sábado, 25 de junho de 2016

Companhia

Nesse local onde habitam os peixes, no instante onde, de dia os barcos não se atropelam em hora de ponta, à espera de uma ponta que não seja esse fio preso ao anzol, e onde ao cair da noite as mulheres de saias rodadas, em ancas de linhas imperfeitas, perfeitas demais para serem capa de revista, estendem as mãos à espera de qualquer coisa impossível de confessar! Aqui neste lugar em que as pessoas se cruzam, em palavras mal calculadas e sentimentos desmedidos, onde não há perguntas, dúvidas ou registos, onde as auto estradas virtuais servem tudo e todos servem como servos, menos, muito menos que essa realidade onde se toca, se abraça, se sente, se aproveita todos os momentos para agarrar, literalmente, corpos transpirado de emoções, sem maquilhagens... porque a meio da tarde um copo de ginjas com elas numa das castiças taberna do Rossio, agora apinhadas de turistas... Demasiados??? Talvez. Sabe sempre melhor quando se tem companhia, algo, que por mais que insista, se deseje, se fantasie... os bites e os bytes não proporcionam.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Criançada

Dizem por aí que hoje é dia da criançada...Tantas vezes... muitas, demasiadas talvez... algumas das crianças de ontem, homens de hoje, transformaram a vida das crianças, o seu paraíso inocente, num mundo de pequenos adultos, onde a inocência e as brincadeiras, são cada vez mais um passatempo e não uma forma de vida, própria da idade. O que não nos podemos esquecer, mas que fazemos constantemente, é que tem que haver tempo, para não haver tempo de pensar no tempo, para que as nossas crianças não cresçam assim tão depressa e possam ser apenas.... crianças....

terça-feira, 10 de maio de 2016

Linhas paralelas

Nesse ponto feito de lugares, onde há solidão na multidão e multidão na solidão (que não significa o mesmo), há linhas que se cruzam e se descruzam e há as outras, as que andam paralelas, um dia, uma noite, uma vida inteira, que num acaso de emoções até se encontram, mas que em nenhum momento se tocam, se respiram, se amam.
Nesse ponto feito de lugares, onde há uma multidão só e uma só multidão, (que não significa o mesmo), descobre-se que a vida é uma caixinha de pandora, onde pelo menos um dia, numa noite, numa vida, dividida em partes, nem sempre iguais, a casualidade, ou numa versão mais romântica, o destino, nos solta num olhar, num abraço, num adeus, numa lágrima, num sorriso... ou em tudo isso dividido num nada simultâneo... como duas linhas paralelas que apesar de seguirem lado a lado nunca se encontram.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Despudorado

São oito da manhã na cidade, o que equivale a nove na santa terrinha.  
Os passos ritmados confundem-se com a pressa de chegar a qualquer lugar, ao trabalho, à escola, à vida...Indiferentes a esses tempos muito fora do tempo, há ruas, e estórias para contar. Muitas. Nesse lugar onde ainda moram as lojas e as gentes de antigamente, apeados num tempo que não volta, mas que também não anda para a frente 
A mercearia da esquina, onde se vende a fiado, a barbearia do António, onde o corte de cabelo ou o aparar da barba, custa mais ou menos uma bejeca e umas iscas, ali ao lado na tasca do Albino, onde a Margarida dos cabelos em cachos e as coxas formosas já tem os copos alinhados e a frigideira a fumegar. Lá dentro, ao mesmo tempo em que se sente o cheiro a bifanas, temperadas em vinha de alhos, aquela bela rapariga, onde a idade é uma incógnita, serve copos de café frio, ginjinhas, mata bichos e muitos sorrisos que cativam quem por ali passa.... 

De cinco em cinco minutos Margarida corre para a porta à espera de ver passar o seu amor...mas até agora só viu passar os autocarros. Na sua cabeça mora a emoção da noite anterior, onde um rapaz se fez a si e puxou-a de encontro ao seu corpo... A sua face ruboriza-se com a lembrança. Nos seus lábios mora o desejo daquele beijo, lânguido, atrevido, longo e molhado, que lhe roubou a noite e que lhe devolveu o dia...despudorado.

