quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Considerações: Ano Novo! Ano Velho!



O ano novo caminha a passos largos. Daqui sensivelmente a três dias, quatro para alguns, dois para outros, depende do lugar onde se está física e espiritualmente, lá estaremos em 2017. Em jeito de balanço, 2016 foi um bom ano?

Tendo em conta o tempo que se teve, ou que não teve para realizar a vida, (parvoíce, pois temos exactamente o mesmo, essa sensação de ter ou não ter depende apenas do que escolhemos fazer). 
Querer, projectar e agir de acordo, são as esperanças, que ano após ano, depositamos no novo ano, normalmente apenas lembradas a poucos dias desse fim que antecede o inicio.
O meu ano, que ainda não acabou, foi um ano de construção, mas creio que tem sido assim sempre. Mudar, construir, começar. Nada fácil, uma luta constante entre o que desejo, com o que posso, ou realmente consigo. 
Tantas vezes me apetece desistir! Principalmente quando olho para a frente e o caminho apresenta-se sempre cheio de buracos... e nem sempre a vontade de os tapar é constante e consistente.
Se gostava que o virar de mais uma página do calendário, não fosse uma superstição, que houvesse realmente magia? Claro que Sim!
Mas tal como esse ambiente festivo onde se carrega o realizar de todas as promessas, onde se renova a vontade, eu sei que o segredo para a receita dessa magia, é sobretudo viver e agir de acordo com o acreditamos, uns dias melhor, outros pior, nessa vontade que vive em nós, independentemente do dia ou da época do ano. 
Conseguir?! Nunca se sabe onde e como fica o amanhã.
Tentar? Sim. Todos os dias. 





quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O que fizemos nós ao Natal?

O que fizemos nós ao Natal?
A poucos dias da noite da consoada, dessa reunião com os amigos e familiares mais queridos, que todos os anos nos garantem a renovação da gaveta onde mora a roupa interior:, cuecas, meias e pijamas. (Que até adoro receber, apesar da ironia).
Em contagem decrescente também o mundo parece cada vez entrar numa ordem decrescente ou decadente... cada vez mais.
Um camião que atropela pessoas, um lunático que dispara por entre a multidão, um suicida que se faz explodir... Enfim, a lista é extensa, complexa e não vale o protagonismo, mas ainda assim e no meio de tanta barbaridade, custa-me admitir e reconhecer que o mais doloroso, o que me assombra o coração por estes dias e noites, é sentir!
O que mais me magoa, não é esses danos físicos e sim o que vai diretamente a tudo aquilo com o qual não concordamos, que vivenciamos e que nada podemos fazer. O que parece difícil de apagar, ou de esquecer, são as atitudes, as ações e as vontades. O fazer o mal olhando a quem... E a poucos dias do Natal é essa imagem que fica no meu coração e que me tem feito chorar bastante, todos os dias! Muito difícil de esquecer!
Sejam bons para os outros que serão, seguramente, muito melhor para vocês!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Nuverinhando

Pela beira da estrada, nessa terra que parece inteira, mas que é repartida entre dois concelhos, outrora ligados por uma memória burlesca, uma velha arrumada ao seu bordão de ouro passa devagarinho. O arrastar dos passos não faz, ao contrário do que se poderia pensar, (a)divinhar a sua idade, nem o bordão de ouro que vai nuverinhando a sua passagem, a condição de mulher. Pobre? ou rica?
Ricos são aqueles que partiram e me deixaram aqui? Vai murmurando por entre um ladear de palavras pouco meladas. "Os ricos", no tremor da sua voz, são os parentes que vieram buscar tudo o que de valor a "velha" tinha... há muitos anos. Tantos que já se esqueceu do tempo e dos tempos das coisas. Não há dias contados, não existe Páscoa e muito menos Natal. A vida (des)enrola-se como se estivesse presa a uma bebedeira de dor eterna, onde o sossego, o silêncio da tarde quase noite e o vento que não pára por ali hoje torna mais real a sua solidão... e o vento não passa por ali há tanto tempo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Encontros de Natal


Assim como quem espera pelas renas e pelos presentes no sapatinho, algures entre o 35 e o 36, estamos quase no fim do ano, mas antes de lá chegarmos há o Natal... 
...o que mais gosto nesta quadra,  é poder provar a quiche da Sofia, a tarte de pastel de nata e farófias de forno com leite creme da Carla, o bacalhau com natas da Sandra, o vinho da Mafalda, o frango especial da Sarita, o pão caseiro da Mena e tantas outras iguarias, de tantos amigos que me enchem o estômago de amor e me fazem subir o termómetro do açúcar, já bem adocicado pelos abraços e miminhos desta amizade, que não tem descrição... 
...o que mais amo no Natal são os encontros, com quem infelizmente ao longo do ano não me é possível estar com a frequência que desejaria e de me sentir tão amada, tão divertida... de me sentir tão especial e isso acontece sempre que estamos juntos e não apenas porque é Natal.



Kikinha em modo de festa de Natal










quinta-feira, 17 de novembro de 2016

American Dream


“Todos os homens são criados iguais" com direito a "vida, liberdade, propriedade e a busca pela felicidade”. O American Dream vive assim enraizado na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, o mesmo sonho que muitos dizem agora desfeito, após a eleição de Donald Trump, como presidente de uma das nações mais poderosas do mundo. Mas a maior surpresa, ao contrário do que se poderia pensar, não foi do bilionário ter sido eleito presidente dos EUA, contra a mais que provável vitória de Hillary Clinton, mas sim esse resultado ter vencido comentadores, celebridades, opinion makers, media internacional e nacional e todo o tipo de sondagens. Eu também achava que ele ia perder, sem saber muito bem, pelo menos aprofundadamente se isso era positivo ou não, e sinceramente continuo sem saber.

A América de hoje pode não ser, seguramente, a de ontem, mas a verdade é que, a de ontem mostrou que existe democracia e que funciona e é essa realidade que convém guardar para (o)amanhã. 
Imagem: Internet

Sonhos...

