quarta-feira, 21 de abril de 2010

Linhagem

Era ela, tinha a certeza, mas na dúvida... era ela, a mulher mais bela que alguma vez tinha visto. Olhos claros, pele enrugada, barriga flácida e umas pernas esguias que não escondiam a passagem da idade, apesar do bom estado de conservação. Retratos de um caminho percorrido, nem sempre brando no passeio da idade, como um carrossel que anda às voltas, às voltas, e que ao contrário do que se pensa, nem sempre acaba no mesmo lugar. Assim era a vida de Karol, correndo de um lado para o outro, tendo apenas como porto de abrigo, o quartinho no número vinte e sete, do sexto andar, da Pensão do Martim Moniz, sem elevador.
Tanto tempo à sua procura e agora ali estava ela, seria possível?!
Meio receoso e com o rosto suado de tanta emoção dirigiu-se a ela, e, com a coragem que o momento requer, lá disse a palavra de três letras, MÃE!
Ela, espantada, olhou para ele inicialmente num silêncio abrupto, mas logo prontamente lhe disse que estava enganado, que nunca tinha tido filhos e que não era a mulher que procurava.
Afinal como poderia ser? Tanto sofrimento ultrapassado, e agora ali estava ele, fruto do único homem que amou na vida e que cedo a desgraçou, como se atreveria a querer estragar-lhe a vida.
Desanimado, pouco convencido mas rendido à sua repulsa, virou-lhe costas e continuou o seu caminho.

Era ela, tinha a certeza, a mulher mais bela que alguma vez tinha visto, mas na dúvida… não podia ser, afinal, a única semelhança entre eles era a tonalidade de olhos, a rugosidade da pele, a barriga flácida, as pernas esguias e até o bar onde trabalhava todas as noites, vendendo o corpo a copos de prazer, não era muito diferente da esquina onde ela parava, por isso tinha a certeza que não era ela, mas na dúvida... como poderia não ser?

Na minha sonolenta solidão de hoje.
Tão longe como a distância da estrela a quem pedi um desejo esta noite,
estou pensando em ti,
Se querer amar-te é assim tão errado,
então meu coração não me deixa fazer o que está correcto.
"Catarina Reis"

Imagem: Internet

6 comentários:

Lala disse...

Fantástico momento Caty! Quase que rasgado de uma memória ferida que sobrevive aos cortes do tempo.

Beijinho***

Tulipa disse...

Muito bonito Catarina! kiss

Catarina Reis disse...

Obrigada Lala e Tulipa. Às vezes a imaginação domina-me.
Bjs

Anónimo disse...

Mt bom.

Anónimo disse...

Escreves textos lindos minha amiga. Beijinho de saudades Sarita

Catarina Reis disse...

Obrigada Sarita querida.
Bjs Catarina

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