O artista das emoções

Longe de ser uma longa-metragem, no mínimo poderia ser média, em que o trabalho se mostra numa mostra que é de uma tal coerência, que não se esgota num egoísmo totalitário. O que é particularmente notável é o palco, onde a exibição do artista se cruza e se descruza com olhares mais ou menos críticos, efusivos e enganadores, da expansão e fusão dessa arte, numa espécie de sátira moderna entre quem passa e observa e quem passa e despreza, num acaso desmedido, mas não necessariamente inopinado. Depois há ainda a questão pertinente da duração. Ficar ou não ficar, numa espécie de obstinação, medrosa e ansiosa, mas simultaneamente acorrentada a essa vontade, acalentada por um minimalismo minucioso, que tem por objectivo, sem qualquer subtileza, chegar a algo tangível, como a de alimentar necessidades básicas. E é nesse paradoxo, aguçado pela curiosidade, que se percebe que aquela média metragem, naquela espécie de artesanato emocional, é não mais que toda a vida de um homem errante nessa espécie de limbo, agarrado a uma primeira obra de um ponto de chegada completamente perdido entre um amar ou esquecer.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade?

Será que nasci livre?! Sim, nascida nessa geração no após 25 de Abril.Livre da opressão de um regime onde era proibido falar, contestar e até respirar..., uma ideologia diferente da que existia no poder. Filha de gente que viveu na pele, no centro das operações, o dia da revolução e que por isso sabe um pouco mais, porque um pouco mais me foi transmitido, mais do que o que vem nos livros de história. Não faço ideia do que é viver dessa maneira, mas sei que não poderia estar a escrever o que escrevo, praticamente todos os dias, sem ir parar à prisão do Tarrafal.
Será que somos realmente livres? É a questão que se coloca. Não sei. Apesar do que temos hoje, creio que usamos mal a palavra. Se reflectirmos na sua essência, ninguém é completamente livre. Afinal quem o é? A liberdade de hoje, aquela que vivemos todos os dias, não é mais do que uma "ideia" de uma falsa liberdade, onde cada escolha é condicionada por uma série de regras e de princípios, que são, muito disfarçadamente, de uma forma mais ou menos consciente, "nos oferecidos", pela sociedade, pelo poder politico, pelo poder económico,... onde na realidade, cada vez mais, somos menos livres.

sábado, 23 de abril de 2016

O problema dos "se"

Se me emociono com facilidade.... será que isso faz de mim chorona?
Se me apaixono pelas pessoas.... será que isso faz de mim tolinha?
Se não sei ler e me engano a escrever... será que isso faz de mim analfabeta?
Se olho com sinceridade, mesmo que para aqueles que não o merecem.... será que isso faz de mim cega?
Se roubo um coração e se vejo e sinto em mim, que o amor pode ter vários rostos e significados... será que isso faz de mim gatuna ou trapaceira?
Se.... tanta coisa... É tão fácil julgar, apontar os dedos, as mãos, os pés, os braços,..., todas as partes do corpo, mais ou menos sensuais, muito mais simples do que jogar a roleta russa da vida, que por mais que se planeie, nunca se sabe realmente o que vai acontecer. Chorões, tolinhos, analfabetos,... pouco importa. Cada momento é vivido, a cada momento e tudo o resto são apenas baladas que um dia alguém escreveu para embalar o coração, porque todos, um dia, mesmo que por um breve segundo, têm um.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A adivinha

"Com um beijo só, cobres o rosto do mundo, onde espreitam os tímidos e se escondem os corajosos, porque o amor é como um rasgo de sol num cenário cadavérico, nunca se sabe quando vai (re)aparecer."