Onde os caminhos de cabras acabam e as auto-estradas começam, onde o ar me arranca os botões da camisa e o silêncio, a paz, me lava as obscenidades da alma, existe um mundo diferente daquele em que estamos acostumados a viver - estupidamente mágico e belo - Sonho todos os dias acordado com esse lugar, com medo dos meus sonhos se desvanecerem enquanto durmo. Não é um sonho azul, nem verde, nem cor de rosa, não é um sonho com as claridades do verão planando lagos sobre o barulho das gaivotas, ou a calmaria de uma cama levitando no espaço, com os lençóis manchados de café. São apenas momentos escorrendo em forma de estalagmites numa mina de ouro, diamantes feitos de uma luz muito cintilante. São a alegria e a amizade, o caminho dos miminhos no som das palavras que me embalam no berço da vida até adormecer. Agora o sonho desvaneceu-se. Foi-se por entre a nesga de uma nuvem que, no desabrochar de um relâmpago, parece marcar o momento da ruptura, e pelo passeio da solidão onde os buracos parecem cada vez maiores. Estou furioso, por isso desafogo o cabelo loiro entrelaçado e começo a ler ininterruptamente um pergaminho escrito em papel higiénico, só para me torturar. O grito eleva-se dentro de mim e a dor não tem sentido, mas as lâminas invisíveis acertam sempre no lugar onde escondi o coração e as lágrimas não param de me molhar a barba.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sentir

É tão bom vir à Internet. 
Aqui tudo é perfeito, as pessoas são lindas, extraordinárias, calorosas e os melhores em tudo.
Aqui não faltam amigos, palavras amigas, fotos perfeitas e relações sem grumos. 
Mão há maior solidão do que viver na ideia, de combater a solidão, com a companhia virtual, porque o mundo lá fora, até pode por vezes ser demasiado duro e difícil de enfrentar, mas é um mundo real, para os bons e maus momentos, onde um abraço é um abraço e não há nada que supere esse sentimento de sentir.


Pipinho e os seus famosos abraços


sábado, 29 de outubro de 2016

O dilema

Viver é um estranho dilema...
Quando pensamos, que temos tudo controlado, a saída com os amigos, o jantar da tia Mariana na casa da tia Manuela, as despesas, as brincadeiras do gato Pipo e até aqueles "tostões" que escondemos numa gaveta lá em casa, guardados religiosamente para uma "escapadinha" que andamos a planear ainda as férias de verão não tinham começado, lá vem um imprevisto no pacote, para nos "dar no pacote".
Quando temos todo o tempo do mundo para planear, pular, enfim... concretizar, o que normalmente não fazemos porque não temos tempo. Não fazemos nada.
Viver não é um estranho dilema. O dilema é o que colocamos como prioridades nessa vida, onde às vezes o inesperado, o incontrolável é bom, sabe bem e recomenda-se.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A aranha

Quantas vezes nos deixamos apanhar pela teia da vida, queixando-nos deste ou daquele aranhão, quando na realidade muito dos fios que envolvem a teia foram tecidos por nós.
Soltar-nos dessa teia é muito fácil, difícil é ter capacidade de olhar para além daquilo que se vê, e ver que a aranha, aquele ser arrepiante, pesadelo de muitas fobias é afinal nossa amiga.

Nota: Não sou grande fotógrafa mas há muito tempo que aguardava poder captar a artista desta obra.


Texto: Catirolas /Modelo: Aranha






terça-feira, 25 de outubro de 2016

Colo

No faroeste da vida, (todos os dias) # (diariamente), há quem se sente numa cadeira, parando em lugares comuns de pessoas vazias,  lutando por um lugar onde se sentar, sem nunca tirar o rabiosque da cadeira.  
E...
...do outro lado da sala, onde os beirais se enchem de várias camadas e tonalidades de medo. Aí! Sim, nessa solidão... há quem não se sente em lado nenhum e fique à espera, num silêncio doloroso, quase a roçar o eterno, de um lugar, nesse lugar, onde os sentimentos se misturam e sabem a tanto e onde esse tanto sabe a colo.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A genética da avó

Embora de coração eu já o sentisse, está cientificamente provado que a nossa avó materna é a responsável por nos transmitir a maior carga genética, de todos os nossos avós e que essa genética salta de geração, fazendo com que muitos de nós se pareçam com a nossa avó materna. 
Muito mais importante que os traços físicos que dela herdei, como os olhos amendoados, o que mais importa é tudo o que ela me transmitiu enquanto foi viva, entre uma, duas, ou mais canecas de café das borras, que tão bem fazia numa cafeteira ao lume em cima de um tripé, ou das filhoses que amassava com os cotovelos, nessas noites em que me contava as histórias dos nossos antepassados, que registei num caderno e que ainda hoje guardo comigo. 
Tenho tantas saudades da minha avó Helena! Lembro-me dela todos os dias, da sua boa disposição, da pronúncia beirã e da sua habilidade para dizer uma centena de "asneiras", literalmente, numa frase com poucas falas, sem parecer mal. Recordo-me da sua alegria e popularidade, uma simpatia genuína que para onde quer que fosse, não passava despercebida. Depois, sinto falta dos afetos, dos seus abraços, da sua presença que enchia a velha cozinha mascarrada pelo fumo, para além da Boneca, a cadela que guardava o quintal, ou a cabrinha Chica que ia com ela para todo o lado. 
Dizem que lembrar alguém a faz viver de novo. A minha querida avó materna, a Helena, mas também a minha avó paterna, a Maria, já não estão entre nós, mas estão no meu coração todos os dias e não há genética, nem ciência que o justifique, apenas um amor eterno que as faz viver em mim todos os dias.
Foto: Avó Maria e avó Helena

sábado, 15 de outubro de 2016

Aprender

Sentado na esplanada das pedrinhas desse rio que normalmente corre de cima para baixo, mas que por vezes também escoa de baixo para cima, bebendo uma caneca de inteligência emotiva, absorvo e observo: um som pouco audível, uma visão nada coerente e um sentir intenso. Como se fosse vítima de um quadro pintado na minha vida, por um acumular de experiências anteriores.
O desafio é sentar-me com essas memórias, que vão muito para além das pedrinhas do rio, que hoje parece vir de baixo para cima e construir: fazer uma casa de amigos, abraçar um gato, beijar um cão..., ver a vida, uma vez na vida como um dueto. Abraçar essa existência, mais ou menos aquecida por cobertores em dias de inverno, em que os cobertores podem ser alguém e o inverno personifica a saudade.

