quinta-feira, 18 de maio de 2017

Essa gente que encontro por aí


Há dias em que os apertos de mão sabem a rododendros e as emoções se misturam com: "essa não é a minha tarefa" ou um "não tomo conta de ti".
Nesse mundo de tantos desafectos, desapegos e intolerância, estamos mais preocupados com os vírus que invadem os nossos mundos informáticos, que os que invadem a nossa vida real.
Não conheço nenhuma vida, e já tenho conhecido algumas, que viva sem a amizade, o amor, ou carinho de alguém, um só que seja. E há tantas vidas assim. Histórias de abandono, de malvadez, de não vidas e de mundos cintilantes, daqueles que parecem feitos de estrelas, mas que desaparecem no céu, mal nasce o sol e o sol nasce todos os dias.
Qual é a dúvida?
Se alguém contigo fala, é porque tem algo para dizer... sentimentos perdidos nesse mundo, onde saber escutar, pedir desculpa, ou preocupar-se realmente com alguém, honesta e sinceramente, parece ser cada vez mais uma quimera... e ainda jogamos no euromilhões, ou na raspadinha, quando o verdadeiro tesouro está no cruzar de um olhar, de um sorriso, ou apenas na capacidade de se dizer bom dia e obrigado... É tão simples não é?




quarta-feira, 17 de maio de 2017

A declaração do dia


Bruno Carvalho, presidente do Sporting Clube de Portugal veio ao facebook dizer que: "não vem mais ao facebook". Uma declaração que lhe valeu mais seguidores e gostos, que toda a época de jogos e resultados do sporting, convenhamos que isso também não foi muito difícil.
Apesar de o episódio ser muito engraçado, desenganem-se aqueles que pensam que isto não é um assunto sério.
Nas eleições presidenciais americanas, Donald Trump, utilizou de forma eficaz o FB, o Twitter e o Instragam com publicações diárias, mantendo e reforçando a força dos seus discursos e a ligação a todos os que o seguiam, e agora que foi eleito como presidente continua a fazê-lo. Claro com a ajuda de uma grande máquina de comunicação, uma equipa de profissionais que capta imagens e escreve o que convém, apesar de Donald ser também um "tubarão" do assunto, nada comparado com o que se vive em Portugal, onde muitas figuras publicas, mantêm perfis, muitas vezes pessoais, com "amigos" em vez de fãs ou seguidores, caminhando nesse terreno pantanoso e incontrolável, onde as emoções tornam-se difíceis de gerir.
No mundo virtual é muito complicado discernir quando a fronteira do pessoal, passa para a praça publica, que é no imediato.
No meio de toda esta reflexão a pergunta que importa...
Quanto tempo será que Bruno Carvalho vai demorar até regressar ao único campo em que teve mais gostos?








...e seja o que a noite quiser


À porta da taberna, nessa aldeia onde o betão parece adormecido e a tarde já vai alta, não se vai à missa, não se canta o fado, nem se veste a camisa do capitalismo, mas bebe-se um copo de vinho, ou dois, ou quantos se conseguir, enquanto se mordisca umas iscas com elas, mas sem elas e se comenta o jogo da bola.
Por detrás do balcão está um homem, com idade para não ser pai, nem filho da mãe, mas que o é, literalmente, por tanto mal ter feito a tanta gente. 
A realidade parece ser demasiado violenta, mas é o que é. Aqui não há cenários burlescos, nem vidas cosmopolitas e as cadeiras não estão forradas de cetim vermelho perfumado, mas a esse forte odor a masculinidades, que a ténue luz não deixa escapar. 
O tempo vai passando, enquanto a maior parte da acção se desenrola num dançar de copos: ora cheios, ora vazios e entra nesses corpos: ora soltos, ora apertados de almas: ora vestidas, ora despidas de preconceitos e de dinheiro, a respirar o chão e a amparar candeeiros que não existem, tal não é o tamanho da bebedeira. 
Quando a embriaguez se transforma nessa personagem libertina que não consegue chegar a tempo à casa de banho, é hora de sair porta fora e enfrentar a noite... e seja o que a noite quiser. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

A fé dos carteiristas


É um assunto incontornável, Portugal prepara-se para receber o Papa Francisco e subitamente passamos de uma população maioritariamente católica, para outra esmagadoramente católica. Poderá ser apenas uma questão de semântica, mas a verdade é que se a fé de cada um, é inquestionável, questionável é no entanto o negócio que se vive à volta dos que acreditam, e eu acredito que Fátima vai encher-se de uma multidão movida pelo carisma do Papa Chico, pela força da fé e de toda esse mistério em torno de um amor gigante, difícil de explicar, muito complicado de desmontar, mas estrondosamente forte de sentir.
Fátima vai vestir-se de fé mas também de carteiristas: os carteiristas dos hotéis, dos restaurantes, dos pagadores de promessas, dos comerciantes de objectos de fé... e de tantos outros, vendidos como necessidades, que necessitamos necessariamente de saciar, enquanto saciamos essa outra vontade de amor, que o Santuário de Fátima encerra, porque seja fácil ou difícil de acreditar, já não é a ocasião que faz o ladrão, mas sim o espertalhão!

