quarta-feira, 9 de maio de 2018

Ínvio

Perdida de amores, era com extrema atenção que tentava apagar com o que tinha à mão, a tinta que lhe manchava as pernas magras, pouco definidas, mas graciosas. Nesses detalhes que as calças de ganga desbotadas, mal escondia. Mas, sem se importar realmente com a aparência, oferecia seus lábios,  para um beijo vendido, mas não comprado, seduzido pelas sensações que combinavam o doce de um limão, com a amargura de um morango, num antagonismo de sabores que o tornavam demorado. 
Às vezes, durante o despertar das tardes e o adormecer das manhãs, lá lhe aparecia o sussurro do coração, e por momentos, ouvindo os seus mexericos, deixava-se levar por esse caminho ínvio, sem arrepiar caminho. Tudo o que sabia é que se olhasse nos seus olhos sem desviar o olhar talvez o feitiço se quebrasse. Mas seria feitiço? Quem sabe se seria. Quem sabe o que seria.
Demasiado ruído para se entender, ou emotivo para explicar, mas quando o silêncio aparecia, lá vinha o beijo e foram tantos, vagarosos, irresistíveis... os miseráveis! Tão perturbadores que, por mais que tentasse, não conseguia sequer lembrar-se deles, apenas sentir-lhes o gosto... se a um quase também for permitido sentir.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Generalizações


Às vezes parece que vivemos em mundos diferentes, em cidades diferentes, em corpos diferentes… em vidas diferentes. Visto de fora para dentro, parece tudo fantástico! O emprego que outro tem, a namorada do vizinho e até o animal de companhia, uma excelente companhia, sempre melhor visto de fora… Não é uma questão de cobiça, apenas de matemática em que ao equacionar da realidade, aquilo que construímos parece sempre melhor quando a vida não é vivida por nós, cheia de feedback positivos, ou likes se preferir. Uma percepção da realidade construída colectivamente, apenas separada quando deixamos de usar filtros, hierarquias ou artefactos.
Embora às vezes pareça, não vivemos em mundos diferentes, em cidades diferentes, corpos diferentes ou vidas diferentes, vivemos... Será que errar é assim tão desumano?      

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A ternura dos 80

O idoso de 80 anos de cabelo branco, rosto enrugado, com boina castanha e de óculos graduados, lá entrou a custo no banco, para depositar o dinheiro da reforma, um ritual que repetia há anos, mas em vez de dar o dinheiro ao caixa, saca de um revólver, e com a ternura e doçura próprias da idade, lá vai dizendo com dificuldade, meio atrapalhado pelas palavras que parecem ficar presas à dentadura postiça. "Isto é um assalto"! Disse tão alto quanto a sua voz lhe permitia. O caixa surpreendido, apressa a meter-lhe o dinheiro num saco do pão e o velhote, auxiliado pelo segurança do banco, sai com toda a naturalidade e descontracção.
Cá fora, a sua esposa, Ermelinda de 79 anos, esperava-o ansiosamente ao volante do Cadillac de 1930. Entrou no clássico e saíram dali a alta velocidade, rumo a lugar nenhum. "Ermelinda, e se parássemos para fazer um piquenique?" Perguntou-lhe com esse amor sábio, interiorizado pelos anos que passaram juntos. 
Pararam e sentaram-se à beira mar presos às emoções de estarem vivos e de se sentirem vivos pelas acções praticadas, 50 assaltos em 3 semanas, que excitação! "Ermelinda e se fizéssemos amor aqui na praia?" Pergunta-lhe sem grandes rodeios. Ela sorriu e disse que sim. Foi então que sem mais delongas, Anacleto com as mãos a tremer de tanta emoção, apressou-se a tomá-la nos seus braços.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Libertas

Tantas vezes me perguntou o que é a liberdade? O que é ser livre? 
Os livros de história, de sociologia, de antropologia, de política, de filosofia e até de banda desenhada, para quem prefere as imagens às palavras, facilmente darão a resposta pelo menos alguma resposta. 
Eu, pouco sei sobre o assunto, talvez ligeiramente mais, do que uma das definições que vem no dicionário, tais como: "o Direito de proceder conforme nos pareça contando que esse direito não vá contra o direito de outrem"
A verdade é que, ás vezes, tudo o que precisamos é de meias para dormir e depois meias para acordar e entre este calça e descalça, descobrimos que a vida não está para grandes sestas, mas podemos escolher dormir.



