem de real, muito menos as rugas de expressão causadas por sorrisos amarelos em rostos artificiais, talvez se possa ser mais feliz... e finalmente perdoar a esse tempo, onde o tempo não perdoa... e não há nada para perdoar apenas viver.
"Ao perto ninguém é normal", Caetano Veloso "e ao longe a normalidade é uma anormalidade óptica (não confundir com óptima, mas também pode ser)" Catirolas

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Procrastinação

A palavra parece difícil de dizer, de pronunciar, mas muito fácil de entender.
Por estes dias a colocar a leitura em dia descobri que ultimamente ando com sintomas de procrastinação. Adiar para depois, fazer mais tarde, são os significados mais simples para descrever esta doença. As razões? Essas podem ser muitas e variadas: perfeccionismo, achar que nunca está bem feito e por isso partilhá-lo é sempre um desafio; não saber muitas vezes como e por onde começar, por falta de motivação momentânea, enfim... os motivos são sempre muitos e fortes, mas a consciência da inconsciência, a quem os maduros chamam a P........da vida ensina que, esse hipocondrismo de procrastinação acaba, no momento em que se percebe, que o tempo que se perdeu a pensar nisso, não volta mais.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Controlo


Hoje conheci uma pessoa extraordinária e ontem também. Todos os dias conheço alguém que o é. Um golpe de sorte? Um boletim premiado no coração? Talvez uns olhos maiores que a barriga...e a barriga parece pesar sempre um pouco mais e a tragédia do saber tem apenas três tempos: o não saber, o querer saber e o aprender a saber. 
O tempo está a mudar, mas no guarda, que guarda a roupa, no guarda roupa, os trapos parecem permanecer aguardando que os escolham sem reservas do tempo. E vontade? Se aguardarmos as melhores condições para viver fora do imprevisto, podemos chorar. Há sentimentos e adversidades no nosso ser que jamais conseguiremos controlar, a pressão exterior é como um ciclone: é imprevisível, implacável e foge continuamente ao nosso controle. O mais certo é que ter que interiorizar em 360 graus, tudo ao mesmo tempo e viver tudo, de uma vez só, esperando conseguir encontrar o amor e a sabedoria que nos faz viver apenas, um dia e um só dia, de cada vez.

Rir a fundo perdido


Hoje apetecia-me rir a fundo perdido, sem pagar impostos camuflados de rugas de expressão. Apetecia-me ser um pão que se derrete à medida que vida se manteiga e o sol aproveita para escaldar o coração, sem o incendiar com os seus raios de inveja e indiferença. E à medida que o outono chega, chegar com esses braços de amizade, que podem vir embrulhados em forma de riso, só para me roubar um sorriso a fundo perdido. Um achado difícil de achar.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Luxúria


Nesse misto de emoções incontroláveis, corremos algures por aí, esgalhando o asfalto da vida, de tal forma que os meses parecem dias e os dias... bem os dias, não se parecem com nada do que queríamos que se parecessem... talvez se por um segundo se fizesse, se se visse, luz...ou amor, o tempo parasse por ali e por ali ficasse, sem passar. 
E queremos? Queremos sequer ousar querer? Não creio.
... enquanto desejamos voltar ao sitio onde já fomos felizes, outros só querem um sitio para ser felizes. 



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O regresso às aulas dos alunos candidatos

Por mais que o queira ignorar, é impossível contorná-lo.

O inicio do mês de setembro é habitualmente marcado pelo regresso às aulas, mas este ano, o tema é dividido pelo protagonismo das eleições autárquicas.
Numa sociedade evoluída, a campanha eleitoral já não se faz tanto no porta à porta, cara a cara com os eleitores, mas mais perfil a perfil, nas redes sociais, onde não se dá propriamente a cara, mas dá-se tudo!
E tudo é mesmo tudo.
No meio desta divisão entre o regresso às aulas, encontra-se facilmente semelhanças com as eleições autárquicas.Querem ver?
Em época de eleições são todos mais ou menos alunos: uns repetentes, outros novos nestas andanças, aqueles que têm a escola toda e aqueles que aspiram ter, e depois há ainda aqueles que já andaram num estabelecimento de ensino, mas que agora já estão noutro. No meio de tudo isto, a maior diferença entre os "alunos" estudantes e os "alunos" candidatos, é que, na grande maioria, estes últimos, uma vez colocados, tudo fazem para o repetir, pelo menos de quatro em quatro anos.  

