quarta-feira, 5 de abril de 2017

Futebo(to)lices

Hoje vou recuperar uma crónica que escrevei para um jornal nacional em 1999,  (assim depressa só se passaram 18 anos), o que é mais surpreendente é que depois de o reler, parece que foi escrito sobre os acontecimentos de hoje.

Futebo(to)lices

Os jogos de futebol de domingo à tarde lembram caracóis a pastar num prado viçoso sem grama.
Mundo difícil esse que se enfrenta, frágil como o discurso caótico de um homem vestido de negro, tentando justificar o injustificável perante uma multidão que já o condenou. Será que estamos todos corrompidos? Políticos, carpinteiros, crianças, cidadãos comuns, árbitros (por amor de Deus carpinteiros e crianças???), (...), ninguém parece realmente escapar. Tudo se compra, todos se vendem, e depois esquece-se o que se estava ali a fazer. E para quê?!
No fundo, a vida é como esse jogo de futebol, onde se quer tanto ganhar, seja a que preço for, que se esquece o verdadeiro sentido da disputa, metido nos balneários, ao lado da roupa suja, à espera que venha alguém tirá-lo de lá.
Decididamente a tradição já não é o que era. O futebol de hoje lembra muito mais que uma porção considerável de atletas a correr atrás de uma bola, com as pernas musculadas, algumas depiladas, bem visíveis a olho nu. Agora, o verdadeiro jogo é feito fora das quatro linhas, entre os dirigentes, (ir)responsáveis por esta modalidade e adeptos. De facto, luta-se não pela cor do clube, ou pelo amor à camisola, mas pela cor do dinheiro e pelo amor ao poder, muito mais frutuoso e emocionante.
No meio de toda esta salada mística, sem sabor definido, estão os árbitros, que são normalmente os culpados da polémica que assombra os estádios de futebol; amaldiçoados pela falta mal assinalada, pelo golo anulado, pela grande penalidade inexistente, pela agressão ignorada, enfim... por uma batelada de lances duvidosos. Erros que até poderão ter sido cometidos de forma inocente, mas que nem vale a pena fundamentar, porque os adeptos já estão em fúria, os dirigentes indignados, os jogadores apoquentados e os jornalistas contentíssimos, por terem noticias para mais umas quantas semanas.
Enquanto isso, os pobres homens de negro poderão ter as suas razões, poderão até excogitar provas fortes, mas ninguém quer saber. Para quê, não é noticia!? São o conflito e a polémica que dão vida e revigoram a alma. É disso que muitos gostam neste desporto-rei, sem rei nem roque, nesse reinado cada vez mais duvidoso, "porque afinal ser filho de um homem ilustre não é bem a mesma coisa que se ser ilustre"... Ou será que é?

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