sábado, 7 de abril de 2018

Páscoa, amêndoas, folares e outras frivolidades

Agora que a Páscoa passou talvez seja altura de falar do assunto.
Não comi amêndoas, (talvez duas ou três), não provei um folar (provei pelo menos dois, das duas reportagens que fui fazer, porque jornalista tem que sentir, pelo menos esta). E o coelho? Bem o coelho ficou-se por alguns metros longe do meu quintal, porque o Pipo não perdoa e não há coelhinho que resista. 
Não, não fui de mini férias, não fui a banhos (apesar de me importar muito não ter ido) e também não fui para a neve, ou ao Base Camp no Everest, lugar por onde tenho uma estranha atracção. 
Se contasse o que fiz nestes dias... este blogue tornava-se demasiado pessoal. Na realidade não me apetece partilhar que nada fiz de especial, até porque fiz, mas que não cabe neste texto. 
Não sei se foi ou não uma excelente semana santa, mas foi seguramente uma santa semana.

Foto: Catirolas... a iluminar por aí

quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma pedra no lugar do coração


Num dia igual a tantos outros, de passagem, com o vento primaveril a amaciar-me o rosto. De mala a tiracolo, a máquina fotográfica ao pescoço e o caderninho na mão. Embrenhada nos pensamentos, fiquei indiferente. Indiferente não, por não ter dado pela sua presença, mas mais por estar concentrada no que iria fazer, de tal forma que por momentos nem me apercebi que estava lá. Mas ele estava lá, como uma sombra, uma peça que ali não pertencia, uma pedra fora do lugar, mas que ainda assim, e depois de me aperceber realmente da sua presença, tanto sentido fez para mim, ali estar.
Aproximei-me por breves momentos, olhei-lhe nos olhos disse um bom dia e esbocei um sorriso e o meu bom dia foi correspondido com outro, mas o sorriso deu lugar a um olhar de incredibilidade, de admiração, talvez pelo interesse, por ter-se feito notar.
Por momentos pensei em dirigir-lhe mais algumas palavras, perguntar-lhe o nome, de onde era.... Perceber qual a razão que o levou a estar ali. Mas não o fiz. Os poucos segundos em que lhe pensei dar atenção foram engolidos, esmagados por uma multidão de visitantes, que por ele passou e sem lhe dirigir uma palavra, um sorriso, ou até mesmo um olhar, lhe deram aquilo que pedia e que lhe importava realmente naquele instante, alguns euros.
Por momentos pensei em dirigir-lhe mais algumas palavras, perguntar-lhe o nome, de onde era... Perceber qual a razão que o levou a estar ali, mas não o fiz. Não o fiz, não por causa da multidão, mas porque não quis comprometer o encontro de trabalho que iria ter de seguida. Não o fiz porque já me encontrava suficiente emocionada, tocada, de lágrimas nos olhos sem culpa do vento. Não o fiz para não expor os meus sentimentos. Preferi colocar uma pedra no lugar do coração. Ainda antes de partir para o meu destino, peguei na máquina fotográfica, que ainda tinha ao pescoço, e entre olhares de consentimento tirei-lhe um retrato. 
 (é esta a história desta fotografia)

Foto: Catirolas


Momentos simples ou simples momentos.
A simplicidade das pessoas também reside nas pessoas simples, ou na capacidade de ver, sentir, amar essa simplicidade... Quantos de nós consegue fazer isso, realmente!

quinta-feira, 22 de março de 2018

Pequenos detalhes

Gente de pele áspera e cansada labutam na terra infértil e nela depositam todas as suas energias e esperança.
A minha terra é a imaginação, num mundo onde semeio palavras, que podem ou não também germinar alguma coisa... emoções, sentimentos... 
Se chegam ou não ao seu destino. Se chegarem ao seu destino, talvez.... talvez arranquem um sorriso, uma lágrima. Mesmo que ao seu destino não cheguem... talvez, ainda assim haja vontade de conhecer o agricultor que de pele áspera e cansada não se cansa de labutar na terra infértil e depositar nela toda a sua energia e esperança...  