Para lá desse imaginário que por vezes me consome, há uma consistência, como essa noite que acabou de dia, mesmo depois de incluir um périplo pela introspecção, demasiado longo e penoso. Procurar essa realidade por vezes pode ser demasiado forte! E das palavras que a descrevem podem nascer de sementes demasiado confusas, ilógicas, meio perdidas, onde a única certeza é a visão única que cada um tem da sua vida. Saber que é essa a diferença que faz toda a diferença na hora de viver não é fácil, mas mais difícil é não querer aprender. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A culpa é do comando


Adoro os programas televisivos que ano após ano vão repetindo na televisão, especialmente aqueles em que os concorrentes masculinos, parecem que descendem de uma geração de apicultores, onde foram todos picados pelas abelhas, ou alimentados a sopas de "cavalo cansado" e as concorrentes femininas, sexualmente esfomeadas e histéricas, parecem que foram escolhidas a dedo.  A única coisa que parecem ter todos em comum, é o tamanho da massa cefálica e a estadia num lugar que parece mais um programa pornográfico de um canal aberto, ou o bar de alterne virtual. Qualidade? Da melhor, até porque o que se pretende está largamente conseguido: entretenimento pobre, mas com muita audiência; fórmula ideal para adormecidos e ignorantes, para os que adoram mexericos e histórias da desgraça alheia. 
Só lamento que as pessoas se deixem levar e entreter por programas de lixo, que a tantos convém e que não exista, uma autoridade reguladora decente, que faça realmente um trabalho de triagem sobre o que é transmitido na televisão, porque e apesar das pessoas poderem sempre mudar de canal, a verdade é que nem todos têm essa capacidade... e no fim todos sabemos que a culpa é do comando da televisão.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Outono

Incrível!! Ainda ontem o cair da noite banhava lentamente (a passo de caracol) os nenúfares que boiavam no charco verde de águas cálidas, perante o silencio penetrante que rastejava no ar, apenas momentaneamente interrompido pelo coaxar das rãs, que falavam como se fossem os cânticos do mundo. Essa vozes que ouvimos diariamente, na rua, no café, na livraria da esquina,... que na sua maioria falam do tempo: do tempo que faz, no tempo que vai fazer e no tempo que gostariam que fizesse, sem quase nunca estarem de acordo ... e como se tudo isso já não fosse estranhamente poético, nesse lugar onde os caminhos de cabra acabam e as auto estradas começam, num tempo que segue o seu tempo, naturalmente, há ordens, comandos e desordens de gente, de sentimentos e de lugares, que nem mesmo uma maquilhadora de palavras tem a capacidade de decifrar.
Talvez o melhor seja mesmo avançar o posto das cobranças difíceis às horas de sol e passar directamente para o jantar à luz dos candeeiros, porque, se é que ainda não repararam, há já um mês que o crepúsculo recuou e por mais que se goste dos dias longos e quentes, esperar o outono com gratidão, não tem nada de mal.

Foto: Catirolas

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Divagações escolares

No tempo das nossas avós, ir à escola era um privilégio que poucos podiam usufruir.
Nos tempos dos nossos pais, a ida à escola, era feita entre os intervalos das tarefas do campo e da casa, os professores eram considerados "uns seres superiores a respeitar" e a roupa e o calçado, que passava de irmão para irmão, era o único e maior bem a preservar.
No nosso tempo a escola também era diferente, não tínhamos que levar uma mochila com o dobro do nosso peso, não havia cacifos, nem telemóveis, nem consolas para jogos. Tínhamos as bolas, as fisgas e a imaginação para brincar e os intervalos eram passados com actividades físicas ao ar livre. Levávamos a roupa escolhida pelos nossos pais (com mais ou menos gosto), e as marcas era apenas uma coisa de "betinhos". Já nesse tempo existiam "tablets", mas feitas ou de chocolate, para comer, ou de ardósia, para escrever e o único perigo real, era perdemos as moedas que levávamos nos bolsos para comprar a senha para o almoço.
Nos dias de hoje não existe nada disso.... os professores são os que menos importam na "cadeia hierárquica escolar". Não existe aluno que não leve telemóvel, que não passe os intervalos e às vezes as aulas na caça aos pokemons, que não tenha portátil, "tablet", "ipad" e outras tecnologias, que não tenha conta bancária e cartão multibanco, onde é depositada a mesada e o gosto pelo estudo, pela leitura e investigação dos livros, perde-se muitas vezes na busca fácil que a Internet proporciona.
Mas no meio de tantas disparidades, a escola de hoje continua a ser como a escola de ontem, a nossa, a dos nossos pais e dos nosso avós (aqueles que tiveram a oportunidade de ir). Um lugar de primeiros/últimos encontros/desencontros que marcará para sempre uma vida.

Foto: internet

domingo, 18 de setembro de 2016

Os sons que nos ligam à terra

Os sons que nos ligam à terra podem ser tanta coisa…
um toque de uma campainha que encerra a porta da solidão…
um olhar a percorrer a distância entre essa amizade, que do pé para a mão, liga uma mão a um pé… 

… a sombra de um sorriso de uma tarde de muito sol. 
Para marcar esse caminho, onde a terra é a vida, não é preciso tanto, na verdade não é preciso nada, bastar ser igual a si próprio no passar de cada passagem e simplesmente passar. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A canoa

O tempo até parece filho de uma aparente calmaria, algures entre um outono, a espreitar pelo canto do sobrolho e um verão, que não nos quer deixar cedo demais. Mas este tempo tem gente e histórias que merecem ser levadas de cá para lá, e de lá para cá. Como a do senhor José, vamos chamá-lo assim, que aos oitenta e tantos anos ainda se preocupa em conseguir fazer feliz a sua companheira, em todos os sentidos. Nos detalhes dessa relação que o passar dos anos não apagou.
Tantas vezes vemos alguém preso a um amor, que não é amor. Uma pequena língua de água, cortada por uma incerteza, constantemente fustigada por marés de violência, que destrói, magoa e mata lentamente. Uma vida que tem numa penosa viagem de canoa, escavada com colheradas de coragem, a felicidade. O único acesso à outra margem, onde a terra é vermelha e onde a liberdade de uma solidão, mas uma liberdade, é a única coisa à espera do outro lado. "Tanto, mas ainda assim tão pouco, para quem tem a vontade mas lhe falta a coragem".
“O rio está cheio”, a “corrente é forte”, é preciso entrar na canoa, pegar nos remos e fazer força para lutar contra horas, dias, meses, anos de violência, de desprezo, de ausência de carinho e de falta de amor! É uma operação muito arriscada é preciso coragem, correndo o risco de ser arrastado pela corrente. Mudar não é fácil. Por vezes é preciso mesmo repetir a operação até se conseguir chegar lá… afinal a margem está logo ali a poucos metros de distância.

