A manhã acordara nebulosa e fria. No horizonte, o nevoeiro, ou o
fumo, que fumegava das chaminés e que por causa do frio não subia, deixava a
descoberto, as fragilidades do cume desse monte, nessa terra bonita demais para
não se falar nela.
Ás seis da manhã, a telefonia com o som muito alto, ia debitando
as noticias matutinas, intercaladas por algumas vozes bem conhecidas do fado
português. António levanta-se da sua cama de ferro, que herdou da sogra,
bem como o colchão de palha, veste as calças remendadas e a camisola quentinha,
calça os sapatos gastos e cheios de terra e sai para o quintal. Helena vai logo
a seguir, mas não sem antes levar o penico de esmalte e o despejar na
sarjeta.
Na cozinha, feita com barro vermelho, põe umas cavacas ao lume, a
cafeteira mascarrada em cima de um tripé e faz o café. A água que sai da
torneira, custa a sair, parece congelada nos canos. Congelada, está também a saudade que ficou num balde na rua.
António abre o curral das cabras e num assobio, as vai conduzindo
pelas sinuosidades do terreno, uma ribanceira que termina no rio.
Absorvendo as emoções daquele lugar, Maria levanta-se também. Ainda
de pijama vai ter com Helena, procura uma tigela, corta um pedaço de broa, que
Helena amassou na semana passada, mas que parece ter sido ontem, e mete dentro da
tigela, despejando por cima, o café acabado de fazer. Helena não consegue
estar calada, Maria não consegue parar de lhe perguntar coisas; larachas,
dizeres, lengalengas, histórias verdadeiras, outras menos verdadeiras, mas em
que ambas acreditam. Laços e cumplicidade. Não há pequeno almoço melhor.
António chega entretanto, Helena prepara-lhe o pequeno almoço e
serve-lho, António está sempre a ralhar, não diz uma palavra simpática, não tem
um gesto de carinho. António, é um homem bonito, de olhos azuis muito
expressivos. Não fosse a vida austera, o trabalho duro e as dificuldades de
vida, tudo teria sido diferente. Os filhos, menos de uma dúzia, mas mais de
meia dúzia, depressa largaram a escola, para ajudar a casa, mas agora também
eles já seguiram suas vidas, restando apenas as visitas nas férias, nos
feriados, nas épocas festivas. Isso não parece deixá-lo mais feliz.
Antes do almoço ainda há tanto para fazer: lenha para rachar, ovos
para tirar das galinhas, couves para plantar, feijão verde para mondar, porcos
e cabritos para alimentar.
Sentado no banco de madeira António acaba o pequeno almoço e lê,
sem saber ler ou escrever, as noticias do velho jornal. Maria mete-se com ele,
mas só consegue ouvir ralhetes, palavras duras e má disposição. Ainda de
pijama, Maria abraça António com todo o carinho que carrega no coração. Apesar da resistência e da rabugice, António esboça um sorriso e deixa-se ficar nesse
abraço... afinal tudo o que é preciso é não deixar de acreditar. Helena sorri
também com o episódio.
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Foto: Catirolas |
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