quarta-feira, 21 de março de 2018

A poeta Catirolas

Porque hoje é o dia da poesia. (apesar de detestar dias instituídos).
Resolvi soltar a poeta que há em mim, ou havia, partilhando três poemas do fundo do meu baú.
16 de maio de 1998


17 fevereiro de 1996
18 de janeiro de 1998









sábado, 10 de março de 2018

Voos de inverno

Se me perder por aí... talvez encontre outros caminhos que a nenhum lugar irão dar. Mas pelo menos não podem dizer que não tentei. É inverno, está frio e apetece pantufar... e se me perder por aí?
"Cuidado com o chão", o alerta vermelho, alerta para que se fuja dos pingos da chuva e há tanta gene que o faz, mesmo em dias em que não chove sequer. Foge sem nunca ter apreciado, sentido a água gelada que cai dos céus. "Umas gotas mais ou menos fortes, uma vez por outra, sabe bem, sabe-me bem" e até mesmo o vento que nos despenteia o cabelo, parece arejar as ideias e as lágrimas que causa aos olhos parece devolver-lhes um pouco de brilho.
Já me perdi por ai e muitos abraços dei. Abracei uma multidão, abracei-os com o meu sorriso, com a minha amizade, com a minha maneira de ser, mais ou menos apreciada, dificilmente perfeita, ou fácil de gostar. Mas na realidade não foram muitos aqueles que me apeteceu voltar a abraçar realmente... e isso não é perder-me por aí, é achar-me!

Foto: Catirolas

quinta-feira, 8 de março de 2018

O dia...

Sobre dias instituídos.

Não, não adianta tirar mestrados, conversar com os amigos, com os amigos dos nossos amigos, com os nossos namorados, com aqueles que aspiravam a ser, mas nunca foram... apesar de terem dito a meio mundo que os nossos beijos eram os melhores que já provaram. 
Não adianta tentarem vestirem-se de nós no "Carnaval", ou noutro dia qualquer quando não estamos a ver. Sim também temos os nossos dias e as nossas fantasias, que queremos que descubram ou que simplesmente perguntem quais são? 
Não adianta ler sobre a matéria ou tentar perceber o que vai na nossa cabeça. Somos super simples, e sim às vezes também somos simplesmente complicadas. Na realidade somos apenas o que mostramos e tudo o que queremos, descomplicada mente não é mais do que que qualquer ser humano, independentemente do sexo. Que se esforcem e se interessem por nós, pelo nosso corpo, pela nossa maneira de ser, pela nossa alma. Que si interessem, ponto. Todos os, minutos, horas, todos os dias do ano, mas se esse interesse vier acompanhado com um ramo de flores, também não faz mal. Aliás faz muito bem. 





quarta-feira, 7 de março de 2018

Espíritos inertes


Um dia somos excelentes, outro, nada valemos. Piripiri!
Tal como essa toalha de renda de bilros estacionada em cima de uma mesa farta de ociosidade, onde abunda a comida e sobra a vontade de comer.
Experimenta vestir umas calças de tecido grosseiro, atadas nos joelhos com cordéis e procurar, buscar amor, companhia, e em última instância comida, alimento. Essa comida cheia de nutrientes e de outras coisas, que não se encontra em nenhum restaurante famoso, mas em alguém que saiba conjugar com temperos de amor, os alimentos da amizade, da solidariedade... da humanidade.
Um dia, num desses em que as ondas desmaiam de jubilo, os ventos suspiram, as estrelas fogem, as areias movem-se e as aves marinhas brindam o mar com os seus cantos, talvez tudo seja diferente. Talvez esses seres "pobres" acordem longe dessa sociedade corrupta, escrevam um livro, enriqueçam alguém a quem não falta dinheiro, poder, nobreza, mas onde falta tudo o resto. Pobreza. Pobreza!?
Pobreza é acordar todas as manhãs num palácio onde se tem tudo e descobrir que, afinal, não se tem nada, apenas esse espírito inerte.

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...