terça-feira, 27 de abril de 2010

Três segundos

Estou procurando pelos anjos na tentativa de encontrar alguma paz.

Sentada na ombreira da parede de pedra sinto o chão vibrar com o peso da responsabilidade de gente crescida com olhos de criança, porque assim sou eu.

A cada canto, um recanto. Em cada recanto, um canto amargurado de pessoas que sonham, mas que em vez de lutarem pelos sonhos, compram um seguro de vida para assustar a morte, tendo como prémio extra, um computador com ligação directa ao inferno.
Numa montra irracional, uma pilha de sandálias com etiquetas perdidas entre vários zeros, acena com provocação, a uma garota que procura um par de ténis para jogar à bola com o irmão, mas que a imaginação e a pobreza, a levam a jogar sempre descalça.
Mudanças inoportunas obrigam a fazer a corte ao cabelo ondulado, com gestos demasiado radicais para o tempo e para a época, mas que ainda assim a uma só voz gritam: “Cavalheiro procura donzela para relação séria”.
Do outro lado do mundo a mensagem é interceptada. “Vamos marcar um encontro”.
A dança começa com um passo pequeno, aumentando de intensidade conforme a música e a intimidade corporal. De um lado, um homem apessoado na casa dos 50. Do outro, uma criança, menina, mulher a atirar para os 16 anos, mas que ainda não saiu dos 12.
Socorro! Alguém grita! Qual é o cabo?
Onde se pode desligar a corrente do horror?
Não pode!
Tardiamente cedo, a percepção do que acontece, é sempre um segundo a menos, do minuto a mais que a hora gerou… e a criança imaginativa, que queria uns ténis para jogar com o irmão, compra uma dúzia de pares de sandálias de salto alto, com o dinheiro que o “Cavalheiro”gentilmente lhe deu, incluído no pacote do seguro de vida e do computador, com ligação ao inferno, para a sua mãe, que aceitou o negócio sem remorsos ou hesitação, assim que enfiou numa caixa preta com um laço cor-de-rosa, os sonhos, e esqueceu que um dia teve nas suas mãos a pureza de um vida… 3 segundos.

Imagem: Internet

2 comentários:

Tulipa disse...

Bela reflexão Catarina. Não devemos cuspir para o ar, mas atrevo-me a dizer que mais que a pobreza monetária, o pior é mesmo a pobreza de espírito que leva uma mãe a aceitar assim o destino de uma filha...mas, o assunto é tão complexo...e tu apresentaste-o tão bem…que não quero fazer qualquer juízo de valor. kiss

Catarina Reis disse...

Olá Tulipa é verdade que a pobreza de espírito é mesmo a pior das pobrezas e o mundo está cheia de pessoas asssim, mas felizmente também existe o contrário, o que me deixa bastante feliz.
Bjs Catarina

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