Foto: Internet

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A página das anedotas

Acordei no meio de um meio caminho, uma Diáspora em que no centro de uma encruzilhada de palavras, matematicamente produzidas, para darem lugar a uma cadeia de noticias, por pessoas que actuam convictas da sobriedade e nobreza dos seus actos, estava uma estranha vontade de começar de novo. Mas começar o quê? Se o caminho está demasiado longe e no seu espaço e tempo, tudo o que surge, é uma linguagem que mais parece uma introspecção de palavras compreendidas sem qualquer compreensão. Falsas promessas de quem merece uma nova oportunidade, desde que a complexidade do momento não ultrapasse a fasquia da vida.
Acordei no meio de um meio caminho. Sabem o que fiz depois de acordar? Procurei a página das anedotas.


sábado, 23 de julho de 2016

Frivolidades de Verão

Frivolidades de Verão


Verão é tempo de férias, um tempo que levamos o ano inteiro a apelidar de "tempo de qualidade". 
Tempo para ler aqueles livros esquecidos nas prateleiras, de visitar os amigos e os familiares (também esquecidos na prateleira, dessa vida em que o agora, é um sempre tarde demais, quando esse conceito na realidade apenas existe na nossa consciência que se auto designa de ocupadíssima. Que vergonha!!!) 
É tempo de, como se diz em português extremamente correcto e nada obtuso, de passar alguns dias de "papo para o ar", de preferência no fim do mundo, não literalmente, mas nesse mundo em que o principio e o fim cheira a maresia e as tardes a escaldantes # escaldões encontros. Mas se na maioria é isso que queremos, é também isso que  não fazemos. Vamos de férias mas continuamos conectados, ligados a fios invisíveis de cusquices banais, agarrados a esse mundo que passamos a vida a resmungar que queremos esquecer, mesmo ali, agora, no tal mundo que não tem fim que chegue para tanta gente, entre uma onda ou duas de mar, nesse local onde a probabilidade de encontrarmos alguém conhecido de tanga ... numa visão bastante aterradora. Alguém que acabou de tirar uma foto e de colocar no facebook, ao mesmo tempo que corre para o mar para tentar apanhar um pokémon e ele foge como um peixinho assustado. Mas porque será tão difícil quebrar a rede?



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Probabilidades

Qual a probabilidade de alguém que se mete à estrada, em cima de uma bicicleta, à procura de transpirar um pouco, ainda só com os pensamentos por companhia, levando com terra, areia e algum pó, não necessariamente do asfalto, e encontrar dois coelhinhos aos pulos, à mesma hora e no mesmo local? A mesma probabilidade de encontrar um casal também aos pulos, à mesma hora e sensivelmente no mesmo local a testar os bancos do carro??? Acho que era isso que estavam a fazer, não fiquei para ver, ia a pedar depressa demais!

sábado, 25 de junho de 2016

Companhia

Nesse local onde habitam os peixes, no instante onde, de dia os barcos não se atropelam em hora de ponta, à espera de uma ponta que não seja esse fio preso ao anzol, e onde ao cair da noite as mulheres de saias rodadas, em ancas de linhas imperfeitas, perfeitas demais para serem capa de revista, estendem as mãos à espera de qualquer coisa impossível de confessar! Aqui neste lugar em que as pessoas se cruzam, em palavras mal calculadas e sentimentos desmedidos, onde não há perguntas, dúvidas ou registos, onde as auto estradas virtuais servem tudo e todos servem como servos, menos, muito menos que essa realidade onde se toca, se abraça, se sente, se aproveita todos os momentos para agarrar, literalmente, corpos transpirado de emoções, sem maquilhagens... porque a meio da tarde um copo de ginjas com elas numa das castiças taberna do Rossio, agora apinhadas de turistas... Demasiados??? Talvez. Sabe sempre melhor quando se tem companhia, algo, que por mais que insista, se deseje, se fantasie... os bites e os bytes não proporcionam.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Criançada

Dizem por aí que hoje é dia da criançada...Tantas vezes... muitas, demasiadas talvez... algumas das crianças de ontem, homens de hoje, transformaram a vida das crianças, o seu paraíso inocente, num mundo de pequenos adultos, onde a inocência e as brincadeiras, são cada vez mais um passatempo e não uma forma de vida, própria da idade. O que não nos podemos esquecer, mas que fazemos constantemente, é que tem que haver tempo, para não haver tempo de pensar no tempo, para que as nossas crianças não cresçam assim tão depressa e possam ser apenas.... crianças....

terça-feira, 10 de maio de 2016

Linhas paralelas

Nesse ponto feito de lugares, onde há solidão na multidão e multidão na solidão (que não significa o mesmo), há linhas que se cruzam e se descruzam e há as outras, as que andam paralelas, um dia, uma noite, uma vida inteira, que num acaso de emoções até se encontram, mas que em nenhum momento se tocam, se respiram, se amam.
Nesse ponto feito de lugares, onde há uma multidão só e uma só multidão, (que não significa o mesmo), descobre-se que a vida é uma caixinha de pandora, onde pelo menos um dia, numa noite, numa vida, dividida em partes, nem sempre iguais, a casualidade, ou numa versão mais romântica, o destino, nos solta num olhar, num abraço, num adeus, numa lágrima, num sorriso... ou em tudo isso dividido num nada simultâneo... como duas linhas paralelas que apesar de seguirem lado a lado nunca se encontram.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Despudorado

São oito da manhã na cidade, o que equivale a nove na santa terrinha.  
Os passos ritmados confundem-se com a pressa de chegar a qualquer lugar, ao trabalho, à escola, à vida...Indiferentes a esses tempos muito fora do tempo, há ruas, e estórias para contar. Muitas. Nesse lugar onde ainda moram as lojas e as gentes de antigamente, apeados num tempo que não volta, mas que também não anda para a frente 
A mercearia da esquina, onde se vende a fiado, a barbearia do António, onde o corte de cabelo ou o aparar da barba, custa mais ou menos uma bejeca e umas iscas, ali ao lado na tasca do Albino, onde a Margarida dos cabelos em cachos e as coxas formosas já tem os copos alinhados e a frigideira a fumegar. Lá dentro, ao mesmo tempo em que se sente o cheiro a bifanas, temperadas em vinha de alhos, aquela bela rapariga, onde a idade é uma incógnita, serve copos de café frio, ginjinhas, mata bichos e muitos sorrisos que cativam quem por ali passa.... 

