Era verão. Os dias quentes, correndo pelos corredores
aqueciam-me o sangue e aceleravam-me a pulsação. A adrenalina enchia-me os
tentáculos nevrálgicos e toda a minha alma vibrava por entre as margens do
mundo. Depois, viajava pela praia cheia de gente, de corpos morenos,
desfrutando um sol que sorria. E as águas, fatídicas, beijavam sensualmente a
areia pelos lábios das ondas. Eloquentemente, via a lua adorando com profunda
devoção e amor a noite, que era sempre maior que o dia. Depois, vinha a música,
que rastejava dentro de mim pelas ruas compridas e alinhadas, desenhando
contornos de um corpo romântico, profundamente apaixonado pelos tecidos de
cores claras, bordados pelos jardins encantadores dos montes verdes, que se
perdiam no horizonte, sem os olhos conseguirem alcançar o seu fim.
Era verão e eu adormecia à sombra de pensamentos bons, dos
loureiros viçosos, deleitado pela melodia dos rouxinóis, escondidos nos maciços
de verdura. A seguir, embrenhava-me nos braços de cupido e deixava-me levar
pela sua magia, que explodia em relâmpagos plenos de força. Até que, um dia
senti a minha vista perpassada por uma aflição cheia de amarguras, montes afastando-se,
repudiando-me, perpetuando-me com uma nostalgia lancinante, sem cirurgia possível.
Foi então que me apercebi que o outono se aproximava rapidamente, que a luz e a
vida tinham dado lugar à sombra que me iluminou a alma. Senti que a tristeza me
queimava as mãos, que o deserto me inundava e secava as veias e, finalmente,
que a música, que me dava vida e alegria (rastejando dentro de mim pelas ruas
compridas e alinhadas, desenhando contornos de um corpo romântico e apaixonado), tinha deixado de tocar e que,
por isso, já não era verão.
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Foto: Catirolas |
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