quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Esperança

Estava abandonada há mais de 50 anos, o cenário era de partir o coração, uma fachada desgastada, dificuldade em manter-se de pé e tudo o que ainda não tinha sido roído ou corroído fora roubado e jamais possível de repor. A vontade inicial de muitos em voltar a erguê-la, mostrava-se afinal a vontade de poucos, e mesmo essa minoria sentia pouca vontade em matérias que não era da sua competência e em matérias de solidez a legislação indica que se deve seguir os protocolos, antes que os pro-to-colos lhes caiam em cima. Recuperar do modo mais fiel possível ao original, transparecendo ainda assim as diferenças que o tempo foi acautelando não é fácil. Mas torna-se muito mais difícil quando ninguém quer saber. E afinal há alguém que queira realmente saber? A segurança social, os vizinhos, os amigos, os filhos, os irmãos, os pais (bem esses não, que esses já morreram, aos 90 anos não resta muita coisa). O silêncio diz tudo, abandonada aos 90 anos, com a fachada do rosto desgastada, com as pernas cansadas causando-lhe dificuldade em manter-se de pé, naquela casa onde o tempo envelheceu o lugar e o que não definhou fora levado por aqueles a quem durante muitos anos chamou de família. Essa realidade que lhe provocou um pranto de lágrimas secas foi interrompido por um ladrar intenso, sincero, amigo e muito afectuoso.... afinal ainda há esperança, para a linda Esperança de 90 anos.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As meias e os seus buracos

Há dias assim... mesmo quando estás sempre a ouvir dizer que quantidade não significa qualidade que menos é mais, ainda assim vale a pena arriscar e aproveitar os delírios criativos, porque hoje parece que subitamente a caneta começou a ter um caso # acaso, com as palavras através do papel, nessas entrelinhas onde, o que escrevo, ainda que de forma sentida não faz sequer sentido. E não, não faz realmente... é simplesmente o fluxo do pensamento a expressar-se numa orgia de ideias sem nexo que terminam nesses buracos de meias concubinas.
Talvez as meias e os seus buracos, revelem afinal que, os meus pés tenham estado no sitio errado na hora certa. Perhaps.
Os dedos não encaixam nessa peça de vestuário mas servem perfeitamente nos seus buracos... talvez por isso me gelem tanto os pés.

Memorizando



Sempre me perguntei porque temos memória curta sobre umas coisas e longa sobre outras, mas por mais que saiba a resposta, a sensatez impele-me a não revelá-lo. A verdade é que, e agora esmiuçando entendidos na matéria, aqueles que muitas horas dedicaram ao assunto, dizem que temos mais tendência a fixar os períodos frios que os quentes, meteorológicos e neurológicos, "logicamente" falando. E é verdade! Se colocarmos num dos pratos da balança da memória uma catástrofe e no outro uma boa noticia, aquela que vamos recordar mais rapidamente é a da desgraça e isto acontece porque lembrar o que está mal, torna-nos mais atentos, dá-nos mais defesas, é uma forma de nos protegermos. Não sou eu que o digo, é a ciência.
Agora, com ou sem qualquer lógica, com ou sem ciência confesso que… há dias em que me apetecia mesmo ter memória curta, só para dedicar mais tempo à lembrança longa e prolongada de dias quentes... hoje é um desses dias.

domingo, 3 de dezembro de 2017

O que fizemos nós do Natal


O que fizemos nós do Natal? 
Centros comerciais repletos de gente, sacos para aqui, sacos para ali. Um espaço onde se apela massivamente ao consumo e onde as prateleiras estão cheias de ricas prendas e prendas ricas, para ricas pessoas.
Eu também sou enganada pelo Natal, mas quando abro o coração, descubro, para além dos encontros de quem me desencontrei o resto do ano, que esta quadra traz-me quase sempre um presente enlaçado de nostalgia e de saudade, de quem me lembro eternamente.
Foi no dia 26 de dezembro que a vi pela última vez, eu vestida com um fato que parecia um astronauta e ela ali... com aquele ar de sempre e uma pronuncia beirã, nessa capacidade de dizer uma centena de chalaças e de palavrões, numa frase curta e sem parecer muito mal. Esse foi o nosso último momento, mas foi apenas um, o pior do melhor, de uma vida recheada de tantas coisas nossas. Recordo muitas vezes do frio e do calor, da intensidade dessa fogueira, onde a frigideira mascarrada, rendida ao lume em cima de um tripé banhava a massa, amassada horas antes com os cotovelos, até encharcar a roupa interior, para depois cair num óleo escaldante e numa dança harmoniosa transformar-se em filhoses. Lembras-te do que partilhávamos nesses momentos? Eu jamais esqueço...
..as recordações por vezes magoam, mas também servem para nos guiar para o que realmente é importante e o que realmente importa não está nessa caixinha brilhante e cheia de lacinhos que provavelmente irão receber no Natal... está sim na vontade de nos dar.
O que vamos fazer no Natal?