De cinco em cinco minutos Margarida corre para a porta à espera de ver passar o seu amor...mas até agora só viu passar os autocarros. Na sua cabeça mora a emoção da noite anterior, onde um rapaz se fez a si e puxou-a de encontro ao seu corpo... A sua face ruboriza-se com a lembrança. Nos seus lábios mora o desejo daquele beijo, lânguido, atrevido, longo e molhado, que lhe roubou a noite e que lhe devolveu o dia...despudorado.

O artista das emoções

Longe de ser uma longa-metragem, no mínimo poderia ser média, em que o trabalho se mostra numa mostra que é de uma tal coerência, que não se esgota num egoísmo totalitário. O que é particularmente notável é o palco, onde a exibição do artista se cruza e se descruza com olhares mais ou menos críticos, efusivos e enganadores, da expansão e fusão dessa arte, numa espécie de sátira moderna entre quem passa e observa e quem passa e despreza, num acaso desmedido, mas não necessariamente inopinado. Depois há ainda a questão pertinente da duração. Ficar ou não ficar, numa espécie de obstinação, medrosa e ansiosa, mas simultaneamente acorrentada a essa vontade, acalentada por um minimalismo minucioso, que tem por objectivo, sem qualquer subtileza, chegar a algo tangível, como a de alimentar necessidades básicas. E é nesse paradoxo, aguçado pela curiosidade, que se percebe que aquela média metragem, naquela espécie de artesanato emocional, é não mais que toda a vida de um homem errante nessa espécie de limbo, agarrado a uma primeira obra de um ponto de chegada completamente perdido entre um amar ou esquecer.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade?

Será que nasci livre?! Sim, nascida nessa geração no após 25 de Abril.Livre da opressão de um regime onde era proibido falar, contestar e até respirar..., uma ideologia diferente da que existia no poder. Filha de gente que viveu na pele, no centro das operações, o dia da revolução e que por isso sabe um pouco mais, porque um pouco mais me foi transmitido, mais do que o que vem nos livros de história. Não faço ideia do que é viver dessa maneira, mas sei que não poderia estar a escrever o que escrevo, praticamente todos os dias, sem ir parar à prisão do Tarrafal.
Será que somos realmente livres? É a questão que se coloca. Não sei. Apesar do que temos hoje, creio que usamos mal a palavra. Se reflectirmos na sua essência, ninguém é completamente livre. Afinal quem o é? A liberdade de hoje, aquela que vivemos todos os dias, não é mais do que uma "ideia" de uma falsa liberdade, onde cada escolha é condicionada por uma série de regras e de princípios, que são, muito disfarçadamente, de uma forma mais ou menos consciente, "nos oferecidos", pela sociedade, pelo poder politico, pelo poder económico,... onde na realidade, cada vez mais, somos menos livres.

sábado, 23 de abril de 2016

O problema dos "se"

Se me emociono com facilidade.... será que isso faz de mim chorona?
Se me apaixono pelas pessoas.... será que isso faz de mim tolinha?
Se não sei ler e me engano a escrever... será que isso faz de mim analfabeta?
Se olho com sinceridade, mesmo que para aqueles que não o merecem.... será que isso faz de mim cega?
Se roubo um coração e se vejo e sinto em mim, que o amor pode ter vários rostos e significados... será que isso faz de mim gatuna ou trapaceira?
Se.... tanta coisa... É tão fácil julgar, apontar os dedos, as mãos, os pés, os braços,..., todas as partes do corpo, mais ou menos sensuais, muito mais simples do que jogar a roleta russa da vida, que por mais que se planeie, nunca se sabe realmente o que vai acontecer. Chorões, tolinhos, analfabetos,... pouco importa. Cada momento é vivido, a cada momento e tudo o resto são apenas baladas que um dia alguém escreveu para embalar o coração, porque todos, um dia, mesmo que por um breve segundo, têm um.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A adivinha

"Com um beijo só, cobres o rosto do mundo, onde espreitam os tímidos e se escondem os corajosos, porque o amor é como um rasgo de sol num cenário cadavérico, nunca se sabe quando vai (re)aparecer."

A noite é gelada. A lua é arrepiante. A imagem impressiona. Eu fujo, eu escondo-me, eu sento-me atrás de ti sem sequer me veres. Não há pinheiros, não há rochas, há pinhões e pedras. Camisas desfraldadas em calças sem bolsos, e bolsos sem mãos e mãos sem dedos...
"Que perfeição!" Que enlevo de monte. Adora e pasma o mundo, que não o vê, porque na realidade não está lá (o mundo, não o monte), não há nada. Nem luz, nem cores, nem lembranças...Mas eu, essa mão que abre os olhos, esse alguém que abre os braços aos dias do meu leito, quando os dias não aparecem, estou cá. Alma frouxa de prantos mortuários, vítima de um sonho inanimado pronto a ganhar vida, para esculpir as faces com cuspo, num gesto compulsivo, e agarrar as águas que me escapam por entre os dedos à medida que vão nascendo nos meus olhos. O que tenho? O que penso? O que desejo?
São quimeras de sentimentos, nascendo numa terra dura sem sequer lá terem sido semeadas e não é preciso ser-se um génio para divinhar.

 07/03/1998, CR (CM)

sábado, 16 de abril de 2016

Esquecimento

Vejo por esse mundo tantas pessoas esquecidas. Esquecidas na vida, no trabalho, no amor, na vida que levam...esquecidas dos outros e delas próprias...
Seja por vontade própria ou por distracção cerebral (e excluindo as doenças associadas à perda de memória); esquecemo-nos de tanta coisa boa na nossa vida, de tantas pessoas que nos querem e nos fazem bem, que por vezes se confunde, este estado com ingratidão ou egoísmo.  