Imagem: Internet

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Redutores de velocidade para pedestres


Numa semana em que peregrinação ou caminhada, será provavelmente uma das palavras mais ditas, ou escutadas, se ainda não meteu os pés na estrada, o melhor é fazê-lo de forma consciente e já agora não em passo muito acelerado, não vá alguém lembrar-se de trazer mais um negócio da China para Portugal, é que esta semana e segundo o jornal inglês The Telegraph, foram colocados, numa zona bela e histórica do país, a cidade antiga de Taierzhuang, mais de 50 redutores de velocidade, não para automóveis, mas para pedestres. Sim. Para quem anda a pé. Uma espécie de lombas amarelo e preto baptizadas por "estrada da tábua de lavar", com o propósito, dizem as autoridades chinesas, de levar os turistas a passear de forma mais ordeira respeitando e apreciando o local, "abrandando-os".
Independentemente do efeito das lombas, uma coisa é certa, com tal ruído visual, aquele que é conhecido como um local de beleza do país, passa a ser agora e por tal aberração, seguramente um local a evitar.



Créditos: People's Daily China


domingo, 7 de maio de 2017

Mãe da vida / Vida de mãe

Era ela, tinha a certeza a mulher mais bela que alguma vez tinha visto. Olhos claros, pele enrugada, barriga flácida e umas pernas esguias que não escondiam a passagem da idade, apesar do bom estado de conservação. Retratos de um caminho percorrido, nem sempre brando no passeio da idade, como um carrossel que anda às voltas, às voltas, e que ao contrário do que se pensa, nem sempre acaba no mesmo lugar. A sua vida era aquela, correndo e parando ora num lado ora noutro, tendo apenas como porto de abrigo, o quartinho no número vinte e sete, do sexto andar, da Pensão do Martim Moniz, sem elevador e aquela cama que nunca fora apenas sua. Tanto tempo à sua procura e agora ali estava ela, seria possível?!
Meio receoso e com o rosto suado de tanta emoção dirigiu-se a ela, e, com a coragem que o momento requer, lá disse a palavra de três letras, MÃE!
Ela, espantada, olhou para ele inicialmente num silêncio abrupto, mas logo prontamente lhe disse que estava enganado, que nunca tinha tido filhos e que não era a mulher que procurava.
Afinal como poderia ser? Tanto sofrimento ultrapassado, e agora ali estava ele, fruto do único homem que amou na vida e que cedo a desgraçou, como se atreveria a querer estragar-lhe a vida.
Desanimado, pouco convencido mas rendido à sua repulsa, virou-lhe costas e continuou o seu caminho.
Era ela a mulher mais bela que alguma vez tinha visto, mas na dúvida… não podia ser, afinal, a única semelhança entre eles era a tonalidade de olhos, a rugosidade da pele, a barriga flácida, as pernas esguias e até o bar onde trabalhava todas as noites, vendendo o corpo a copos de prazer, não era muito diferente da esquina onde ela parava, por isso tinha a certeza que não era ela, mas na dúvida... como poderia não ser?



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Desligar

Brincar na rua, jogar à bola, andar de bicicleta, saltar à corda, esfolar os joelhos, cair na rede... da baliza.
As brincadeiras de ontem parecem muito mais perigosas que as de hoje? Mas não são.
Nestes tempos onde se passa a mensagem de que andar na rua é perigoso e violento. Onde se controla tudo e todos, como quem entra e sai de algum lugar, com uma hipervigilância que não se consegue isolar. Onde se deixou de sair de casa para "sair dentro de casa". Onde gerámos outro tipo de rua, paralela, mas mais perigosa e mais violenta. Um lugar onde e apesar de não se estar fisicamente, tudo se controla virtualmente: as coisas, as pessoas, as coisas pessoas e as pessoas coisas. Uma dimensão desmesurável e assustadora, que nos faz esquecer que o maior perigo se encontra dentro dessas quatro paredes que "blindámos".
O progresso tal como os avanços e acessos virtuais fazem parte da vida e não é fácil sair desse universo paralelo, deslumbrante e acessível a todos, mas há dias e há momentos em que se quiséssemos poderíamos simplesmente desligar, mas será que queremos?

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Fim da Linha


Ela há muito que sabe disso, perdida nessa experiência de apanhar um comboio que já não pára naquele lugar. Tem marido, filhos, amigos, vizinhos, cuscos... Num bairro onde há de tudo, até homens de gravata e pêlos no peito mal depilados, que acendem debruçados sobre a varanda, um cigarro, ou talvez um charro, a avaliar pelo "smell" que atravessa metade desses andares, naquele prédio sem elevador, que tão bem conhece, ou não fosse ter subido e descido esse lance de escadas, milhares de vezes, depois de contornar as esquinas e atravessar essa porta, em busca de um aconchego que nunca chegou. "Foi o acaso primeiro, o vicio veio depois".
A chegar aos sessenta, muito há para revelar, mas o silêncio, é ainda assim, as palavras que melhor sabe expressar e tanto se pode saber através daquilo que não se diz verbalmente! Em casa, a comida já não mora no frigorífico, tal como os filhos que partiram, o marido que fugiu com outra, ou os moveis que foram amputados numa vida feita de cacos. Tudo coisas, tudo descartáveis, mas ela não.
Sentada nesse apeadeiro num comboio que passará um dia para a levar até ao fim da linha, espera, espera e sorri. Primeiro num rasgo e tímido frisar de lábios, que finalmente se transforma em sonoras gargalhadas, antes mesmo de vomitar um palavrão. "Merda! No fim da linha já eu estou há muito tempo"