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Os direitos dos direitos

Em Melboune, na Austrália o restaurante Hadsome Her, vegan e feminista, cobra uma taxa de mais 18% aos homens em relação ao preço cobrado às mulheres, a razão, justifica a proprietária, tem a ver com a percentagem que as mulheres australianas ganham, a menos que os homens, pelo mesmo trabalho. Em Portugal o Governo, através da comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, por recomendação do ministro adjunto recomendou a retirada dos cadernos de actividades de uma editora, por terem exercícios mais fáceis para raparigas do que para rapazes e de seguirem preconceitos discriminatórios. Não sendo a favor da discriminação seja ela qual for, a verdade é que os homens são diferentes das mulheres, existem certos trabalhos, quer sejam físicos, ou mais intelectuais, que as mulheres fazem melhor do que os homens e vice versa, infelizmente e por culpa da sociedade, acentuou-se essas diferenças, usando-as na sua maioria em favor daqueles que por uma razão, essencialmente histórica, começaram por ter um papel mais visível, mais activo, lhes foi dada essa oportunidade. A sociedade, a história, a vida vai mudando, mas ainda assim e agora mais por conveniência do que por outra coisa, por interesses económicos, não houve ainda a tal evolução para o patamar onde todos nascem iguais com os mesmos direitos...eles existem, mas não são mais do que direitos negociados, impostos, oferecidos, vizinhos de uma falsa liberdade.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Noite infernal

Foi numa noite infernal, escaldante, ardente de verão. O ar abafado convidava a uma saídas nocturnas, a umas escapadelas boémias, pelos caminhos do pecado e do prazer, contrariando o tédio da azáfama, que é o dia-a-dia. O bar do costume estava como habitualmente, apinhado de gente. O ambiente não podia ser mais agradável. Conversava-se de tudo, ouvia-se música e, claro, bebia-se muito, desde os mais exóticos cocktails até à tradicional imperial. Uns quantos copos depois, o espírito estava mais solto, mais descontraído, e a embriaguez conduzia à desinibição. Do outro lado do bar, encontravam-se uns deslumbrantes olhos castanhos, uns longos e lustrosos caracóis e umas pernas espectaculares. Enfim, uma rapariga repleta de beleza e sensualidade. Sem conseguir resistir aquela magia, um jovem aproximou-se dela. Um cigarro na boca, dois dedos de conversa e um pequeno beijo nos lábios foram os primeiros passos. Depois, as mãos entrelaçaram-se e saíram do bar, em direcção ao carro estacionado numa rua deserta. Sentados no banco de trás, começaram por se beijar. Primeiro devagar, depois cada vez mais famintos, sofregamente. As mãos, excitadas, não paravam quietas. O coração pulsava cada vez mais depressa. Os seios pareciam querer saltar para fora da blusa desabotoada. O prazer do momento contagiava e aquecia o ambiente, embaciando os vidros do carro. Minutos mais tarde, desfalecem cansados no banco de trás. As faces rubras, os olhos brilhantes, os cabelos despenteados, os corpos nus e as almas sorridentes, traduziam uma vontade de voltar a repetir tudo, outro dia qualquer.
Amor?Não! Era apenas sexo, sexo bom. E a protecção? O preservativo? Não tinha sido utilizado! Estava algures, inviolável no bolso das calças. Aconteceu tudo tão rapidamente que nem houve oportunidade.
Alguns meses depois, numa noite  infernal, fria, gelada de inverno, o ar, impregnado por partículas de pó, tinha um sabor amargo e o cheiro da morte. Na cama do hospital, um jovem pálido, doente, com os olhos rasos de água, recordava com certa dificuldade, aquele maldito episódio. Ela era boa, bonita, sensual, um autentico demónio de saias, o seu verdadeiro carrasco. Não sabia o seu nome, nunca soube. Na verdade já não sabia mais nada, perdera os amigos, a família, o trabalho, a dignidade, o respeito e até a esperança. Restava-lhe apenas a sombra negra da resignação e da revolta, por tudo o que o destino lhe traçara. "Se ao menos...", lamentava-se. Mas agora era tarde demais, a racionalidade desvanecera-se, a vida fugia-lhe das mãos. De tudo o que tinha, e que subitamente perdera, restava-lhe apenas a certeza de uma coisa, daquela maldita placa pendurada na porta do quarto, como uma corda pendurada ao seu pescoço, a anunciar: "sida. Doente em fase terminal".

Agosto de 1997.

Um dia melhor

São assim... tristes tão tristes, que as suas lágrimas parecem cachos de uvas pendurados na videira os olhos. Pobreza de casa, de trapos, de amor, ausência de pão. Vidas trazidas à praça pública em pequenos desacatos privados, raspas de promessas entoadas num timbre de voz invisível, para ninguém escutar. Gritos secos de bocas molhadas pelo vinagre da indiferença. Aí se vai ficando, cuspindo golfadas de dor no prato que se come, ainda que este se encontre ausente de comida. Ridículo?
Permanecer num lugar onde não se pertence, ou partir para outros horizontes que parecem infinitos labirintos de veredas domingueiras, onde o vazio é sempre o mesmo e até a indigência da guerra se reflecte nesse silêncio só, num colectivo de manhãs que têm o gosto de noites e de meses que aparentam anos e anos iguais. Quem sabe se amanhã o calendário nos surpreende e se não será finalmente dia de folga.

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...