A vida é feita de momentos e esquecer por esquecer não é problemático, desde que o esquecimento não se torne no nosso modo de vida e o lembrar apenas esse breve momento... Eu prefiro guardar os meus, vivendo-os e sentindo-os, através dos poros da minha pele morena, (agora não tanto dado a falta de sol) mordida pelas dentadas do carinho e da dedicação, de todos os que se cruzam no meu caminho e que me oferecem muito mais do que essa melodia, nascida de uma composição, que vem e vai direitinha ao coração. Inesquecível!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Divagações de dias de chuva

Um dia, naqueles dias em que as palavras não são precisas e onde não são precisas as palavras...nos nano segundos em que as notas musicais, trabalhadas por quem sabe dessa arte, desperta um sorriso no olhar, é quanto basta para o bastante... para a vida ser vivida e interpretada de outra forma. Um poeta da música, das letras, do desenho,..., de todas as artes e que as usa, não com a mania de vedeta, mas com a vontade e o sentimento de quem faz amor por amor e com o coração...Nesse dia... há todo um sentimento por despertar e para (a)brigar, naquele recanto do coração, onde se guarda as meias para dormir e as meias para acordar, porque algum dia temos que o fazer e porque a vida não está para dorminhocos!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Amor incondicional


Amor incondicional
Há "peixe novo na travessa". Os vizinhos são novos, amorosos, afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Mas os seus donos não.
Acordam cedo mas deitam-se tarde e entre este espaço de tempo estão sempre em alerta e fazem exatamente aquilo que se espera deles. Mas os seus donos não.
Ficam quietos à espera de mimos e de limpeza, ocupam um pequeno espaço, em casa ou no quintal e um grande espaço no coração daqueles que os amam e os acolhem. Doces seres que não empurram os seus dejectos à mangueirada pela calçada fora a meio da noite. Mas os seus donos sim.
Que dão amor e amizade eterna, incondicionalmente, aconteça o que acontecer. Mas os seus donos não.
O tempo passa e os vizinhos cresceram, estão maiores, gigantes e subitamente, na cabeça de outros seres menos capazes de pensar, deixaram de ser afáveis, discretos, curiosos, atentos e interessantes. Desapareceram, muito provavelmente despejados à borda de uma estrada, de um beco, de um mundo que não era o seu e longe daquele que conheceram desde que nasceram. Mas os seus donos não. Ali permanecem impávidos e serenos de consciência tranquila, de quem está habituado a ter a barriga cheia e a alma vazia.

sábado, 19 de março de 2016

Dia do pai para sempre

Quando… o dia do pai é todos os dias

Quando isso acontece, dá-se uma reacção química muito estranha. A insignificância de um significado preso numa palavra, com três letras, para explicar ao mundo algo que não tem explicação. Sem conotações comerciais, sem publicidade, ou apelo ao consumismo. Coisas simples que geram relações complicadas. Mas não interessa, porque na verdade o que importa saber, é que na maior parte das vezes, um abraço, é simplesmente um abraço...
Todos deveríamos ter um pai, mas essa utopia só seria realizável se não fossemos todos seres humanos, logo susceptíveis de amar e de magoar, de errar e de perdoar...

Um lugar estranho

A vida é um lugar estranho, é não é?
Um lugar de mil cheiros, sabores e cores, muitas vezes indefinidas, mas que conseguimos identificar perfeitamente, tal como as pessoas, se tivermos coragem de olhar para além daquilo que os nosso olhos nos mostram, onde há muito mais para ver e para sentir, numa linguagem não verbalizada onde verbalizamos cada letra.
Um lugar onde brotam e se perdem oportunidades # escolhas, tal como, amizades # amigos.
Onde a solidão não é um cliché e sim aquele lugar cheio de gente, onde nos perdemos e não sabemos com quem falar, falar com o coração e não falar só no sentido de abrir a boca e vomitar palavras para fazer conversas...da treta.
Tem manhãs, tardes e noites em que me apetecia fumar um longo e demorado charro... não no sentido literal da palavra, mas empiricamente, só pela vontade de ficar num estado Zen.... Para não identificar, olhar, ler, sentir, analisar... não ser aquilo que sou... para o bem e para o mal, demasiadas vezes.
Há dias em que deterioro as palavras, para não deixar que me leiam nas entrelinhas... e o que é mais estranho, é que isso não é para mim, um lugar estranho!


Sofia Copola, Lost in Translation, um dos meus filmes de eleição

terça-feira, 8 de março de 2016

Toda a verdade sobre as mulheres.

Para quem acha que os dias instituídos apenas servem para lembrar, por um momento, consciências mais adormecidas e apesar deste dia ter um significado especial na minha vida pessoal.


Gostaria de dizer a todos os homens que nos amam, que não adianta tirar cursos, conversar com os amigos sobre o assunto, vestirem-se de "nós" no Carnaval, ou tentar perceber o que se passa na nossa cabeça, é tempo inútil e desnecessário... somos aquilo que somos à nossa maneira e de uma forma clara, ou de outra  mais complicada, tudo o que queremos, não é mais do que o que qualquer ser humano quer. Que se esforcem e que se interessem por nós e por aquilo que fazemos com tanto carinho e dedicação... todos os dias do ano, mas se esse interesse vier acompanhado com um ramo de flores, também não faz mal.

sábado, 5 de março de 2016

O tal anuncio


No mundo em que vivemos, há cada vez mais uma maior exigência e critério na selecção de profissionais para determinados cargos...principalmente da esfera politica e financeira:

Profissional, galã e que não se importe de correr o risco de viajar entre alguns processos judiciais, podendo vir a passar alguns dias numa prisão, para meditar ou escrever um livro
Habilitações literárias: Licenciado ou que saiba falsificar o certificado de habilitações que lhe confine tal grau académico, podendo também servir plágios e afins.
Principais competências: Mestre em desviar fundos e corrupção activa. 
Experiência profissional: Não é relevante, vai aprender com os melhores.


