terça-feira, 10 de maio de 2016

Linhas paralelas

Nesse ponto feito de lugares, onde há solidão na multidão e multidão na solidão (que não significa o mesmo), há linhas que se cruzam e se descruzam e há as outras, as que andam paralelas, um dia, uma noite, uma vida inteira, que num acaso de emoções até se encontram, mas que em nenhum momento se tocam, se respiram, se amam.
Nesse ponto feito de lugares, onde há uma multidão só e uma só multidão, (que não significa o mesmo), descobre-se que a vida é uma caixinha de pandora, onde pelo menos um dia, numa noite, numa vida, dividida em partes, nem sempre iguais, a casualidade, ou numa versão mais romântica, o destino, nos solta num olhar, num abraço, num adeus, numa lágrima, num sorriso... ou em tudo isso dividido num nada simultâneo... como duas linhas paralelas que apesar de seguirem lado a lado nunca se encontram.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Despudorado

São oito da manhã na cidade, o que equivale a nove na santa terrinha.  
Os passos ritmados confundem-se com a pressa de chegar a qualquer lugar, ao trabalho, à escola, à vida...Indiferentes a esses tempos muito fora do tempo, há ruas, e estórias para contar. Muitas. Nesse lugar onde ainda moram as lojas e as gentes de antigamente, apeados num tempo que não volta, mas que também não anda para a frente 
A mercearia da esquina, onde se vende a fiado, a barbearia do António, onde o corte de cabelo ou o aparar da barba, custa mais ou menos uma bejeca e umas iscas, ali ao lado na tasca do Albino, onde a Margarida dos cabelos em cachos e as coxas formosas já tem os copos alinhados e a frigideira a fumegar. Lá dentro, ao mesmo tempo em que se sente o cheiro a bifanas, temperadas em vinha de alhos, aquela bela rapariga, onde a idade é uma incógnita, serve copos de café frio, ginjinhas, mata bichos e muitos sorrisos que cativam quem por ali passa.... 

De cinco em cinco minutos Margarida corre para a porta à espera de ver passar o seu amor...mas até agora só viu passar os autocarros. Na sua cabeça mora a emoção da noite anterior, onde um rapaz se fez a si e puxou-a de encontro ao seu corpo... A sua face ruboriza-se com a lembrança. Nos seus lábios mora o desejo daquele beijo, lânguido, atrevido, longo e molhado, que lhe roubou a noite e que lhe devolveu o dia...despudorado.

O artista das emoções

Longe de ser uma longa-metragem, no mínimo poderia ser média, em que o trabalho se mostra numa mostra que é de uma tal coerência, que não se esgota num egoísmo totalitário. O que é particularmente notável é o palco, onde a exibição do artista se cruza e se descruza com olhares mais ou menos críticos, efusivos e enganadores, da expansão e fusão dessa arte, numa espécie de sátira moderna entre quem passa e observa e quem passa e despreza, num acaso desmedido, mas não necessariamente inopinado. Depois há ainda a questão pertinente da duração. Ficar ou não ficar, numa espécie de obstinação, medrosa e ansiosa, mas simultaneamente acorrentada a essa vontade, acalentada por um minimalismo minucioso, que tem por objectivo, sem qualquer subtileza, chegar a algo tangível, como a de alimentar necessidades básicas. E é nesse paradoxo, aguçado pela curiosidade, que se percebe que aquela média metragem, naquela espécie de artesanato emocional, é não mais que toda a vida de um homem errante nessa espécie de limbo, agarrado a uma primeira obra de um ponto de chegada completamente perdido entre um amar ou esquecer.