A noite é gelada. A lua é arrepiante. A imagem impressiona. Eu fujo, eu escondo-me, eu sento-me atrás de ti sem sequer me veres. Não há pinheiros, não há rochas, há pinhões e pedras. Camisas desfraldadas em calças sem bolsos, e bolsos sem mãos e mãos sem dedos...
"Que perfeição!" Que enlevo de monte. Adora e pasma o mundo, que não o vê, porque na realidade não está lá (o mundo, não o monte), não há nada. Nem luz, nem cores, nem lembranças...Mas eu, essa mão que abre os olhos, esse alguém que abre os braços aos dias do meu leito, quando os dias não aparecem, estou cá. Alma frouxa de prantos mortuários, vítima de um sonho inanimado pronto a ganhar vida, para esculpir as faces com cuspo, num gesto compulsivo, e agarrar as águas que me escapam por entre os dedos à medida que vão nascendo nos meus olhos. O que tenho? O que penso? O que desejo?
São quimeras de sentimentos, nascendo numa terra dura sem sequer lá terem sido semeadas e não é preciso ser-se um génio para divinhar.

 07/03/1998, CR (CM)

sábado, 16 de abril de 2016

Esquecimento

Vejo por esse mundo tantas pessoas esquecidas. Esquecidas na vida, no trabalho, no amor, na vida que levam...esquecidas dos outros e delas próprias...
Seja por vontade própria ou por distracção cerebral (e excluindo as doenças associadas à perda de memória); esquecemo-nos de tanta coisa boa na nossa vida, de tantas pessoas que nos querem e nos fazem bem, que por vezes se confunde, este estado com ingratidão ou egoísmo.  

A vida é feita de momentos e esquecer por esquecer não é problemático, desde que o esquecimento não se torne no nosso modo de vida e o lembrar apenas esse breve momento... Eu prefiro guardar os meus, vivendo-os e sentindo-os, através dos poros da minha pele morena, (agora não tanto dado a falta de sol) mordida pelas dentadas do carinho e da dedicação, de todos os que se cruzam no meu caminho e que me oferecem muito mais do que essa melodia, nascida de uma composição, que vem e vai direitinha ao coração. Inesquecível!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Divagações de dias de chuva

Um dia, naqueles dias em que as palavras não são precisas e onde não são precisas as palavras...nos nano segundos em que as notas musicais, trabalhadas por quem sabe dessa arte, desperta um sorriso no olhar, é quanto basta para o bastante... para a vida ser vivida e interpretada de outra forma. Um poeta da música, das letras, do desenho,..., de todas as artes e que as usa, não com a mania de vedeta, mas com a vontade e o sentimento de quem faz amor por amor e com o coração...Nesse dia... há todo um sentimento por despertar e para (a)brigar, naquele recanto do coração, onde se guarda as meias para dormir e as meias para acordar, porque algum dia temos que o fazer e porque a vida não está para dorminhocos!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amor incondicional


Amor incondicional
Há "peixe novo na travessa". Os vizinhos são novos, amorosos, afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Mas os seus donos não.
Acordam cedo mas deitam-se tarde e entre este espaço de tempo estão sempre em alerta e fazem exatamente aquilo que se espera deles. Mas os seus donos não.
Ficam quietos à espera de mimos e de limpeza, ocupam um pequeno espaço, em casa ou no quintal e um grande espaço no coração daqueles que os amam e os acolhem. Doces seres que não empurram os seus dejectos à mangueirada pela calçada fora a meio da noite. Mas os seus donos sim.
Que dão amor e amizade eterna, incondicionalmente, aconteça o que acontecer. Mas os seus donos não.
O tempo passa e os vizinhos cresceram, estão maiores, gigantes e subitamente, na cabeça de outros seres menos capazes de pensar, deixaram de ser afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Desapareceram, muito provavelmente despejados à borda de uma estrada, de um beco, de um mundo que não era o seu e longe daquele que conheceram desde que nasceram. Mas os seus donos não. Ali permanecem impávidos e serenos de consciência tranquila, de quem está habituado a ter a barriga cheia e a alma vazia.

Publicação em destaque

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, ...