Boa Fortuna


Boa Fortuna tem três filhos que correm descalços pelo asfalto para verem o pai chegar, depois de mais um dia de trabalho.  Sua esposa, a Cremilde dos Dias Melhores morreu de uma doença estranha, algures entre a Malária e a Sida. Seus filhos com nomes normais, Pedro de 14 anos, o João de 8 e o Manuel de 5, vivem entre a caridade da associação do bairro e os trabalhos precários e pouco incertos que o pai lá vai arranjando. 
Boa fortuna nunca foi à escola, nunca viu o mar, nunca saiu do bairro.
No ano passado recebeu a visita de uns senhores engravatados com umas bandeirinhas coloridas, vieram discursar sobre um milagre, o “Rendimento mínimo qualquer coisa”. Boa Fortuna não percebeu nada, não é instruído, cresceu demasiado depressa para isso. O presidente do Bairro disse-lhe que ia receber dinheiro e incentivou-o a assinar uns papéis, mas passaram-se meses e nada. Entretanto o presidente mudou de casa, de carro e foi-se embora, mas Boa Fortuna viu-o no outro dia na televisão de um café onde foi recolher o lixo..., o presidente foi levado pela policia. Que pena, era tão boa pessoa!
Boa Fortuna passa fome. Todos os dias por volta das 23h00, aguarda à porta das traseiras de um restaurante da cidade, ao lado do seu bairro. Fica à espera que lhe dêem os restos de comida e eles dão. Para ele, é a primeira e única refeição do dia. Com os sacos cheios de comida boa, regressa a casa. Os filhos estão à sua espera a dormir, algures entre as ratazanas, as baratas e outros bichos de estimação pouco visíveis a olho nu. Boa Fortuna está cansado, por vezes apetece-lhe desistir destes dias longos e duros, acabar com a má sorte que a vida lhe deu... mas quando regressa finalmente a casa e os seus meninos o abraçam cheios de ternura e felicidade, tudo desaparece: a tristeza, o cansaço, a vontade de desistir…
Com três crianças tão belas, Boa Fortuna, só poderia ser um homem afortunado.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pessoas diferentes, diferentes pessoas

Quem pensa que na "santa terrinha" não há agitação engana-se...aqui, o cartaz cultural é muito diversificado, tanto, que o complicado é estar ao mesmo tempo em todo o lado, mesmo quando o já ali, é já ali e essa cultura pode muito bem ter a ver com brócolos, espinafres, cebolas, batatas..., porque fazer germinar qualquer coisa da terra, também é uma arte. A arte de colocar um pedaço de comida na mesa para afastar a fome.
Aqui, as pessoas conhecem-se desde o tempo dos avós e quando não se conhecem, especulam sobre as famílias, tentando adivinhar a casta que deu sabor a essa uva, correndo o risco de encontrar apenas o mosto.
De onde vens não interessa, apenas quem és, essencialmente como ser humano, sem corantes para impressionar a nata, que nada vale quando se prova o creme e se dá conta que, tirando a aparência, não sabe a nada e a nada sabe. Um caminho com estradas sinuosas, que pode levar anos, décadas ou séculos a ser percorrido...de tal forma que até os tractores fazem corridas em autoestradas de terra batida, como se fossem máquinas de fórmula 1 e mesmo assim demoram a chegar lá... porque na verdade não importa muito de onde vens, o que interessa é para onde vais todos os dias quando interiormente te levantas, ... se escolheres levantar-te! Será que hoje é um desses dias?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Cuba dos dias meus

Cuba dos dias meus...
E depois da chegada de Obama à ilha de Fidel o que será de Cuba?
O que será de Havana? Cidade perdida no tempo em que os automóveis parecem marcar o passo de uma terra caliente e mística!
Onde o melhor restaurante não é o conhecido La Bodeguita del Mideo, com suas paredes repletas de escritos e de assinaturas de seus visitantes: Salvador Allende, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Catirolas... mas sim na casa de um cubano (de uma habitação de paredes singelas e de poucas comodidades), que conhecemos ali mesmo na hora e na rua, mas que nos enche a alma e o espaço com a comida boa e a hospitalidade momentânea, que tanto caracteriza este povo.
Sim, claro que nem tudo é bom. Nas ruas ou nos hotéis de cinco estrelas, a prostituição preenche o vazio das necessidades, e isso é notório e visível! Não há centros comerciais, há farmácias e lojas de outros tempo, como um retrato antigo de uma história que não avançou.
Há gente de cor de chocolate com um sorriso aberto e hospitaleiro misturado pelo tráfico de charutos, dos trabalhadores das fábricas mesmo ali ao lado, mas que pela aventura, como num filme de gagnsters vale a pena arriscar.
Detentora de uma paisagem ímpar e de um clima e águas quentes e transparentes, o que mais encanta nesta ilha, é o retrato urbano a desbravar, e a música que faz mexer em qualquer lado, de manhã à noite: Company Segundo, Buena Vista Social Club, La Lupe... são apenas alguns dos nomes imortais, mas tantos outros há... Uma música que por mais se escute, soa diferente quando lá se está.
Não sei o que será de Cuba depois de Obama, creio que não quero saber...prefiro guardá-la assim para mim do modo como a conheci e me marcou, inocente!



¿Qué te importa que te ame,
si tú no me quieres ya?
El amor que ya ha pasado
no se debe recordar

Fui la ilusión de tu vida
un día lejano ya,
Hoy represento el pasado,
no me puedo conformar.

Si las cosas que uno quiere
se pudieran alcanzar,
tú me quisieras lo mismo
que veinte años atrás.

Con qué tristeza miramos
un amor que se nos va
Es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad

Buena vista social club

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Pagar para viver

Para lá de um debate de um orçamento que todos já sabem como vai acabar, há um mundo.
Um mundo que faz a tia Alice de 90 anos, levantar-se cedo para ir ao mercado vender os ovos que as suas galinhas poedeiras, que tem que registar até final do mês de fevereiro, lhe dão. Mulher nortenha habituada ao frio e indiferente aos "mimos" que os partidos trocam na Assembleia da República, enquanto definem em cada palavra traduzida em normas e em regras a sua vida, com um bisturi e uma agulha onde se corta aqui e se remenda acolá. Regras que de uma forma mais consistente nos afectam a todos, na cidade ou na aldeia... e não me venham dizer que não sabem, que não querem saber e que isso não muda nada!
Pode até ser a realidade para muitos, mas a verdade é que vivemos num mundo, indiferentes a ele ou não, onde cada vez mais é preciso pagar para viver... Literalmente.