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Hipérbole

Vais para onde vais, nem sempre é para onde queres ir realmente.
Nas pequenas coisas que vou fazendo por aí, comunicar é o verbo que mais utilizo, mas comunicar, na linguagem da Catirolas, nem sempre significa aquilo que realmente quer dizer no dicionário da língua portuguesa.
Escutar, sentir... correr, respirar, aguardando que os sentimentos reencontrem os seus passos, olhar e ler as pessoas em toda a sua essência, sem que isso seja defendido numa simples contemplação, é apenas uma parte, que a caneta não traduz e o caderninho, cheio de rabiscos, não memoriza, ver para além de..., nem sempre é fácil e as pressões aparecem de todos os cantos.
A empatia, a amizade, a compreensão, o estar lá, mesmo a fazer o que é suposto, mas ainda assim ser diferente indo mais além, realmente.
Nem sempre é preciso muito, para se ter muito, tantos me ensinam isso, porque dos nadas também se fazem bolinhos de iogurte e os bolinhos de iogurte sabem a carinho.





quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Turismo dos lugares queimados

Esta semana e por motivos profissionais tive que visitar alguns lugares da zona Oeste atingidos pelos incêndios. Encostas viradas para o mar, vales, estradas de floresta. Lugares onde tantas vezes passei de bicicleta, ou de carro, onde enchi os pulmões de ar fresco, onde fiz caminhadas, onde me deitei no chão a contemplar, onde fiz praia, onde "bebi"saberes de património histórico e natural tantas vezes despercebido. Uma paisagem que está agora quase na sua totalidade a preto e branco. Não, não é bonito, é muito doloroso de ver.
 Nesse dia em que fui a esses locais, apercebi-me de um curropio. Gente, provavelmente, sem nada que fazer. Uma multidão atípica, andavam devagar, paravam, fotografavam, alguns mesmo tiravam selfies, aqui e ali. Um transito que adivinha um fim de semana de muita afluência.
Mas afinal o que fazem ali aquelas pessoas? Porque vão a um lugar de onde só me apetece fugir... por tanto me fazer doer o coração e a alma?
Não sei se vêm de longe ou de perto, parece-me que vêm ver as ondas gigantes... não as que brotam do canhão da Nazaré e da praia do norte, mas as ondas de cinza... São turistas, ou visitantes dos lugares queimados. Talvez se junte a essa multidão a barraquinha que vende farturas, ou pipocas e com alguma música à mistura se faça uma feira. 
Irónica?! Injusta?! Cruel?!
Posso até estar a ser tudo isso, mas é o estado do meu coração e ele repele-me para não ver.

domingo, 8 de outubro de 2017

Dia de subir e descer às árvores


Assim como quem corre depressa, já estamos quase, quase.... quase no dia internacional de descer e subir às árvores, nesse tempo em que o verão chegou ao outono, onde os tremoços são substituídos pelas castanhas, que oferecem agora a sua companhia às cervejas, para agradar ao tempo que faz. Um tempo onde nem sempre somos o que parecemos e muito menos parecemos o que somos, porque parece, que ser o que os outros querem, é mais importante que ser realmente.
Confuso?!
Talvez, mas quem sabe se vivermos um pouco na incógnita, na ignorância do nosso ser, à margem dessa beleza cobiçada, que em nada tem de real, muito menos as rugas de expressão causadas por sorrisos amarelos em rostos artificiais, talvez se possa ser mais feliz... e finalmente perdoar a esse tempo, onde o tempo não perdoa... e não há nada para perdoar apenas viver.
"Ao perto ninguém é normal", Caetano Veloso "e ao longe a normalidade é uma anormalidade óptica (não confundir com óptima, mas também pode ser)" Catirolas

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Procrastinação

A palavra parece difícil de dizer, de pronunciar, mas muito fácil de entender.
Por estes dias a colocar a leitura em dia descobri que ultimamente ando com sintomas de procrastinação. Adiar para depois, fazer mais tarde, são os significados mais simples para descrever esta doença. As razões? Essas podem ser muitas e variadas: perfeccionismo, achar que nunca está bem feito e por isso partilhá-lo é sempre um desafio; não saber muitas vezes como e por onde começar, por falta de motivação momentânea, enfim... os motivos são sempre muitos e fortes, mas a consciência da inconsciência, a quem os maduros chamam a P........da vida ensina que, esse hipocondrismo de procrastinação acaba, no momento em que se percebe, que o tempo que se perdeu a pensar nisso, não volta mais.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Controlo


Hoje conheci uma pessoa extraordinária e ontem também. Todos os dias conheço alguém que o é. Um golpe de sorte? Um boletim premiado no coração? Talvez uns olhos maiores que a barriga...e a barriga parece pesar sempre um pouco mais e a tragédia do saber tem apenas três tempos: o não saber, o querer saber e o aprender a saber. 
O tempo está a mudar, mas no guarda, que guarda a roupa, no guarda roupa, os trapos parecem permanecer aguardando que os escolham sem reservas do tempo. E vontade? Se aguardarmos as melhores condições para viver fora do imprevisto, podemos chorar. Há sentimentos e adversidades no nosso ser que jamais conseguiremos controlar, a pressão exterior é como um ciclone: é imprevisível, implacável e foge continuamente ao nosso controle. O mais certo é que ter que interiorizar em 360 graus, tudo ao mesmo tempo e viver tudo, de uma vez só, esperando conseguir encontrar o amor e a sabedoria que nos faz viver apenas, um dia e um só dia, de cada vez.

Rir a fundo perdido


Hoje apetecia-me rir a fundo perdido, sem pagar impostos camuflados de rugas de expressão. Apetecia-me ser um pão que se derrete à medida que vida se manteiga e o sol aproveita para escaldar o coração, sem o incendiar com os seus raios de inveja e indiferença. E à medida que o outono chega, chegar com esses braços de amizade, que podem vir embrulhados em forma de riso, só para me roubar um sorriso a fundo perdido. Um achado difícil de achar.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Luxúria


Nesse misto de emoções incontroláveis, corremos algures por aí, esgalhando o asfalto da vida, de tal forma que os meses parecem dias e os dias... bem os dias, não se parecem com nada do que queríamos que se parecessem... talvez se por um segundo se fizesse, se se visse, luz...ou amor, o tempo parasse por ali e por ali ficasse, sem passar. 
E queremos? Queremos sequer ousar querer? Não creio.
... enquanto desejamos voltar ao sitio onde já fomos felizes, outros só querem um sitio para ser felizes. 



Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...