Imagem: internet



sábado, 20 de fevereiro de 2016

LIKESinhos

Tanto que fazer e ao mesmo tempo nada realmente feito, mas dizer que se faz também é fazer alguma coisa, nem que seja apenas falar. E pensar que toda a vez que se abre uma janela há um ar que se levanta.
Somos portugueses, humanos, inteligentes, confiantes, cheios de potencialidade, somos aqueles que ponderamos todas as decisões para depois executar impulsivamente, muitas vezes ao contrário. Porque parar para perguntar o caminho quando estamos perdidos, não é orgulho lusitano, é pura perca de tempo. 
Não somos escravos desse desejo infinito de ultrapassar uma etapa para poder estabelecer logo outra, somos apenas adeptos ferrenhos das dificuldades, porque é a ausência do vazio que nos faz viver...Um punhado de gente simpática e hospitaleira que come sardinhas e bebe vinho carrascão, a sonhar com as férias.... para  colocar as fotos num lugar estranho, que outros estranhos depressa enchem de LIKES.


Se é Catarina, é certamente de boa colheita e para beber de preferência várias vezes, de um travo só.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Love Letter


Hoje resolvi recuperar aqui uma coisa que escrevi em 2010.
Não é estranho que passados dez anos tudo continue igual?

Por que é que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos? Ernest Gaines

Querido Pedro!
Não o sei bem o que pensar de um gajo que houve Heavy Metal e lê Fernando Pessoa, mas tenho saudades dos momentos que não vou encontrar, por já não estares no meu caminho, melancolia pelas palavras processadas nas tardes de domingo, no jardim de um raio de sol, entre a minha imaginação e a realidade do teu olhar. Alguma vez te disse? Tantas vezes, mas tantas vezes em sonhos e tão poucas na tua presença… Eu procurei, mas não achei…o livro de cheques debaixo da minha mesa-de-cabeceira, onde te queria escrever palavras bonitas, com vários zeros, como tu gostas; mas agora as palavras foram-se, molharam-se com a chuva do norte, num grito de incontinência e agora tenho que secá-las com o vento do sul, antes que penses que sou um tipo normal, gordo, careca, sarnoso, que gosta de fazer pouco e de dizer que faz muito, que gosta de ver filmes românticos e de andar de mão dada pela Avenida da Liberdade, apesar dos insultos e dos olhares, numa demonstração clara de afeto. Antes que descubras que choro todos os dias, desde que deixámos de fazer filmes pornográficos no soalho de madeira da sala, da casa da tua mãe, depois de assumirmos a nossa sexualidade ao mundo, sem medos e preconceitos. Antes que aprendas a amar, deixes o outro tipo enfatuado da Quinta do Lago, que te deu tudo o que eu não tinha para te dar, um amor monetário e voltes para mim.
Aquele abraço apertado, João.
Nota: Tenho tantas saudades do teu rabo.
Existe uma ilusão de que os homossexuais fazem sexo e os heterossexuais se apaixonam. É uma completa inverdade. Todo mundo quer ser amado.
Robert Louis Stevenson

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Estórias # Histórias

Tenho saudades do tempo em que descia as escadas, da velhinha casa, da minha avó Helena, daquelas casas tipicamente beirãs, com a adega e a loja por baixo, onde as arcas de madeira, cheias de sal, faziam as vezes do frigorífico. Naquele lugar em que os dias outonais mostravam todo o poder das folhas, que se amontoavam, como se estivessem reunidas para um comício, interrompido pelo som sibilante de uma tarde de setembro e das tuas lenga lengas, que herdei de ti com muito carinho.
Já passaram alguns anos, querida avó, desde o tempo em que me contavas as histórias dos nossos antepassados e que eu as registei num caderno para perpetuar essa memória, uns rabiscos que guardo comigo...tenho saudades de ti, desses momentos e desse lugar!
Certo dia voltei lá... a água das fontes continua fresca, as montanhas aborrecidas com o musgo que as envolve, mas o pobre sobreiro está agora ligado aos fios da civilização, por estradas serpenteadas em ziguezagues teimoso e os ribeiros, outrora atravessados por pontes velhas, são apenas lembranças em museus de aldeias...
A casa está vazia, mas na cozinha de pedra, o ar parece impregnado pelo cheiro a café de pão, acabados de fazer. Por um momento, quase que consigo ver-te sentada ao lume num dos bancos de madeira tosca, a retirar a cafeteira mascarrada e a deitar o café no púcaro de esmalte... ao mesmo tempo que me dizias: "Cuidado menina que está quente"!




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Geração do Limbo

Quase 20 dias depois de ter escrito o último texto (nem parece meu), e depois de ter absorvido uma série de matérias eis que me sai disto.
Não sei precisar exactamente quantos anos de vivência tenho (# de anos de vida), mas sei que pertenço a uma geração, essa que primeiro foi rasca, que viu e cresceu a ouvir contar histórias dos sacrifícios de seus pais e dos seus avós, que nunca saíram para lado nenhum, (alguns nem nunca viram o mar, apesar de viverem a 5km da costa) e que pensou "a minha vida vai ser diferente".
E foi realmente...
Uma geração que estudou muito... foi até ao fim da carreira, em idade em que a palavra fim, só tem significado quando não acaba, (como noites sem fim)
Um punhado de gente que primeiro dominou o português, depois o inglês, o francês e finalmente o "computalês". Os mesmos que foram cobaias e pioneiros no mundo das tecnologias, tudo, bips, telemóveis, tablets, e por aí fora. 
Que arranjou o primeiro emprego cedo, logo recrutados há porta da faculdade com o pensamento "somos bons!" E que quando os anos passaram começou a dar conta que, aquele primeiro emprego, em que ganhavam mal (aqueles que tiveram a sorte de ganhar alguma coisa), passou depois para o segundo e para o terceiro e assim por aí fora. 
Uma geração que passou quase 20 anos a fazer praticamente o mesmo, mas a ganhar menos do que quando começou, com a diferença de ter mais encargos, (aqueles que não tiveram juízo e saíram de casa dos pais) mais idade, menos vontade de aturar entretanto os colegas, aqueles que já poderiam estar reformados e que por causa das leis, não estão e os que entraram agora e que acham que por serem mais novos, mais giros e mais... (nós quando éramos da idade deles), podem passar por cima de todos (e podem realmente). Tudo isso com menos dinheiro no bolso, (dos poucos fatos de marca que ainda não colocámos à venda numa plataforma de venda online),  uma parte gasto nas despesas familiares e o restante com vitaminas e antidepressivos, "drogas", para quem está a atravessar uma idade em que o o teu corpo te diz: já não és um miúdo e a cabeça te impele precisamente para o contrário.

Foto: Internet